Alexander Nemenov/Pool via REUTERS
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Especialistas se preocupam com vacina apressada da Rússia: 'Isso tudo é mais do que estúpido'

Hoje vacinas estão entre os produtos médicos mais seguros do mundo por causa do intenso rigor de testes clínicos; Rússia não divulgou os resultados de estudos e suspeita-se que só foram feitas as etapas iniciais

Carl Zimmer, The New York Times

12 de agosto de 2020 | 15h21

Quando Vladimir Putin anunciou nesta terça-feira, 11, que a Rússia havia aprovado uma vacina contra o novo coronavírus, sem evidências de testes clínicos em grande escala, os especialistas em vacinas ficaram preocupados.

"Eu acho realmente assustador. É verdadeiramente arriscado", disse Daniel Salmon, diretor do Instituto para a Segurança da Vacina da Universidade Johns Hopkins.

Salmon e outros especialistas disseram que a Rússia está dando um passo perigoso ao pular a chamada fase 3 dos testes clínicos, que podem determinar se a vacina funciona melhor do que um placebo e não causa danos a algumas pessoas que a recebem.

Ao contrário dos medicamentos experimentais dados aos doentes, as vacinas são destinadas a ser administradas a um grande número de pessoas saudáveis. Portanto, elas devem passar por um alto padrão de segurança. Se centenas de milhões de pessoas tomarem a vacina, até mesmo um raro efeito colateral pode surgir em milhares de pessoas.

Ao longo do século passado, os pesquisadores desenvolveram maneiras cada vez mais poderosas de testar vacinas quanto à segurança e eficácia. Algumas dessas lições foram aprendidas da maneira mais difícil, quando uma nova vacina causou alguns danos. Mas as vacinas estão agora entre os produtos médicos mais seguros do mundo, graças ao intenso rigor dos testes clínicos que rastreiam sua segurança e eficácia.

Essa testagem geralmente começa antes que uma única pessoa receba uma nova vacina, quando os pesquisadores a injetam em camundongos ou macacos para ver como eles respondem.

Se esses estudos com animais derem certo, os pesquisadores então recrutam algumas dezenas de voluntários para o teste clínico da fase 1, no qual todos os voluntários recebem a vacina experimental.

Os médicos normalmente mantêm esses voluntários sob observação para garantir que eles não tenham reações negativas imediatas e para ver se eles produzem anticorpos contra um patógeno. Não é incomum que as pessoas sintam dores nos músculos ou até uma febre moderada, mas esses sintomas leves normalmente não duram muito.

Se os testes da fase 1 não revelarem problemas sérios de segurança, os pesquisadores geralmente passam os ensaios clínicos de fase 2, no qual injetam a vacina em centenas de pessoas e fazem observações mais detalhadas.

Os primeiros testes clínicos com vacinas contra o novo coronavírus começaram em março e agora há 29 em andamento, com mais para serem iniciados em breve. Empresas como AstraZeneca, Moderna, Novavax e Pfizer estão começando a compartilhar resultados iniciais otimistas: até agora, elas detectaram apenas sintomas leves ou moderados e nenhum efeito colateral grave. Os voluntários também produziram anticorpos contra o novo coronavírus, em alguns casos em maior quantidade do que os produzidos por pessoas que se recuperaram de uma infecção.

Mas não importa quão promissores sejam esses resultados iniciais, os testes da fase 3 podem falhar.

O timing do anúncio da vacina russa torna "muito improvável que eles tenham dados suficientes a respeito da eficácia do produto", disse Natalie Dean, bioestatística e especialista em doenças infecciosas da Universidade da Flórida, que advertiu contra a pressa no processo de aprovação da vacina. Natalie observou que mesmo vacinas que produziram dados promissores em testes iniciais em humanos fracassaram em estágios posteriores.

Em um grande ensaio de controle randomizado, os pesquisadores dão a vacina ou um placebo a dezenas de milhares de pessoas e esperam que elas se deparem com o vírus no mundo real. “Então você espera para ver se elas ficam doentes ou não. Elas morrem ou não?”, disse Steven Black, especialista em vacinas da Task Force for Global Health. Se a vacina for eficaz, menos voluntários vacinados ficarão doentes do que aqueles que receberam o placebo.

Os pesquisadores russos ainda não começaram esse teste crucial.

Em junho, o Instituto de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya do Ministério da Saúde da Rússia registrou um ensaio combinado das fases 1 e 2 com uma vacina chamada Gam-COVID-Vac Lyo. Os pesquisadores planejavam testá-la em 38 voluntários.

