EFE/EPA/ROLEX DELA PENA
Vacinação de adolescente é estratégia para controlar a pandemia e evitar adoecimento nessa faixa etária  EFE/EPA/ROLEX DELA PENA

Estados avaliam passaporte sanitário de covid-19 para adolescentes em escolas

Estratégias para alcançar esse público incluem vacinação contra a covid-19 dentro dos colégios e cobrança da carteirinha

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 15h34

O desafio de vacinar adolescentes contra a covid-19 tem levado Estados a orientar a imunização dentro de escolas e, em alguns casos, cogita-se até passaporte sanitário para  os mais jovens em colégios. O alcance da vacina na faixa etária de 12 a 17 anos não é uniforme pelo País e governos locais relatam ritmo menor de imunização desse público, após fake news e mudanças de diretrizes por parte do governo federal. Considerando todo o País, o Ministério da Saúde estima que a cobertura com a primeira dose nos adolescentes está em 68,6%. 

Com a volta às aulas para mais alunos em boa parte dos Estados, os governos locais veem nas escolas uma forma de alcançar número maior de adolescentes. Criticados pelo presidente Jair Bolsonaro, seus ministros e apoiadores, decretos que exigem apresentação de passaporte de vacinação em espaços coletivos públicos avançam nos municípios. De forma independente, instituições como o Tribunal de Justiça e o Ministério Público de São Paulo também já exigem imunização.

No Rio Grande do Norte, a Secretaria Estadual da Saúde informa que estuda acionar equipamentos como as escolas, para que seja obrigatório o passaporte da vacina nos colégios. Segundo a pasta, será feita uma reunião com a Secretaria de Educação para pensar em ações para avançar na imunização de adolescentes - a cobertura com primeira dose está em 56% no Rio Grande do Norte.  

“Os professores também querem se sentir mais seguros. A ideia é solicitar o passaporte da vacina nos espaços da escola. Todos os servidores do Estado já são obrigados a apresentar (o passaporte), mas queremos estender isso aos alunos. Não adianta os professores estarem imunizados e os alunos transmitindo”, diz Kelly Lima, coordenadora de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Norte. 

A discussão sobre o passaporte da vacina nas escolas também deve ser colocada em pauta no Espírito Santo - ainda não há definições. O Estado já realiza a vacinação contra a covid-19 nos colégios e, segundo o governo local, essa é uma forma de chegar onde o adolescente está - já que os mais jovens não vão espontaneamente aos postos de saúde. Para a vacinação nas escolas, as famílias têm de assinar um termo de autorização, permitindo que o filho receba a dose no colégio. 

Em Pernambuco, a Secretaria Estadual da Saúde também orientou a “busca ativa” para imunização dos adolescentes - no Estado, a cobertura está em 53%. No fim do mês passado, o governo estadual deu aval para a estratégia de vacinar os mais jovens nos colégios - cada município tem autonomia para definir como fazer a imunização. 

“O público de adolescente habitualmente não procura os serviços de saúde e muitas vezes está estudando o dia todo, então precisamos ir onde eles estão”, disse a superintendente de Imunizações do Estado, Ana Catarina de Melo, em coletiva para apresentar a ação. 

No Amazonas, a estratégia não inclui vacinar em escolas, mas em algumas cidades é cobrada a apresentação da carteira de vacinação atualizada nos colégios públicos, segundo informou a Secretaria Estadual da Saúde. O Amazonas tem cobertura com a primeira dose de 56% dos adolescentes. A vacinação nessa faixa etária começou em momentos diferentes, conforme a cidade. Em Manaus, a mais populosa do Estado, teve início em 13 de agosto. 

No início do mês passado, o Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, anunciou o plano de adicionar a vacina contra a covid-19 à lista de imunizantes exigidos para comparecer presencialmente à escola. A exigência, segundo o governador Gavin Newsom, seria feita depois que a vacina contra a covid-19 fosse totalmente aprovada pela FDA, a agência reguladora americana, para os estudantes de ensino fundamental e médio. 

O governador afirmou que a medida segue diretrizes usadas para conter outras doenças. “O Estado já exige que os alunos sejam vacinados contra os vírus que causam o sarampo, a caxumba e a rubéola - não há razão para não fazermos o mesmo com a covid-19. A medida, assim como nossos primeiros requisitos de máscara e vacinação da equipe, é para proteger nossas crianças e funcionários da escola e mantê-los na sala de aula", afirmou, segundo informe publicado no site do governo da Califórnia. 

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), apesar de orientações contraditórias por parte do Ministério da Saúde e de declarações contrárias à vacinação, a campanha contra a covid-19 tem se mostrado satisfatória no Brasil. Nos Estados com baixas coberturas para essa faixa etária, é preciso, segundo ela, mais comunicação. "É preciso gerar mais confiança, informar melhor. Não adianta só chamar para vacinar." Segundo Isabella, vacinar nas escolas "é a única saída para ter altas coberturas contra qualquer doença".

