Ewa Krawczyk/National Cancer Institute via AP
Ewa Krawczyk/National Cancer Institute via AP

Fábio de Castro e Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

24 Março 2017 | 03h00

Erros imprevisíveis e aleatórios que acontecem naturalmente no processo de duplicação do DNA são responsáveis por cerca de 66% (2/3) das mutações celulares que causam câncer, de acordo com novo estudo realizado por cientistas americanos e publicado nesta quinta-feira, 23, na revista Science. Os autores atribuem 29% dessas mutações a fatores ambientais e apenas 5% a fatores hereditários.

No estudo, os cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, utilizaram um modelo matemático para analisar sequências de DNA de 32 tipos de tumores e associaram esses resultados a dados epidemiológicos obtidos em 423 bases de dados de 69 países. Eles concluíram que, na média para todos os tipos de câncer, dois terços das mutações são atribuídas a erros aleatórios no processo de cópia do DNA, durante a divisão natural das células. “Já é bem conhecido que devemos evitar fatores ambientais como o tabagismo para reduzir nosso risco de ter câncer. Mas é preciso lembrar que cada vez que uma célula normal se divide e faz uma cópia de seu DNA, para produzir duas novas células, ela comete múltiplos erros”, disse um dos autores do estudo, Cristian Tomasetti.

“Esses erros de duplicação são uma potente fonte de mutações tumorais que historicamente têm sido cientificamente subestimados. Esse novo estudo fornece pela primeira vez a estimativa da quantidade de mutações que é causada por esses erros”, explicou.

Segundo outro dos líderes do estudo, Bert Vogelstein, também da Johns Hopkins, apesar das conclusões do estudo, é preciso continuar a estimular as pessoas a evitarem agentes ambientais e estilos de vida que aumentem o risco de desenvolver mutações que levam ao câncer.

“No entanto, muita gente ainda desenvolverá tumores por causa desses erros aleatórios na duplicação do DNA. Por isso, precisamos com urgência de métodos melhores para detectar todos os tipos de câncer mais precocemente, enquanto eles ainda são curáveis”, afirmou Vogelstein.

De acordo com o cientista, na maior parte das vezes os erros de duplicação não causam dano algum. Mas ocasionalmente aparecem em um gene que regula a proliferação celular, levando ao câncer. “Nosso objetivo era tentar pela primeira vez calcular quantas dessas mutações encontradas no câncer são causadas pelo ambiente, hereditariedade, ou um fator aleatório.”

Os cientistas estimam, por exemplo, que as mutações cruciais para os tumores do pâncreas são provocadas por erros aleatórios em 77% dos casos, por fatores ambientais em 18% e por fatores hereditários em 5%. Nos tumores da próstata, do cérebro ou dos ossos, mais de 95% das mutações são atribuídas a erros aleatórios de duplicação, segundo o estudo. Já no câncer de pulmão, 65% das mutações são decorrentes de fatores ambientais – em especial o cigarro – e 35% aos erros de cópia do DNA. Não há registro de fatores hereditários relacionados a câncer de pulmão.

Acaso e prevenção. De acordo com Vilma Regina Martins, superintendente de pesquisa do A.C. Camargo, o estudo ajuda a explicar casos de pessoas que nunca fumaram e tiveram um câncer de pulmão, por exemplo. “Os pesquisadores explicam que, de fato, existe uma fração de casos que não está ligada ao fumo e pode ser causada por mutações aleatórias. Mas isso em nenhuma hipótese elimina a busca pela prevenção dos fatores de risco. Só mostra que existem tumores que não estão ligados ao ambiente e, nesses casos, a detecção e o tratamento precoce são importantes.”

Roger Chammas, coordenador do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), faz uma ressalva: as alterações ambientais talvez não sejam indutoras diretas das mutações, mas seu papel indireto não pode ser descartado. “O que esse estudo mostra é que é muito difícil predizer quando vai acontecer uma mutação. Por causa disso, talvez ele não seja tão evitável quanto a gente gostaria. Mas os fatores ambientais, assim como os hereditários, interferem na chance de termos alterações replicativas. E talvez a gente ainda não conheça todos os detalhes sobre fatores ambientais que provoquem isso”, explicou.

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Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

24 Março 2017 | 03h00

Aos 23 anos, o cotidiano do paulistano João Becheli começava na praia. Logo cedo, ele dedicava algumas horas ao surfe antes de partir para o trabalho como roteirista em um canal de televisão de Fortaleza. Morando sozinho pela primeira vez, “descobrindo a vida”, como diz, o jovem, hoje com 33 anos, foi diagnosticado em 2006 com linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que afeta as células de defesa do corpo. “Foi um susto. O nome ‘câncer’ inevitavelmente assusta. Não conhecia ninguém que tinha tido. Não sabia o que aconteceria. Foram dias confusos no começo”, relembra. 