Eles disseram que a vacina foi feita a partir de um adenovírus -- um vírus inofensivo de resfriado -- carregando um gene do novo coronavírus, semelhante ao que a AstraZeneca e a Johnson & Johnson estão usando em suas vacinas. A tecnologia ainda é relativamente nova: a primeira vacina de adenovírus para qualquer doença foi aprovada para o ebola em junho.

Desde então, as autoridades russas afirmam que estariam levando a vacina rapidamente para a fabricação. O anúncio de Putin na terça-feira tornou isso oficial. No entanto, o instituto nunca publicou os dados dos testes das fases 1 e 2.

No anúncio de Putin, o ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, declarou que “todos os voluntários desenvolveram grandes concentrações de anticorpos para covid-19. Ao mesmo tempo, nenhum deles teve complicações graves de imunização”.

Esse é o tipo de resultado que você espera de um teste da fase 1. Ele não diz se a vacina realmente funciona.

“Isso tudo é mais do que estúpido”, disse John Moore, virologista da Weill Cornell Medical College, em Nova York. “Putin não tem vacina, ele está apenas fazendo uma declaração política."

Na terça-feira, o instituto russo divulgou em um site na internet que um teste da fase 3 começaria no dia seguinte envolvendo mais de 2 mil pessoas na Rússia, bem como nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita, no Brasil e no México.

Todos os outros testes da fase 3 de vacinas contra o novo coronavírus atualmente em andamento são mais de 10 vezes maiores do que isso, com 30 mil voluntários cada.

Nicole Lurie, ex-secretária-assistente de prevenção e resposta do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos e conselheira da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi, na sigla em inglês), disse que a lição que o governo americano deveria tirar do anúncio de Putin é clara. “Esta é exatamente a situação que os americanos esperam que nosso governo evite”, disse ela.

Um processo mais rápido

Além de determinar se a vacina protege as pessoas, os testes de fase 3 podem revelar efeitos colaterais incomuns que podem não ter aparecido no número comparativamente pequeno de voluntários que se inscreveram nas fases anteriores.

Só porque alguém fica doente ou morre depois de receber uma vacina, no entanto, não significa necessariamente que a vacina foi a culpada. Ao comparar grandes grupos de pessoas que receberam a vacina e o placebo, os pesquisadores podem identificar grupos incomuns de casos nos participantes vacinados.

Ao longo do processo, os desenvolvedores de vacinas compartilham esses resultados em relatórios para os reguladores do governo e em artigos revisados por pares para revistas científicas. Em seguida, especialistas externos avaliam os dados dos testes de fase 3 e dão sua recomendação à Food and Drugs Administration (FDA), que então decide se aprova uma vacina para uso generalizado.

“Para mim, não é suficiente dizer que tenho um ótimo produto”, disse Salmon. “Antes de usá-lo, você precisa de outras pessoas para realmente olhar para os dados e se convencer de que os benefícios superam os riscos.”

E mesmo depois que uma vacina é licenciada, os pesquisadores ainda ficam de olho nela para se certificar de que é segura. Como milhões de pessoas tomam a vacina, efeitos colaterais ainda mais raros podem surgir com o tempo. Também é possível que certos grupos de pessoas, como crianças ou idosos, acabem enfrentando riscos relacionados a uma vacina que não ficaram imediatamente claros nos testes de fase 3.

Os reguladores podem então fazer ajustes na vacina -- alterando a dose, por exemplo -- para torná-la mais segura.

Uma maneira de acelerar os testes de vacinas com segurança é os reguladores se prepararem com antecedência para analisar cada lote de dados, para que possam reduzir o tempo entre os testes. Os fabricantes de vacinas já vêm demonstrando aos reguladores que podem fazer vacinas contra o novo coronavírus com segurança em escala industrial, muito antes de as próprias vacinas passarem pelos testes clínicos.

Black e seus colegas têm trabalhado com a Cepi, uma organização sem fins lucrativos que está acelerando o desenvolvimento de vacinas, em um novo conjunto de procedimentos de segurança para algumas vacinas contra a covid-19, incluindo aquelas desenvolvidas pela AstraZeneca, CureVac e Novavax.

Os pesquisadores descobriram um conjunto de potenciais complicações médicas às quais os testes de vacinas devem dar atenção especial. Eles abordaram a possibilidade de que a vacina pode realmente tornar as pessoas propensas a casos piores de covid-19, por exemplo. Felizmente, a pesquisa até agora não mostra nenhum sinal de que isso esteja acontecendo.

A Cepi está coordenando o compartilhamento de dados entre os desenvolvedores de vacinas. Ao reunir os dados de segurança de diferentes desenvolvedores de vacinas, disse Black, a Cepi será capaz de detectar efeitos colaterais raros que eles podem nem mesmo ter considerado como possíveis riscos. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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