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TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO 23.03.2020
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Estados precisam dobrar ritmo de vacinação contra covid-19 para cumprir calendários

Levantamento do 'Estadão' cruzou atual cobertura vacinal com as novas metas divulgadas pelos governos locais. Estratégias dependem de envios de lotes pelo governo federal e adesão do público

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 05h00
Atualizado 17 de junho de 2021 | 16h49

SÃO PAULO - Para cumprir a promessa de imunizar antecipadamente sua população adulta contra a covid-19, Estados que anunciaram a medida vão precisar pelo menos dobrar o número de pessoas vacinadas por dia. É o que aponta levantamento do Estadão que compara a atual cobertura vacinal com as novas metas divulgadas pelos governos locais.

Ao menos 13 unidades federativas projetam aplicar mais cedo a primeira dose em todos os maiores de 18 anos, com datas finais que variam entre agosto e o fim de outubro. Inicialmente, a previsão era concluir a vacinação até o fim do ano. Para antecipar o prazo, esses Estados alegam ser preciso receber os repasses previstos pelo Ministério da Saúde, que planeja distribuir 213,3 milhões de doses até setembro. Com a nova alta de mortes pelo vírus, o Brasil voltou a superar a média de duas mil vítimas esta semana, e precisa acelerar a imunização para conter a pandemia. 

Pesquisadores avaliam que, apesar de ser possível cumprir os novos cronogramas, a estratégia corre risco de falhar se houver falta de adesão de público ou atrasos importantes na entrega de lotes previstos pelo governo federal. Também alertam que, em alguns locais, a antecipação do calendário pode ser resultado da baixa cobertura vacinal em grupos prioritários até o momento.

Com população adulta estimada em 6,9 milhões, o Ceará começou a imunizar a faixa etária entre 55 e 59 anos e é quem tem a previsão mais otimista de encerrar a primeira rodada da campanha no País: até 25 de agosto. Em contrapartida, também é a unidade que vai precisar acelerar mais o ritmo de vacinação para o cronograma prometido dar certo.

Dados do consórcio de veículos de imprensa apontam que o Ceará havia aplicado cerca de 2 milhões de primeiras doses até o início desta semana, índice que representa 30% do público-alvo. Para atender os 70% restantes, portanto, a média diária de vacinados tem de praticamente quintuplicar: passando de 14 mil para 66,4 mil por dia.

Segundo o plano do governo Camilo Santana (PT), a data foi projetada com base no número de pessoas inscritas no sistema para receber o imunizante - o cadastro é uma etapa exigida no Ceará. “Fica autorizada a vacinação da faixa etária subsequente sempre que a meta de cobertura vacinal for atingida no percentual de 90% na faixa etária superior”, diz o programa. “Estima-se que em aproximadamente 70 dias o Estado consiga finalizar a vacinação da população em geral.”

Em São Paulo, a promessa do governador João Doria (PSDB) é atender toda a população até o dia 15 de setembro. Entretanto, o Estado também tem o desafio de dobrar a aplicação diária da primeira dose. Em média, 109,6 mil novas pessoas receberam imunizante do início da campanha até segunda-feira, 12. Esse indicador tem de subir para 240,7 mil, ou 119,5%, a partir de então.

A população estimada em São Paulo é de 36 milhões, das quais 13,6 milhões receberam a primeira dose até o início da semana. Em nota, a gestão Doria diz que a rede de saúde conta com 6 mil salas de vacinação e seria capaz de aplicar mais de um milhão de doses por dia. Essa produtividade, contudo, nunca foi atingida durante a pandemia. 

Os governos do Pará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Paraná também prometem finalizar o cronograma até 30 de setembro. Entre eles, o governo gaúcho é quem precisa acelerar menos, aumentando o atendimento médio dos atuais 25,2 mil para 48,6 mil (92,6%). Para o potiguar, o salto deve ser de 184% (5,8 mil para 16,5 mil), enquanto que no Pará a meta é ainda mais difícil, de 11 mil para 41,1 mil, ou 273%. 

Entre as estratégias, o Rio Grande do Norte diz que pretende realizar mutirões de vacinação e incentivar a busca ativa pelos municípios através da atenção básica. Já o Pará prevê emprestar funcionários para os municípios.

O anúncio mais recente foi feito pelo governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), na última quarta-feira, 16. Com população adulta estimada em 8,7 milhões e ações que preveem vacinação em dias e horários alternativos, o ritmo no Estado tem de subir 136%, de 21,8 mil para 51,5 mil vacinados a cada 24 horas. Segundo a gestão local, o novo cronograma foi elaborado considerando “ao menos um envio de imunizante por semana” e a “disponibilidade da Janssen (vacina de dose única) e de novas remessas até setembro”.

Professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), Jorge Kalil alerta que antecipar o calendário nem sempre é uma medida positiva. “Quando começa a diminuir o número de vacinados por dia, significa que há menos pessoas de grupos prioritários buscando o posto de saúde. Então, alguns lugares decidem avançar por idade para não ficar com doses estocadas”, afirma. “Para o plano dar certo, é preciso que as vacinas cheguem e as pessoas compareçam.”

No Rio, a cobertura para os grupos prioritários ainda está em 58,4% em relação à primeira dose. Para satisfazer a previsão de atender todas as pessoas acima de 18 anos até o fim de outubro, o Estado tem de quase triplicar o atendimento. Hoje, a média é de 25,1 mil vacinas por dia. O necessário são 73,3mil. “O desenvolvimento do calendário está associado ao envio de vacinas pelo Ministério da Saúde”, diz a gestão Claudio Castro (PL), em nota.