Vacina protege adolescente e ajuda a controlar a pandemia

A infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi ressalta que é necessário vacinar adolescentes para protegê-los da covid-19. “Eles também têm o risco de adoecer gravemente, não só na fase aguda da doença, mas também de desenvolver a síndrome inflamatória aguda grave, que é um quadro muito delicado, que acomete mais frequentemente crianças e adolescentes.” Os riscos da covid-19 para os mais jovens são muito maiores do que o risco de algum efeito colateral da vacina. 

Ela também destaca os efeitos da covid longa nos mais jovens: até mesmo crianças e adolescentes com sintomas leves da covid podem manifestar, mais tarde, quadros de alteração de comportamento, ansiedade, distúrbios de atenção e déficit de aprendizagem. Além disso, segundo a especialista, há a importância coletiva. “Se não protegidos, os jovens podem ser responsáveis pela manutenção da transmissão”, diz Raquel, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. 

O Ministério da Saúde informou, sem detalhar, que "atua por meio de campanhas para conscientizar a população sobre a importância da vacinação contra a covid-19".

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Covid-19: Estados veem vacinação mais lenta de adolescentes após fake news e confusão do ministério

Cobertura com a primeira dose para faixa etária de 12 a 17 anos fica abaixo de 50% em algumas regiões; até Estados líderes na imunização relatam impacto da campanha antivacina

Júlia Marques e Isabela Moya, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 15h21

Estados brasileiros relatam queda no ritmo da vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos contra a covid-19, após fake news relacionadas ao risco do imunizante para essa faixa etária e vai-vém de diretrizes por parte do governo federal. Para alcançar os adolescentes, governos locais aplicam a vacina em escolas e avaliam até a cobrança de passaporte sanitário dos estudantes nos colégios. 

A vacinação de adolescentes começou em momentos diferentes nos Estados brasileiros, mas, oficialmente, o governo federal passou a enviar doses para este público a partir do dia 15 de setembro. No dia seguinte, porém, tirou adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades da lista de grupos cuja vacinação contra a covid-19 é recomendada. 

O Ministério argumentava que a vacinação de adolescentes não era indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) - o que não é verdade. A vacinação contra a covid-19 em adolescentes é considerada por especialistas em todo o mundo como a estratégia mais eficaz para reduzir o risco de adoecimento dessa população, conter a disseminação do vírus e superar a pandemia. A vacina é segura para esta faixa etária.  

O recuo do Ministério da Saúde, com a recomendação para continuar aplicando a vacina em adolescentes, veio seis dias depois. Boa parte dos Estados manteve a vacinação de 12 a 17 anos naquela semana, apesar da recomendação contrária do governo federal. Mesmo assim, perceberam queda no ritmo de procura pelo imunizante, que até hoje não voltou aos parâmetros anteriores. Considerando todo o País, o Ministério da Saúde estima que a cobertura com a primeira dose nos adolescentes está em 68,6% - foram aplicadas 12,6 milhões de doses. 

No Rio Grande do Norte, que já havia começado a vacinar adolescentes antes do dia 15 de setembro, a aplicação chegava a 10 mil doses por dia, segundo Kelly Lima, coordenadora de Vigilância em Saúde do Estado. Depois da confusão de diretrizes do governo federal, o Estado não chega a aplicar nem metade das doses diárias que fazia anteriormente. A cobertura da primeira dose da vacina em adolescentes no Rio Grande do Norte está em 56%. 

Segundo Kelly, o Estado recebe dúvidas de pais em canais de atendimento. “Boa parte dos questionamentos são de pais ou responsáveis perguntando quais artigos científicos, quais publicações relatam a eficácia (da vacina contra a covid-19).” O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chegou a ir a Natal na mesma semana em que suspendeu a recomendação - na ocasião, desencorajou  a vacina para esta faixa etária. 

O presidente Jair Bolsonaro também tem, em diversas ocasiões, se posicionado contrário à vacinação de crianças e adolescentes. Em Roma, onde ocorreu na semana passada o encontro do G-20, grupo de países com as 20 maiores economias do mundo, Bolsonaro usou o tempo em que esteve com o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, para criticar a autonomia dos Estados e a vacinação dos mais jovens. 

O Espírito Santo calcula que, com as estratégias do Estado para atingir esse público, a cobertura com a primeira dose já poderia ter chegado a 90% (como ocorre com os adultos), mas está em 73% para a faixa etária dos adolescentes. "O que acabou desencadeando um impacto maior no público adolescente foi (o governo federal) ter recuado com relação à indicação da vacinação logo no início. Isso fez com que as famílias ficassem em dúvida se era importante vacinar os filhos”, diz a coordenadora do Programa Estadual de Imunizações do Espírito Santo, Danielle Grillo.

Até mesmo Estados que lideram o ranking de vacinação no Brasil, veem dificuldades. Mato Grosso do Sul, primeiro Estado a começar a vacinar adolescentes, em agosto, ainda não chegou a 80% de cobertura com a primeira dose para adolescentes. “Quando houve a suspensão (pelo Ministério da Saúde), houve um atraso e certa desconfiança no adolescente”, diz o secretário de Saúde, Geraldo Resende. Ele espera alcançar pelo menos 90% desse público. A dificuldade também é vista na terceira dose aos idosos. “É um Estado conservador, onde a fala de lideranças nacionais tem grande repercussão e joga contra a vacinação.”

