Especialista defende remédios experimentais para conter Ebola

Infectologista norte-americano dos Médicos Sem Fronteiras, atende a pacientes na África Ocidental

Entrevista com

Armand Sprecher

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2014 | 21h00

RIO - Especialista em febres hemorrágicas, o infectologista norte-americano Armand Sprecher, do grupo Médicos Sem Fronteiras, viu os efeitos do Ebola de perto: trabalhou na Libéria, na Guiné e em Serra Leoa, os três países mais afetados pelo surto, voltou para Bruxelas, um dos centros operacionais do MSF, para tratar do envio de reforços, e, na semana que vem, voltará à África. 

Diante dos efeitos devastadores da disseminação do vírus (são ao todo 961 mortos), ele defende a distribuição na região de remédios que ainda não passaram por todos os testes de segurança e eficácia regulares, como a droga experimental usada para tratar um médico e uma missionária norte-americanos infectados na Libéria. 

Como estão as pesquisas para o desenvolvimento de tratamento e vacina contra o Ebola? 

Nós estamos em contato com pesquisadores e sabemos que existem algumas drogas e vacinas em estágios iniciais de desenvolvimento. Em alguns cobaias primatas se viram resultados promissores com drogas, o que é um primeiro sinal de que elas podem ser seguras e eficazes em humanos. Mas até hoje nenhuma delas foi testada em humanos, doentes ou saudáveis. Pelo que sabemos, só em dois anos poderemos ter uma droga ou vacina segura e aprovada disponível para os profissionais de saúde. Os procedimentos regulatórios podem ser muito longos para se organizar mais testes. 

A droga experimental usada nos dois norte-americanos contaminados é promissora?

Sim. É a única que parece ser eficaz em pessoas que já desenvolveram sintomas. Outras teriam de ser administradas um ou dois dias depois de a pessoa ser infectada, quando os sintomas ainda não são visíveis. A melhora rápida sentida pelo primeiro missionário tratado nos dá esperanças.

Por que é tão incomum usar uma droga que está em fase tão inicial de desenvolvimento?

Quando se desenvolve um novo remédio ou vacina, você normalmente testa em pequenos animais e depois em primatas, para se ter uma noção se é danoso ou não (segurança) e se é capaz de curar ou prevenir uma doença (eficácia). Se os resultados são positivos, ela então é testada em humanos saudáveis para se checar a segurança antes de usar em doentes (ou pessoas expostas, no caso de vacinas). Agora, a discussão é distribuir a droga que já demonstrou ter segurança e eficácia promissoras entre primatas, mas ainda não passou pelas outras fases. Isso é uma medida extraordinária que só deve ser tomada em circunstâncias extraordinárias, principalmente quando médicos acreditam que as pessoas provavelmente vão morrer, e que vale a pena tentar o tratamento.

Essa droga experimental deveria ser distribuída pelas regiões afetadas para salvar vidas?

A principal preocupação é com a segurança. Nós não sabemos se essa droga pode fazer mal ao paciente e de que maneira. Se reagem mal, nós podemos acabar colocando os pacientes em um perigo ainda maior. A droga que foi dada aos dois norte-americanos são basicamente anticorpos. Existem vários outros tratamentos usados para outras doenças que têm como base anticorpos, então nós sabemos quais são os efeitos colaterais mais prováveis (em sua maioria, alergias), então estamos preparados. Considerando a alta mortalidade causada pelo Ebola, se estamos confiantes de que os níveis de segurança são bons, MSF acreditam que seria uma boa opção. Mas claro que não há garantia de que todos os pacientes serão curados.

Em que circunstâncias MSF optariam por usar essa droga no surto atual?

MSF querem que seus pacientes se beneficiem de uma dessas drogas e espera que todas as barreiras possam ser removidas para que isso aconteça. A primeira e mais óbvia delas está relacionada à produção. Como é uma droga experimental, o fabricante não tem grandes estoques, e teria que ver quão rápido poderia produzir centenas de doses. A segunda questão é a regulação. Conseguir contornar as diferentes etapas de pesquisa geralmente requeridas no desenvolvimento de um remédio significa que os órgãos de regulação que aprovam seu uso e exportação teriam que aprová-los excepcionalmente. O primeiro passo é dado pelo órgão regulador do país onde a droga é produzida, e obviamente os governos dos países onde as drogas seriam administradas deveriam trabalhar para isso. Eles teriam que dar suporte legal e ético para que isso acontecesse. Por fim, é impensável administrar uma nova droga sem que se levantem meticulosamente os dados dos pacientes e os monitorem. Isso significaria mais recursos humanos nos centros de tratamento. Hoje, MSF estão sobrecarregados, tentando atender aos três países mais afetados, e ajuda extra seria necessária.

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