REUTERS/Amanda Perobelli
REUTERS/Amanda Perobelli

Especialistas criticam recontagem de óbitos pelo governo; subnotificação é problema no País

Cientistas divergem do Ministério de Saúde e afirmam que Brasil tem mais mortes que as oficiais por coronavírus

Gonçalo Junior e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 15h57

Enquanto o governo federal pretende rever os critérios das mortes por coronavírus por indícios de que os dados estariam sendo supostamente inflacionados por municípios e estados, como afirmou o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, neste sábado, os cientistas afirmam exatamente o oposto. Para virologistas e epidemiologistas, o número de vítimas no País é muito maior do que indicam os dados oficiais. Especialistas também veem na mudança de metodologia de divulgação do Ministério da Saúde uma manobra para se criar falsa sensação de controle da doença.

Nas contas de Domingos Alves, coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), o número de mortes no Brasil seria 40% maior. Ou seja, enquanto os números oficiais apontam 35139 mortes nesta sexta-feira, os dados corretos estariam perto de 49 mil óbitos. “Numa estimativa até simplória, nós mostramos que os óbitos mostrados nos boletins envolvem no máximo 60% do total. E nós procuramos não ser alarmistas”, diz Alves, que integra a equipe Covid-19 Brasil, formada por cientistas independentes de várias instituições brasileiras de pesquisa que monitoram em tempo real dos dados sobre a propagação do vírus.

Alves explica que a subnotificação, ou seja, a informação de menos casos do que realmente existem, seria um dos problemas centrais na incorreção dos dados. Ela se divide em vários tipos. O primeiro é o atraso na contabilização dos óbitos por covid-19, que pode levar até uma semana para serem confirmadas de acordo com os dados oficiais. “Se multiplicarmos a taxa fixa de mortes por dia pelo total de dias de atraso, nós temos o número que deveria estar sendo publicado no boletim”, diz.

Outro problema, ainda na visão do especialista, é o excesso de mortes de síndrome respiratório aguda grave. No ano passado, no período de 6 de março a 6 de junho, foram 359 mortes por essa razão. Em 2020, o número subiu para 7676 casos. “Numa pandemia, mortes por síndrome respiratório aguda grave deveriam ser levadas em consideração como suspeição para dar uma clareza maior das pessoas que estão vindo a óbito”, argumenta Alves.

Pesquisador do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp, Marcelo Mendes Brandão destaca outros aspectos da subnotificação. “Há pessoas que são infectadas, mas não precisam ir ao médico. Como não se faz teste, esse contingente dificilmente entra nas estatísticas”, diz. “Outro problema são os casos de dados parados, esperando para fazer a comunicação ao Ministério. Isso acontece, por exemplo, porque falta o resultado do exame ou o hospital não tem internet para fazer a transmissão."

Envolvido em pesquisa sobre tendências do número de contaminados, Brandão avalia que a recontagem de casos de coronavírus foi anunciada sem que o governo federal mostrasse evidências de erro nos índices atuais. "Fico me perguntando como vai ser uma contagem retroativa de mortos. Não existe um banco de dados formal no Brasil: fora do DataSus, não há nada. Como o governo vai dizer que na linha A23 da tabela a pessoa não morreu de covid? Quais são as métricas?", questiona. 

Como o Ministério passou a divulgar apenas a ocorrência das últimas 24 horas -- e não mais os casos que ficaram retidos --, este segundo grupo acaba fora da contabilização oficial, explica o cientista. "Dizer que acabou matéria no Jornal Nacional não justifica", afirma. "Transparência de dados é importante para estabelecer políticas públicas e até melhorar a flexibilização. Estamos falando de vidas, de economia. Não é picuinha para jornal."

A partir da mudança, Brandão vê risco de distorções entre o número total de casos informado no País e o índice de casos ativos -- ou seja o número de pessoas infectadas no momento, que exclui óbitos e curados. "O governo tem a faca e o queijo na mão para dizer: 'Olha, há muito mais casos sendo falados pelo secretário do que casos novos", afirma. "Isso pode servir para criar um narrativa de que está tudo bem."

Eduardo Flores, virologista da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, afirma que existe uma intenção do governo federal em negar a gravidade da doença. “Rever critérios das mortes, postergar a divulgação de resultados e diminuir a transparência na divulgação dos números fazem parte de uma atitude negacionista do governo federal”, diz o especialista.

Contradições no número de casos

Alves também indica contradições no número de casos por covid-19 no Brasil, outro dado que o Ministério da Saúde pretende rever.  O número de casos está baseado nas internações hospitalares. De acordo com o especialista, existe um consenso internacional na área de saúde que aponta esse número como apenas 15% do total de infectados por coronavírus. Existiria, portanto, um contingente de 85% que não estariam sendo observados dia a dia, caso dos assintomáticos ou sintomáticos leves. Isso gera outra distorção. No dia 5 de junho, o Brasil registrou oficialmente 654.771 casos. As pesquisas dos cientistas da rede Covid-19 Brasil indicam que, na realidade, o Brasil tinha 5.670.650. 

É nesse ponto que o virologista Rômulo Neris, mestre em Microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cobra a realização de mais testes. Aqui, geralmente só são testados casos mais graves/hospitalizados. Sem uma testagem ampla não há como dimensionar o tamanho real da pandemia do País. O Brasil tem uma taxa de testagem hoje de 29 a 13 vezes menor do que a da Alemanha, Itália, Estados Unidos e Coreia do Sul, países que vêm investindo na ampliação dos exames para monitoramento ou controle da pandemia de covid-19. "O número de testes feitos no Brasil está muito abaixo do que outros países", diz Rômulo.

O biólogo Fernando Reinach, colunista do Estadão, vai além. "Se o governo quer usar esse tipo de método para diminuir o número de mortos é mais fácil proibir totalmente os testes no Brasil. Aí, o número de mortes confirmadas baixa a zero. Todos terão morrido de gripe ou insuficiencia respiratória", critica o especialista. 

Diretor do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Luiz de Lima Filho concorda que a mudança na comunicação dos dados pode transmitir falsa sensação de controle. "Quando um número divulgado é menor do que deveria ser, a mensagem é que os casos estão diminuindo. Isso pode incentivar as pessoas a saírem de casa e retomar as atividades, o que não seria correto", diz.

"Mesmo com subnotificação, o número de infecção é muito grande no Brasil e a pandemia já está chegando a cidades menores do interior, muitas delas sem estrutura hospitalar", descreve Lima Filho, cuja pesquisa monitora casos em tempo real em Pernambuco e faz modelos matemáticos de progressão da doença no País. "O momento é perigoso: a curva não atingiu um platô nem começou a decair."

Para o cientista, não há critério técnico para reduzir a divulgação aos dados das últimas 24 horas. "Vão excluir exames que demoraram alguns dias para o resultado sair", explica. "Na prática, cidades com falta de teste não vão mais ter mortes por covid-19 pelas contas oficiais."

Para Lima Filho, a divulgação adequada dos dados também impacta na adesão da sociedade às medidas necessárias para conter a pandemia. "Com transparência, você consegue trazer a população e isso ajuda até a voltar mais rapidamente a economia." 

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