Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Escrever sobre o 'medo pré-prova' melhora a nota, aponta estudo

Estratégia de redigir texto por 10 minutos sobre a própria ansiedade diminui insegurança no exame

Alexandre Gonçalves e Ana Bizzotto, de O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2011 | 19h54

SÃO PAULO - Escrever durante dez minutos sobre as próprias preocupações, antes de começar uma prova, diminui a ansiedade e aumenta a nota. É o que mostra um estudo publicado na última edição da revista Science por psicólogos da Universidade de Chicago.

Para Sian Beilock, coordenadora da pesquisa, a estratégia pode ser usada em outros contextos. “De fato, ela deve funcionar em várias situações estressantes: uma apresentação para um cliente, uma palestra ou até uma entrevista de trabalho”, aponta Beilock. Para comprovar a eficácia do método, os cientistas realizaram dois experimentos.

No primeiro, submeteram 20 alunos do ensino médio a um breve exame de matemática. Então, antes de aplicar uma nova prova, criaram uma situação para induzir estresse: prometeram dinheiro para os melhores colocados. Disseram também que o teste fazia parte de um trabalho em equipe e, portanto, outras pessoas dependiam dos resultados. Por fim, contaram aos estudantes que seriam filmados.

Antes de aplicar o segundo exame, metade do grupo deveria escrever por dez minutos sobre os sentimentos e preocupações na iminência da prova. A outra metade permaneceria em silêncio na sala. O desempenho dos voluntários que escreveram sobre sua situação melhorou 5% no segundo teste. O rendimento dos demais, que enfrentaram a ansiedade em silêncio, piorou 12%.

O segundo experimento classificava previamente os jovens em dois grupos: ansiosos e tranquilos. Antes de um exame de biologia, metade dos ansiosos deveria escrever sobre seus sentimentos e a outra metade, sobre temas alheios à prova. A análise das notas mostrou que os alunos ansiosos que descreveram suas preocupações conseguiram um desempenho tão bom quanto os tranquilos: conceito B+, em média. Aqueles que escreveram sobre outros temas antes do exame alcançaram um conceito médio inferior: B-.

Gerardo Ramirez, coautor do trabalho, afirma que não vê a estratégia como uma solução para pessoas que sofrem de ansiedade crônica. Ela funcionaria como uma solução temporária para situações concretas de estresse. Em resumo, não substitui o tratamento de transtornos de ansiedade, mas pode ajudar.

O psicólogo gaúcho Fernando Elias José, especialista em ansiedade prévia a exames, elogiou os resultados do estudo americano. “Pretendo dar a dica aos meus pacientes”, diz. José explica que o exercício de escrever sobre os próprios medos leva a ansiedade ao terreno do pensamento e da razão, onde pode ser controlada.

Vestibular

Ao saber da pesquisa da Universidade de Chicago, a estudante Yukari Guerreiro, de 18 anos, afirmou que escrever sobre o que sentia poderia ter ajudado. “Nunca testei, mas pode ser que funcionasse para aliviar o estresse. Se já desabafasse tudo de uma vez, talvez não pensaria tanto nisso."

No caso de Yukari, o nervosismo contribuiu pela segunda vez para adiar seu sonho: ela não passou nas provas para Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Engenharia Armamentista no Instituto Militar de Engenharia (IME). “Tremo, não penso em outra coisa, o coração acelera. Já cheguei estressada por não ter dormido e não consegui resolver algumas questões por causa do nervosismo, que me atrapalha muito. Quando estou muito tensa, o cérebro fica limitado e não consigo raciocinar direito", conta.

Para Jady Auada, de 18 anos, a estratégia para espantar a ansiedade é ouvir música em casa e não conversar antes da prova. Após um ano de cursinho, ela tenta ingressar em Engenharia Química. Para a estudante, escrever sobre o que sente antes do vestibular não a ajudaria. “Eu lembraria mais do nervosismo e surgiriam mais coisas na minha cabeça, mais emoção", acredita.

Há também quem prefira conversar antes da prova. Para aliviar a tensão, a estudante Fernanda Colejo, de 19 anos, pede “uma força lá do alto” e compartilha a ansiedade com os amigos, já que o sentimento é comum à maioria do grupo. Pela segunda vez, ela tentar entrar em Arquitetura. “É uma pressão muito grande, não só da família, mas da sociedade. Começo a suar frio, tenho dor de estômago, dá vontade de chorar e tenho taquicardia”, desabafa. “Tento relaxar e não pensar muito. E respiro fundo para me acalmar, porque, se não controlar o nervosismo, a adrenalina sobe e nem consigo fazer as questões”, revela.

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