FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Especialistas divergem sobre decisão do governo federal de não guardar segunda dose para vacinação

Mais vacinas anti-covid devem ser disponibilizadas para que mais pessoas possam ser imunizadas - com a primeira e segunda dose - dentro do intervalo estabelecido pelas fabricantes

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 20h00

Diante da decisão do governo federal de emitir nova diretriz para priorizar a aplicação da primeira dose da vacina anti-covid, sem guardar a segunda dose necessária para completar a imunização de cada pessoa, especialistas divergem sobre os riscos que a medida para acelerar o ritmo da vacinação contra a covid-19 no País possa provocar.

Embora alguns avaliem que a maior produção, chegada de mais doses ao Brasil e contratos firmados com outras farmacêuticas deem segurança para liberar o estoque guardado para tentar imunizar o maior número de pessoas com a primeira dose neste momento, outros não descartam a possibilidade de vacinados não tomarem a segunda dose dentro do período recomendado pelas fabricantes.

Seguindo a determinação do Ministério da Saúde, o secretário da Saúde do Estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou na segunda-feira, 22, que seguirá a medida anunciada, no fim de semana, para não reservar mais doses da vacina contra o coronavírus. "Dessa forma, seguiremos essa normativa, que já vem sendo feita no sentido de despolarizar e distribuir essa segunda dose, dando a chance de avançarmos na imunização de mais brasileiros aqui do Estado de São Paulo", disse Gorinchteyn.

Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19, avalia que apesar da necessidade de se ampliar a imunização contra a covid-19, o recebimento da segunda dose não pode ser colocado em risco.

"É importante ter em mente a logística, distribuição e sobretudo fatores que podem acontecer nesse período para evitarmos o atraso da segunda dose. Mais do que nunca, numa situação onde temos uma alta transmissão e presença de variantes, precisamos aliar a vacinação às medidas de enfrentamento para diminuir o risco de surgimento de variantes de maior preocupação que possam escapar da resposta imunológica, por exemplo", explica.

Para ela, o Brasil precisa ainda ampliar negociações com outras fabricantes. "Precisamos trazer mais vacinas de outras farmacêuticas, mais doses daquelas que já temos aprovação ou uma aprovação em vista para podermos aumentar nosso arsenal de doses sem colocar em risco o recebimento da segunda dose. O regime completo é necessário para garantirmos a proteção observada nos estudos clínicos", afirma Mellanie.

Além do Brasil, outros países também lidam com a limitação das doses e com essa discussão sobre direcionar ou não mais pessoas para receber a primeira dose. "Algumas farmacêuticas estão estudando regimes de doses alternativos (como uma dose) e, com esses dados em mãos demonstrando eficácias significativas, poderia-se estabelecer esse ajuste. Mas é importante ressaltar que precisamos de dados para adaptar um regime de 2 doses para 1. Nesse momento, é unânime que mais doses devem ser garantidas para vacinarmos mais pessoas e garantirmos o recebimento da segunda dose no período estabelecido pelos estudos", alerta a coordenadora da Rede Análise Covid-19.

O esquema de imunização contra o coronavírus prevê a aplicação de duas doses, tanto para a vacina Coronavac, da farmacêutica chinesa Sinovac produzida em parceria com o Instituto Butantan, quanto para a vacina de Oxford-AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Ambas as vacinas estão sendo aplicadas no País. O intervalo de tempo entre a primeira e a segunda dose é de até 28 dias para a do Butantan e de 12 semanas para a da Fiocruz, sendo as duas doses necessárias para a eficácia esperada. Em média, as vacinas demoram cerca de duas semanas após a segunda dose para surtir todo o efeito.

Para Lauro Ferreira Pinto Neto, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Santa Casa de Vitória, a falta de vacinas acabou levando o Ministério da Saúde a uma indecisão. "Uma hora mantém a reserva para a segunda dose, outra hora adia. Precisamos de vacinas em quantidade suficiente para fazer as duas doses nos intervalos recomendados. A vacinação no Brasil ainda está extremamente lenta", avalia.

O especialista lembra que no Reino Unido e outros países da Europa adiaram a aplicação da segunda dose da vacina da Pfizer, mas que "é uma resposta em princípio mais robusta do que as vacinas que o Brasil está utilizando na imunização da população".

Embora não haja pesquisa sobre os riscos que podem ser provocados caso a pessoa tome a segunda dose fora do período indicado, o infectologista alerta que é preciso respeitar o que foi preconizado pelas fabricantes.

"Adiar a Coronavac, por exemplo, além de 28 dias, acho extremamente arriscado porque não tem base em nenhuma publicação que diga que isso funciona. Além disso, com a aplicação de uma dose somente não sabemos como (a vacina) se comporta com a explosão de variantes no Brasil", alerta. Para garantir a eficácia documentada nos estudos, as vacinas devem ser aplicadas em duas doses conforme os intervalos estipulados.

Lorena de Castro Diniz, coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) concorda com a necessidade de se seguir as recomendações dos estudos relacionados com as vacinas que foram aprovadas de forma emergencial ou definitiva no Brasil.

"Temos que garantir a eficácia da vacinação, conforme as doses preconizadas durante o período de estudo e intervalo entre elas. Mas acredito que a chegada de mais vacinas, maior produção dos fabricantes no Brasil (Butantan e Fiocruz) e contratos firmados com outras farmacêuticas dão maior segurança para liberar estoque guardado para tentar imunizar o maior número de pessoas com a primeira dose neste momento, já que vamos ter doses para suprir a segunda dose da vacinação", acredita.

No entanto, a coordenadora da Asbai lembra que a realidade de cada município é diferente do outro. "Cada um deve avaliar o grupo prioritário para saber o quantitativo de doses guardadas e quantitativo de cronograma de receber mais vacinas para uma tomar posição, já que o recebimento da segunda dose também é de extrema importância para a população que já recebeu a primeira dose", avalia.

As fabricantes não podem garantir a eficácia das vacinas fora do prazo dos estudos preliminares. "Por isso, recomendam fortemente que o intervalo seja seguido, devido ao fato de não ter estudos falando se ao prolongar a data para a segunda dose se terá ou não prejuízo na eficácia das vacinas", explica Lorena. Ainda segundo ela, se o governo ficar mudando de forma aleatória as determinações pode colocar em risco a eficácia da vacinação.

O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, também defende que o ideal é seguir o intervalo entre as doses recomendado pelas fabricantes. Mas na opinião dele, a decisão do Ministério da Saúde de não reservar as doses das vacinas para a segunda aplicação não irá impactar nos intervalos estabelecidos.

"Com maior quantitativo que o Brasil está recebendo não há preocupação sobre falta de vacina para a segunda dose. Além disso, diante do colapso atual, quanto mais rápido conseguirmos vacinar a população é melhor", avalia Cunha. "Mas cada município deve fazer o controle dentro dos seus estoques para contemplar a segunda dose quando for o caso, porque também é importante", completa.

Apesar da recomendação de até 28 dias para a segunda dose da Coronavac ser aplicada, o presidente da SBIm lembra que há casos de pessoas que por intercorrência clínica ou por ter contraído covid-19, precisaram atrasar a segunda dose da vacina. "O atraso não invalida a primeira, mas o ideal é completar o esquema das duas doses o mais rápido possível", afirma Cunha.

Ou seja, não é preciso recomeçar o esquema em caso de atraso. Basta tomar a dose que falta e continuar mantendo todos os cuidados de proteção até que a maioria da população receba as duas doses da vacina. Vale lembrar ainda que os esquemas de vacinação - primeira e segunda dose - devem ser completados com a mesma vacina.

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