Especialistas querem frear epidemia de HIV após conflitos

Quando os exécitos voltam para casa há mais movimento, o que coloca principalmente as mulheres em risco

Efe

07 de agosto de 2008 | 21h29

Especialistas internacionais em direitos humanos e de trabalho comunitário da África solicitaram nesta quinta-feira, 7, mais medidas para depois de conflitos internos e crises humanitárias, visando a evitar o contágio de HIV/aids, sobretudo entre mulheres. Veja também: Suíça sugere que soropositivo pode fazer sexo sem camisinha OMS elabora guia para contenção de epidemia de aids no mundo Guia da OMS no site do órgão (em inglês) Epidemia de aids no mundo  "Estudos muito interessantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) mostram que em situações de conflito o HIV não aumenta", disse à Agência Efe a irlandesa Mary Robinson, que esteve à frente desse organismo. "É depois da crise que isto ocorre, quando os exércitos voltam para casa, quando há mais movimento, então é quando há mais risco", assinalou Robinson, que moderou nesta quinta-feira, 7, um painel sobre o tema na 17ª Conferência Internacional sobre Aids (Aids 2008). Em outubro, a ex-alta comissária de Direitos Humanos da ONU visitará Darfur para conhecer de perto a situação das mulheres ali, onde participará de um encontro organizado pela ativista Bineta Diop, da ONG Mulheres Solidárias com a África (FAS, em francês). Já esteve com o mesmo propósito no leste do Chade em setembro passado para entender melhor o que deve ser feito nas situações de emergência ou conflito, que até o final de 2001 tinham afetado 50 milhões de pessoas no mundo, segundo o Grupo de Trabalho sobre HIV/aids em Situações de Conflito da ONU. "Quando falamos com elas, foi perguntado qual era sua prioridade e nos responderam: 'segurança, segurança e segurança'", lembrou Robinson. "Eram violentadas quando eram castigadas. Não faria sentido estarem seguras. As crianças tinham muito pouco acesso à educação", apontou. Robinson demandou às agências e ONGs que trabalhassem nesses lugares sem tratar as mulheres "como vítimas e nada mais" e que as considerem "agentes de mudança" que devem estar mais implicadas nas fases posteriores ao conflito, como aconteceu, por exemplo, em Ruanda. Floride Nyiraneza falou no painel de hoje sobre a experiência nesse país. Ela é uma mulher ruandesa que foi estuprada durante a crise dos Grandes Lagos de 1994, quando contraiu HIV. Dedicada agora a dar apoio psicossocial a mulheres em Kigali, através da organização Acesso Igualitário a Mulheres para Tratamento e Cuidado para a Esperança (WEATFH), Nyiraneza disse que os grupos se baseiam no "apoio entre pares" e serviram para que mais mulheres e crianças façam o teste do vírus de forma voluntária e informada. Isso serviu, por exemplo, para que comecem tratamentos com anti-retrovirais (ARV) antes e consigam, desse modo, que estes sejam mais eficientes. A queniana Margaret Wambeke, com experiência de trabalho nos acampamentos do Vale do Rift, contou sobre o trabalho com milhares de refugiados após as eleições de dezembro no Quênia. Ela afirmou que as pessoas com HIV/aids que se refugiaram em acampamentos enfrentaram a falta de material, mas, além disso, interrupções no tratamento da doença. Em prisões e delegacias eram desatendidos, e a má alimentação fez com que sua saúde piorasse, acrescentou. Para prevenir estas situações pediu "mais atenção política" às situações de crise e aos períodos após os conflitos, assim como maior apoio com clínicas móveis e acesso a tratamento. Para Wambete, estes esquemas de medicação "só são sustentáveis em condições de paz", mas podem melhorar o apoio aos migrantes internos ou procedentes de outros países. O pediatra Andrew Kibonenka, que trabalha com crianças na região de Gulu, no norte de Uganda, uma zona controlada pelo Exército de Resistência do Senhor (LRA), revelou a experiência de tratar crianças em "clínicas positivas". Também falou sobre a Organização de Serviço à Aids (ASO, em inglês), onde desenvolve seu trabalho, quando atuou com 282 menores de idade, dos quais 57 receberam anti-retrovirais durante uma média de 227 dias, com bons resultados. Para o futuro, considerou um desafio acompanhar a evolução da saúde destas crianças quando deixarem as clínicas, um trabalho difícil que é realizado por pessoas em motocicletas que colaboram com ASO.

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