Antonio Lacerda/ Efe
Antonio Lacerda/ Efe

Especialistas explicam por que, em meio a coronavírus, parece que a vontade de tocar o rosto é maior

Com tantas recomendações para não levar a mão próximo ao nariz, olhos e boca para prevenir a covid-19, existe a impressão de que a vontade do corpo é, justamente, de contrariar a orientação

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 10h53

Uma das principais medidas para prevenir o novo coronavírus é não encostar as mãos nos olhos, boca e nariz. Porém, em meio a tantas recomendações parece que a vontade de tocar ou coçar o rosto é ainda mais persistente. É apenas uma impressão? Não, isso está acontecendo mesmo, e existem duas explicações.

A primeira delas é que com as orientações para conter a pandemia da covid-19 a consciência sobre o onde colocamos as mãos é maior. O que antes era automático, agora está sendo vigiado. 

"Não conseguimos mudar tão rapidamente um hábito, por isso temos a percepção de que está acontecendo o contrário. Tudo que a gente se programa para não fazer acabamos fazendo naturalmente, porque estamos tentando combater o que já está programado em nosso cérebro", afirma Kátia Bonfadini Pires, psicóloga especialista em psicologia hospitalar e mestre em saúde coletiva, da clínica Leger. 

Keitiline Viacava, pós-doutora em neurociência cognitiva pela Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, concorda. "Tocar o rosto é um comportamento que temos há muitos anos, desde a barriga da mãe, é muito automatizado, a gente faz quase sem querer."

A notícia ruim é que por se tratar de um hábito, a mudança não será instantânea. A alteração de um costume é lenta e gradativa. "É como um aprendizado: precisa de tempo para observar, assimilar e depois passar a reproduzir", explica a psicóloga. No entanto, por ser algo que já estava estabelecido ainda é necessário um período maior para 'apagar' o que já é uma prática.

A notícia boa é que o primeiro passo para deixar de fazer algo no automático é perceber que isso está ocorrendo antes mesmo de pensar. "Essa impressão na verdade pode ser apenas a nossa tomada de consciência. Isso é fundamental para que a gente consiga controlar essa vontade. Hábito é difícil de transformar, não se frustre se não conseguir imediatamente", diz a neurocientista.

Agora vem a parte que não é tão otimista: esse desejo quase que incontrolável de coçar mais o nariz, a boca e os olhos pode ocorrer porque todos os alertas para não colocar as mãos no rosto podem, em alguns casos, funcionar como um gatilho. Esse fenômeno também é conhecido como espelhamento e é o mesmo do bocejo. Ao ver uma pessoa bocejando, surge no mesmo momento a vontade de bocejar também. 

Portanto, para ser considerado uma reação a um estímulo o impulso de tocar o rosto tem que surgir no mesmo momento em que se ouve uma recomendação para não fazê-lo. "O cérebro não compreende muito bem os processos do não. Mecanicamente estamos tentando evitar um funcionamento natural", ressalta a mestre em saúde coletiva. Ao tentar proibir um comportamento, gasta-se energia para primeiro negá-lo e depois para consolidar a atitude nova.

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Mas se não é muito efetivo passar a mensagem de que algo é proibido, como mudar um hábito? "É possível mudar, mas leva um tempo. Para uma situação de crise, uma emergência, o cérebro funciona melhor com as instruções assertivas do que com as negativas", explica Kátia. Segundo a especialista precisamos mudar a maneira que "falamos" com nós mesmos. No lugar de pedir para "não colocar as mãos no rosto", é melhor orientar para "deixar as mãos longe do rosto".

Além de ter consciência das vezes em que você descumpre a recomendação para prevenir o coronavírus também é importante chamar atenção das pessoas que estão a sua volta. Keitiline reforça que isso deve ser feito de maneira empática e afetiva: "fale sorrindo, descontraído, deixe o julgamento de lado, nós estamos todos no mesmo barco. Ser mais leve cria ambientes psicologicamente seguros e existe uma maior adesão a orientações de segurança".

De acordo com a neurocientista, outro passo para mudar o hábito é "revisar o momento" em que você percebe o erro. Pergunte-se algo em específico fez você tocar o nariz, a boca e os olhos. Assim, é possível alterar também contextos e situações que levem ao comportamento indesejado.


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