Também com prazo em outubro, os outros Estados que precisam acelerar a vacinação são: Piauí (141,7%), Minas (118,2%), Paraíba (114,8%), Alagoas (98,1%) e Santa Catarina (97,4%). “Com a quantidade total prevista  de distribuição de doses  pelo Ministério da Saúde entre  os meses de junho e outubro, considerando que Minas Gerais irá receber 10% do total, Minas deverá aplicar mais de 140 mil doses por dia”, diz o governo Romeu Zema (Novo).

Melhor situação vive o Espírito Santo, que aplicou a primeira dose em 1,2 milhão dos 3 milhões de adultos e também prevê alcançar toda a população em outubro. Para isso, a vacinação precisa avançar de 8,4 mil para 13,2 mil por dia (56,6%). “Nós só não detalhamos o período por semanas, porque acreditamos que ainda existem diversas instabilidades no Programa Nacional de Imunização e o calendário pode ser tanto prejudicado quanto antecipado”, afirma o secretário da Saúde, Nésio Fernandes.

Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai pondera que é importante para a vacinação que a campanha ocorra de forma homogênea no País. “É claro que, dependendo da realidade de cada lugar e do perfil da população, o ritmo pode ser mais rápido em um ou mais devagar em outro”, diz.

Para ela, também seria “temeroso” anunciar a antecipação de cronogramas estaduais sem ter 100% de garantia de que as doses estão disponíveis, uma vez que há histórico de atrasos e até entregas de lotes menores do que o previsto pela gestão Jair Bolsonaro. “A gente corre o risco de frustrar as pessoas e isso impactar na adesão."

Esse é o motivo alegado por Bahia, Pernambuco, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul para, diferentemente de outras unidades, não apresentarem data-limite ou cronograma de vacinação a longo prazo. “Com a permissão de poder avançar nas faixas etárias, a vacinação tende a ganhar velocidade”, diz o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo. “A questão é: vai ser mantida a entrega de vacinas? Todos os meses, a gente tem uma quebra de expectativa. Então, a gente está preferindo não gerar uma falsa expectativa.”

Com diferentes perfis e ofertas de doses, cidades têm imunização heterogênea

Diferenças no perfil dos municípios, disponibilidade de vacinas e nos modelos de campanha também têm feito com que as faixas etárias avancem de forma irregular no País. No Maranhão, que recebeu imunizantes a mais após detectar circulação da nova cepa indiana, a capital São Luís iniciou esta semana a imunização de pessoas a partir dos 25 anos. Em Natal, a prioridade passou a ser para quem tem mais de 50 anos. Já Palmas começou nesta quarta-feira, 16, a atender pessoas com 59 anos. 

Com a vacinação por faixa etária em curso no Maranhão, o governo Flávio Dino (sem partido) diz que o andamento em cada cidade pode variar em razão do “quantitativo limitado de doses enviadas” pelo ministério e também pela necessidade de continuar imunizando, simultaneamente, grupos prioritários.

Entre as categorias prioritárias, a atual cobertura vacinal é irregular no Estado. O índice para trabalhadores da saúde, os primeiros a ser atendidos, está em 82,4%. Já para pessoas entre 65 e 69 anos, o patamar é de 56,2%. Mais recente, o grupo de pessoas com deficiência permanente atingiu só 4% nesta semana. Em nota, o governo diz fazer parcerias com as cidades para “garantir o esquema vacinal” e “acelerar o processo”. Uma das estratégias são os mutirões, chamados de Arraial da Vacinação, que oferecem até mingau de milho e músicas tradicionais para incentivar o comparecimento.

Diferenças de faixas de idade atendidas também são vistas dentro do mesmo Estado. Apesar de não ter data-limite em Pernambuco, por exemplo, o arquipélago de Fernando de Noronha já vacina a população a partir dos 18 anos. Por sua vez, o Recife está no grupo com 43 anos. “Você nao pode comparar um município que tem um ônus de ter um grande contingente de trabalhadores industriais, como Goiana, com município que não tem polo industrial e, daí, evolui diferente”, afirma André Longo. 

Em São Paulo, o Estadão mostrou nesta semana que o ritmo nas cidades ainda é desigual, com variações na primeira dose de 11% a 63% de cobertura total. Algumas se queixam de falta de doses, enquanto outras estão mais adiantadas do que prevê o calendário do Estado. Enquanto Campinas vacinou 33,34% da população, a cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, atingiu cobertura de 20,38%.

Segundo a infectologista Rachel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o planejamento do município impacta no avanço da campanha. “Uma cidade resolve vacinar aqueles de 55 anos, enquanto outra espera que todos com 60 sejam vacinados, o que cria um avanço desigual."

Outra possibilidade é que algumas cidades optam por, em vez de guardar a segunda dose, usar na aplicação da primeira. “Qualquer um dos motivos, a partir do momento que os municípios tenham a garantia de aporte maior de doses, todos têm capacidade para acelerar a vacinação e se igualar, vacinando toda a população até setembro”, diz. “O que se espera é que não se incorra no erro de usar todas as doses, se não tiver a segurança de receber as que faltam.”/COLABORARAM JOSÉ MARIA TOMAZELA E MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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