Cleveland Clinic/Reuters/Divulgação
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Erros médicos levam cirurgiões a pensar em suicídio, diz estudo americano

Excesso de trabalho e depressão também contribuem; profissionais relutam em procurar ajuda

AP

18 Janeiro 2011 | 20h01

CHICAGO - Um estudo sugere que erros médicos, excesso de trabalho e depressão levam cirurgiões a pensar em suicídio mais frequentemente que as pessoas em geral, e que eles são muito menos propensos a buscar ajuda.

O medo de perder o emprego contribui para a relutância dos profissionais em obter tratamento mental, de acordo com a pesquisa, que envolveu cerca de 8 mil voluntários e aparece na edição de janeiro da revista Archives of Surgery. O levantamento foi encomendado pelo Colégio Americano de Cirurgiões, e os participantes responderam às perguntas por e-mail, anonimamente.

Cerca de 6% relataram pensamentos suicidas recentes, taxa que subiu para 16% entre aqueles que haviam cometido um grande erro há pouco tempo, embora não se tivesse certeza se esse era realmente o motivo.

Apenas um quarto dos médicos com pensamentos suicidas solicitou ajuda de um especialista em saúde mental. Entre a população geral, cerca de 3% têm pensamentos suicidas e 44% procuram tratamento, segundo revelam outros trabalhos.

"Os cirurgiões relataram uma grande preocupação com as repercussões de uma possível licença, e muitos admitiram que se automedicam com antidepressivos", afirma o dr. Tait Shanafelt, da Clínica Mayo (EUA), e autor do estudo. Kelly McCoy e Sally Carty, outros autores e também cirurgiões da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, disseram que essas questões são muitas vezes ignoradas.

O médico Robert Lehmberg, de 63 anos, foi estimulado por amigos próximos a buscar tratamento contra depressão e pensamentos suicidas há vários anos. Embora temesse perder sua licença e ser estigmatizado, isso não ocorreu, e segundo ele a medicação e a psicoterapia têm ajudado muito.

Trabalhar de 60 a 80 horas semanais em uma movimentada clínica de cirurgia plástica em Little Rock, Arkansas, contribuiu para a depressão de Lehmberg, apesar de ele sempre ter sido cuidadoso para evitar erros. "Os cirurgiões aprendem que os pacientes são sua responsabilidade, ponto final. Assim, se algo der errado, levam isso para um lado extremamente pessoal", conta Lehmberg, que não participou da pesquisa. Ele agora trabalha com cuidados paliativos, ajudando a aliviar o sofrimento de pacientes terminais.

Os voluntários foram questionados sobre se tinham tido pensamentos suicidas no ano anterior ao levantamento. Não houve perguntas sobre tentativas de suicídio, mas os autores disseram que cerca de 50% das pessoas que pensam no assunto fazem pelo menos uma.

O estudo não abordou razões específicas pelas quais os médicos tinham pensado em suicídio, mas sugere fortemente que a depressão, a jornada excessiva e os erros médicos são fatores contribuintes. Em menor escala, o fato de ser solteiro, separado ou ter filhos também influenciou. Outros fatores podem ainda ter colaborado para o risco desse tipo de pensamentos.

Resultados publicados anteriormente a partir da mesma pesquisa mostraram que quase 9% dos cirurgiões participantes disseram que tinham cometido um grande erro médico recente. Os profissionais consultados trabalham em média 60 horas por semana; 40% sentiam síndrome de Burnout (também chamada de síndrome do esgotamento profissional); e 30% tinham sintomas de depressão. A maioria disse que destinava pouco tempo para a vida pessoal e familiar.

Poucos dos que cumpriam menos de 40 horas semanais tiveram pensamentos suicidas. Cirurgiões trabalham por muito tempo, em horários irregulares, em um ambiente que valoriza a abnegação, a resiliência, e tende a interpretar imperfeições como fracasso, destacam os pesquisadores.

O estudo consultou apenas cirurgiões, de modo que não se sabe se eles têm uma taxa mais elevada de tendências suicidas que os outros médicos.

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