Andreas Gebert/Reuters
Andreas Gebert/Reuters

‘Esse atraso faz parte do processo e dá mais segurança’, diz voluntário que tomou vacina da covid-19

O médico Eduardo Cury Maia conta como decidiu ser voluntário para a pesquisa do imunizante desenvolvido pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford

Eduardo Cury Maia*, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 13h28

Fiquei sabendo da pesquisa da Universidade de Oxford com a AstraZeneca pelo jornal local, lá para o final de junho, quando tinham aberto as inscrições. No mesmo dia eu me cadastrei e coloquei todas as informações lá. Demorou um tempinho para me chamarem e eu imaginei que tinham me excluído do estudo, por algum motivo, mas em 20 de agosto me ligaram para comparecer ao Hospital São Rafael, aqui em Salvador, que está centralizando essa parte da vacina. No sábado, 22, eu fui lá.

Essa era ainda a primeira etapa. Você preenche alguns formulários com suas informações, passa por uma breve avaliação com um médico e ele colhe uma amostra de sangue. As mulheres também fazem exame de urina, para detectar uma possível gravidez. Depois, aplicam a vacina e é preciso esperar um pouco para saber se vai ter alguma reação. Então, você é liberado. 

Evidentemente, você fica lá sem saber exatamente se recebeu a vacina para a covid-19 ou o placebo, que no nosso caso é uma vacina contra a meningite. No dia, marcaram o meu retorno para 26 de setembro, quando eu devo tomar a segunda dose. No formulário que te entregam, fica claro que você pode desistir do ensaio a qualquer momento. Mas, a princípio, é preciso participar durante um ano para completar todas as etapas.

O hospital estava bem organizado quando fui. Tinha um lugar de recepção inicial, onde você se apresenta e, depois, eles convocam grupos de cinco em cinco para a primeira etapa. Não tive nenhuma reação forte à vacina, apenas uma dor discretíssima no local de aplicação, no braço esquerdo, mas não senti nada que considere muito relevante. A garganta incomodou um pouquinho nos dias seguintes, mas bem de leve.

Eu sempre tive vontade de me voluntariar para algo assim. Sou médico, então já fiz estudos para trabalhos de faculdade e pesquisas de ensaio clínico. Nesse momento, me deu vontade de voluntariar e não tive medo. Minha esposa perguntou se eu teria coragem, mas não tive nenhuma preocupação específica. Tomo todos os cuidados devidos para não contrair o coronavírus, claro, não sou irresponsável. Mas não estou com nenhuma preocupação exacerbada. Sei de alguns colegas que se inscreveram e para eles também foi tranquilo. 

O formulário que eles entregam na hora da aplicação já falava que houve um caso mais grave de voluntário no Reino Unido, mas que depois ficou tudo bem. Então, fiquei confuso com a notícia de que o estudo foi suspenso, por achar que talvez seja algo que tenha sido divulgado só agora. 

Esse formulário é como a bula de um remédio. Eles informam todos os efeitos potenciais e indicam que pode ter uma chance muito pequena de reação, com quatro números de telefone para ligar caso aconteça algo e a certeza de que os custos seriam cobertos pela Oxford. Os médicos estão disponíveis 24 horas por dia. É tudo muito bem organizado e transparente. 

Até agora, não fui contactado sobre o possível adiamento da minha segunda dosagem. Não tive alteração no meu cronograma, hoje o hospital me ligou e confirmou a consulta para o próximo dia 26. Esse caso, especificamente, não me preocupou. Já imaginava que seria assim, porque esse tipo de pesquisa tem todo um critério. Esse atraso faz parte do processo. Dá mais segurança, principalmente em comparação com a vacina russa, que me pareceu muito solta e feita para ser lançada logo.

*Eduardo Cury Maia, 42, é médico e voluntário no Brasil para os testes da vacina da Oxford com a AstraZeneca

Depoimento dado ao repórter João Ker. 

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