Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Escola para quê?

Se aprender a conviver faz parte do processo da educação, entendo autistas que se sentirem negligenciados pelos pais e escola que olhavam só o resultado do boletim

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2022 | 03h00

Ao fim do colegial (hoje Ensino Médio), na escola em que estudei, recebíamos um livro de fotos com todos os alunos. Ana, colega de turma, escreveu no meu “...a gente vem para a escola não para aprender Geometria ou Química, a gente vem pra escola pra aprender a viver em sociedade e entender a vida”. Eu sempre pensei naquele espaço como aprender conteúdos e tive um pipoco mental com suas palavras.

No nível 1 do autismo são comuns relatos de bom desempenho escolar na parte dos conteúdos. Já a sociabilização varia bastante. Se aprender a conviver faz parte do processo da educação, entendo autistas que se sentirem negligenciados pelos pais e escola que olhavam só o resultado do boletim. O ditado iorubá que se popularizou pelo mundo “it takes a village to raise a child/é preciso de uma comunidade para criar uma criança” nos lembra que o processo é de todos nós. 

Ilana Katz, psicanalista com pós-doutorado em psicologia clínica pela USP, pesquisadora do IP/USP e doutora em educação também pela USP, diz que “aprender é sempre uma experiência que se dá na relação com os outros: de um outro que pode ter escrito um texto, que está lá na frente na sala de aula falando, de um colega que trouxe uma informação”.

Diferente do diagnóstico de saúde, o diagnóstico pedagógico foca nas condições de aprendizagem da pessoa, que varia dentro do espectro. “O que ele precisa para seguir aprendendo? O que ele já sabe, o que não sabe, quais são as suas condições mais e menos favoráveis para que ele se firme no seu laço com os outros? Isso responde ao enfrentamento das barreiras, à efetiva inclusão desse sujeito na escola como um direito fundamental”, explica.

A aprendizagem, no campo do autismo, passa pela compreensão de como essa experiência acontece na medida de suportabilidade de cada um. A sociabilidade é parte do enfrentamento de barreiras. “É importante todos estarem na escola regular porque o encontro com a diversidade, em si, ensina. Uma escola que oferece essa oportunidade para pessoas não autistas e autistas está preparando sujeitos para uma vida num mundo como ele tem que ser, numa experiência mais democrática.”

Os efeitos dessa oportunidade são sentidos no desenvolvimento das crianças e das famílias que enxergam o diagnóstico, de autismo ou qualquer outro transtorno, com culpa e perda de possibilidades de seus filhos.

“Se eu te disser que você tem um diagnóstico e toda a condição de viver bem, porque a cidade que você vive vai cuidar de você e você vai ter lugar aqui, isso tem um impacto diferente de eu te comunicar um diagnóstico que vem junto com toda a cultura e a resposta capacitista da sociedade que a gente vive. Uma deficiência é o encontro de uma limitação do corpo com as barreiras sociais. O nosso papel é como a gente vai fazer o enfrentamento dessas barreiras para que a participação social dessa pessoa possa ser o mais ampla possível.”

Observar generosamente as diferenças que compõe a sociedade é trabalhá-la para que não nos tornemos trapos de grupos unidos por linhas esgarçadas, como nos dias de hoje. Focados em cada indivíduo e sua liberdade única, esquecemos de pactos sociais que tornam possível a convivência e o desenvolvimento do todo. Talvez precisemos voltar à escola e lembrar o que Ana me escreveu: “a gente vem aqui para aprender a conviver”.

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