ANTONIO LACERDA / EFE
ANTONIO LACERDA / EFE

Especialistas criticam redução de quarentena aos infectados com covid-19

De acordo com o Ministério da Saúde, pacientes assintomáticos podem deixar o isolamento no quinto dia mediante teste negativo

João Ker e Weslley Galzo, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 05h00

BRASÍLIA - As decisões anunciadas pelo Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo de reduzir o tempo de quarentena recomendado para quem testar positivo para a covid-19 foram alvo de críticas de especialistas.

De acordo com a diretriz do governo federal, a partir de agora o isolamento exigido é de no mínimo sete dias para pacientes imunocompetentes (com capacidade para produzir anticorpos), como os vacinados. É necessário que este grupo tenha apresentado sintomas leves ou moderados da doença, assim como deve estar assintomático e não ter feito uso de medicamentos antitérmicos nas 24 horas que antecedem o sétimo dia de quarentena.

A pasta também orienta aos pacientes com covid-19 a possibilidade de realizar testes no quinto dia de isolamento, caso não apresentem sintomas respiratórios, febre e não tenha feito uso de antitérmicos por pelo menos 24h. Em caso de resultado negativo, os infectados estão liberados da quarentena. A regra prevista anteriormente era de 14 dias de isolamento ininterruptos.

A  decisão do ministério seguiu no mesmo sentido do que foi adotado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que permitiu a saída de pacientes assintomáticos do isolamento no quinto dia, porém, sem a necessidade de testagem.

De acordo com o especialista da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Júlio Croda, não há consenso na comunidade científica mundial a respeito do tempo ideal de isolamento. Ele afirma que as decisões dos governos tendem a levar em conta a perda de força de trabalho pelo isolamento prolongado e o aumento da transmissão da doença no País. “Os dados são escassos para tomada de decisão. Não tem dados científicos consistentes”, disse ao Estadão.

O professor destaca que 18% dos infectados pela covid-19 ainda podem transmitir a doença entre o sexto e o nono dia após diagnóstico. A lacuna coincide com os dias em que pessoas que contraíram a doença poderão voltar a frequentar locais públicos, a partir das mudanças anunciadas pelo governo de São Paulo e pela União.

Estudo preliminar feito pelas autoridades sanitárias do Japão aponta que o período de maior transmissibilidade do vírus estaria dentro desse novo intervalo. Com base nas amostras coletadas em 83 pacientes diagnosticados com a variante Ômicron da covid-19, as autoridades do Japão constataram que, no período de três a seis dias após o início dos sintomas, metade das análises ainda tinha carga viral suficiente para transmissão. Esse seria o ponto mais alto de transmissibilidade, de acordo com o estudo.

Segundo a pesquisa, os indivíduos infectados apenas paravam de transmitir a covid no 10º dia após terem apresentado os primeiros indícios da doença, mesmo quando já vacinados. “Não tem nenhuma base científica essa redução de tempo da quarentena. Se liberarmos as pessoas infectadas com cinco dias de isolamento, elas estarão no auge da transmissibilidade”, alerta o infectologista Carlos Magno Fortaleza, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“Não há um consenso sobre o tempo ideal e necessário para o isolamento. Cinco dias é um tempo muito curto, bastante arriscado, com alto risco de transmissão. A maioria dos especialistas considera o mínimo de uma semana para a quarentena, pelo menos, independente de ser assintomático ou não”, observa Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Há duas semanas, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC, na sigla original) também liberou que pacientes assintomáticos ou já imunizados retomassem o convívio social desde que usando máscara por mais cinco dias quando estiverem com outras pessoas. "A mudança é motivada pela demonstração científica de que a maior parte da transmissão ocorre no início do curso da doença, geralmente 1-2 dias antes do início dos sintomas e 2-3 dias depois", disse o órgão.

“Essa foi uma decisão puramente econômica e pragmática”, avalia Fortaleza. “É muito curioso como o nosso ministro da Saúde adere a essa medida duvidosa do CDC, mas questiona a indicação do mesmo órgão sobre a vacinação em crianças”, aponta.

Importância de medidas preventivas

Sintomas como febre e dor foram considerados pelo CDC como impeditivos ao convívio social. “A nossa linha de transmissão nos EUA está vertical. Isso não influencia só a sobrecarga no sistema de saúde, mas também na economia. Muitas lojas fecharam por falta de funcionários”, observa a epidemiologista Denise Garrett,  vice-presidente do Instituto Sabin Vaccine.

Ela afirma que “vários modelos matemáticos apoiam a decisão do CDC” e que não foi algo “puramente econômico", mas que, ao mesmo tempo, “logicamente também vai de encontro aos interesses do mercado”. “O problema é que não é seguro, principalmente em um ambiente de trabalho, estar com uma pessoa que terminou o isolamento depois de cinco ou sete dias.”

Ambos também apontam que a população brasileira dificilmente conseguirá seguir recomendações como o uso de máscaras, monitoramento de sintomas ou até mesmo a testagem. “No Brasil não existe orientação de comunicar contatos com pessoas infectadas e rastrear esses casos, nem da importância de medidas preventivas”, diz Denise.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, informou que até o final de janeiro serão distribuídos 28 milhões de kits de autotestagem. Nos próximos 15 dias, segundo a pasta, devem ser distribuídos 13 milhões de testes.

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