O diagnóstico inesperado foi sucedido de oito meses de tratamento em 2006, que se repetiram outras duas vezes, quando a doença retornou em 2011 e 2015, ano em que João foi submetido a transplante de medula autólogo (quando o material provém do próprio paciente). “Até já brinquei que poderia pedir música no Fantástico.”

Sem nenhum fator genético que o ligue à doença, João vê as experiências como “fases desconfortáveis e de muito aprendizado”. Afinal, segundo ele, não há diagnósticos que expliquem o motivo de ter enfrentado o linfoma três vezes. “Sempre mantive hábitos saudáveis, amo esportes”, diz o morador do Sacomã, zona sul da capital, que nada regularmente e costuma andar de skate nas imediações do Parque da Independência “sempre que sobra tempo”.

Longe da menopausa. Assim como João, Amanda Cabral Benites descobriu a doença muito jovem, aos 21 anos. Segundo ela, o diagnóstico causou surpresa até nos médicos, pois o câncer de ovário epitelial costuma atingir mulheres que estão na menopausa. “Eu tinha saúde de ferro, não pegava nem gripe. Nunca fumei, nunca bebi, não tinha sobrepeso. Minha vida era muito ativa, eu trabalhava e fazia faculdade. Não imaginava que passaria por isso tão nova”, relembra ela, que também teve resultado negativo no exame de herança genética. 

“Era uma vida que você olha e questiona ‘o que aconteceu?’. Não tem explicação. É tudo muito nebuloso, o que deixa a gente, enquanto paciente, até mais confuso”, diz. Amanda relata que ouviu muita especulação de conhecidos e parentes para explicar sua doença, desde comer nuggets na infância até gostar de chocolate. “O tema ainda é tabu. Muita gente não aceita não ter uma explicação, até por medo”, relembra.

Nascida em Maringá, no Paraná, a jovem, agora com 25 anos, está em estágio remissivo há dois anos e meio, depois de ter passado por quimioterapia e uma série de cirurgias, que resultaram em uma menopausa precoce. Desde 2014, ela relata sua experiência no blog Tira o Lenço, que virou um canal no YouTube em 2015. 

“Eu tenho uma vida tão saudável quanto antes. Tem um período que a gente acha que é culpado pelo o que aconteceu, mas uma vida saudável não é garantia de que nada vai acontecer, embora diminua os riscos”, comenta a jovem, que pratica exercícios com regularidade, mas não abre mão de eventualmente comer carne ou produtos com açúcar refinado.

“Continuo não bebendo, não fumando. Esse extremismo prejudica. A pessoa acaba ficando triste, refém de si, se expõe ao exagero, a uma situação tão limite quanto na época do tratamento”, opina a tradutora e professora de inglês, que se mudou para São Paulo em 2016 para fazer um mestrado na USP.

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Antonio Carlos Buzaid e Fernando Maluf *, O Estado de S.Paulo

24 Março 2017 | 03h00

Deve-se deixar claro que esses dados (de que erros imprevisíveis e aleatórios que acontecem naturalmente no processo de duplicação do DNA são responsáveis por cerca de 66% das mutações celulares que causam câncer) ainda devem ser corroborados por outros cientistas. Existem outros trabalhos que precedem este publicado agora, que levantam a suspeita de que 90% dos tumores tenham causas ambientais e, ainda, que boa parte tenha erros genéticos natos ou durante a replicação de células, mudando totalmente o conceito difundido até pouco tempo. 

Sabe-se hoje, também, que se deve atribuir à genética somente 10% de todos os cânceres.

Este trabalho questiona conceitos com análises preliminares e importantes, mas não consegue, de forma definitiva, provar que as causas ambientais não representam o maior fator de risco para câncer. Essa associação de fator ambiental com uma potencial predisposição para a doença ainda parece ter mais força, acima de um erro aleatório de replicação, que talvez não tenha impacto suficiente para ser fator decisivo de risco. 

De qualquer forma, assumindo que os pesquisadores estejam corretos, temos uma oportunidade de reduzir o câncer em aproximadamente 30% dos casos, também atuando de modo mais assertivo em fatores ambientais como fumo, obesidade, e alimentação.

* ONCOLOGISTAS E FUNDADORES DO INSTITUTO VENCER O CÂNCER

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