Em São Paulo, a cobertura chegou a 93% nesta quarta-feira, 3, mas a coordenadora geral do Programa Estadual de Imunização, Regiane de Paula, relata que notícias falsas criaram insegurança e dificultaram o avanço mais rápido. No Estado, a vacinação de adolescentes começou no dia 18 de agosto. “Tivemos momentos de fake news, como estamos vivendo agora, inclusive com ameaças aos diretores da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, diz Regiane. Na semana passada, a agência reguladora responsável pela liberação dos imunizantes no Brasil informou que recebeu e-mail com ameaça de morte na hipótese de eventual aprovação de vacinas para crianças. 

Contra a desinformação, o Estado aposta em ações de sensibilização nas escolas e campanhas. A recente aprovação para uso da vacina em crianças pela FDA, a agência reguladora americana, também dá força ao movimento pró-imunização dessa faixa etária, de acordo com a coordenadora paulista. O desafio em São Paulo, agora, será garantir a imunização completa dessa população - nem todos os adolescentes se atentaram para a antecipação da segunda dose. 

Se São Paulo já alcançou a meta de vacinação com a primeira dose, outros Estados não chegaram nem a 50% de cobertura. É o caso, por exemplo, da Bahia, que registrava, nesta quarta-feira, 3, índice de apenas 42% para os adolescentes. Em Salvador e outros municípios, a vacinação de adolescentes foi suspensa depois da recomendação do Ministério da Saúde, em setembro.  

Mãe de um menino de 12 anos, a trabalhadora rural Simaria Pereira, moradora de Santo Amaro da Purificação (BA), diz ter ficado com “um pé atrás” após ler notícias que desencorajavam a vacina. “Vi no Google uma notícia de uma menina que tomou a vacina e um dia depois começou a passar mal. Fiquei com medo.” Eventos adversos graves da vacina são raríssimos e os benefícios superam os riscos. Mesmo com receio, ela procurou o posto para vacinar o filho, mas recebeu a notícia da suspensão da imunização para adolescentes na cidade. O menino só recebeu a primeira dose dias depois - a segunda ficou para dezembro. 

Na Paraíba, com cobertura de 43,2% para a primeira dose em adolescentes, a Secretaria de Saúde argumenta que vacinar adolescentes é um desafio porque “essa faixa etária é a mais atingida por fake news e a mais influenciada pelas redes sociais”. No Estado, apesar de haver doses disponíveis, a vacinação ficou travada em setembro por causa das recomendações contrárias do Ministério. 

E o Paraná, que até agora alcançou só 46% dos adolescentes, diz ter seguido a diretriz de somente iniciar a vacinação nessa faixa ao término dos maiores de 18 anos, seguindo o Plano Nacional de Imunização (PNI). A vacinação começou oficialmente no dia 21 de setembro para adolescentes de 12 a 17 anos com comorbidades e no dia 28 para os sem comorbidades. Em Alagoas, a percepção é de que há menor adesão dos adolescentes em comparação com os adultos. “Mobilizar a população adolescente é uma tarefa complexa, uma vez que é necessário conscientizar todo o núcleo familiar sobre a importância da vacina.”

Por meio de nota, o  Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirma que “conscientizar adolescentes é desafiador em qualquer campanha de vacinação” e que tem enfrentado “não só grupos que criam e disseminam fake news, como também situações no mínimo contraditórias da atuação da gestão federal, como no lamentável episódio em que houve a interrupção da vacinação dos adolescentes”. Para garantir eficiência nessa nova etapa da vacinação, o conselho argumenta que é “imprescindível uma ampla campanha de divulgação, coordenada pelo Ministério da Saúde”.

Vacina protege adolescente e ajuda a controlar a pandemia

A infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi ressalta que é necessário vacinar adolescentes para protegê-los da covid-19. “Eles também têm o risco de adoecer gravemente, não só na fase aguda da doença, mas também de desenvolver a síndrome inflamatória aguda grave, que é um quadro muito delicado, que acomete mais frequentemente crianças e adolescentes.” Os riscos da covid-19 para os mais jovens são muito maiores do que o risco de algum efeito colateral da vacina. 

Ela também destaca os efeitos da covid longa nos mais jovens: até mesmo crianças e adolescentes com sintomas leves da covid podem manifestar, mais tarde, quadros de alteração de comportamento, ansiedade, distúrbios de atenção e déficit de aprendizagem. Além disso, segundo a especialista, há a importância coletiva. “Se não protegidos, os jovens podem ser responsáveis pela manutenção da transmissão”, diz Raquel, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. 

O Ministério da Saúde informou, sem detalhar, que "atua por meio de campanhas para conscientizar a população sobre a importância da vacinação contra a covid-19". /COLABOROU MARIANA HALLAL

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