Governo de SP
Vacinação contra a covid-19 em unidade básica de saúde (UBS) de São Paulo. Governo de SP

Estados veem risco de desabastecimento da AstraZeneca nas próximas semanas

Demanda pela segunda aplicação será crescente nos próximos meses e deve desafiar planejamento de encurtar período entre doses. Secretários cobram liberação para misturar vacinas

Ítalo Lo Re e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 15h00
Atualizado 09 de setembro de 2021 | 18h50

Estados veem risco de desabastecimento de vacinas da AstraZeneca para as próximas semanas. O receio ocorre diante de um cenário em que a demanda pelas doses produzidas no Brasil pela Fiocruz seguirá em alta, e deve se intensificar ainda mais com o plano de encurtar o intervalo entre as aplicações, de 12 para oito semanas. Trinta e dois milhões de pessoas começam a retornar para a 2ª dose da AstraZeneca a partir de setembro até novembro.

Nesta quinta-feira, 9, metade dos postos da cidade de São Paulo estava sem o imunizante e ainda não há previsão de reabastecimento. As contas já estão sendo feitas pelos secretários de saúde de outros locais. Parte deles reforça a posição de que será necessário misturar doses de diferentes fabricantes entre 1ª e 2ª dose para fazer frente à demanda crescente. A adoção do chamado esquema heterólogo (aplicação da AstraZeneca na 1ª dose e Pfizer na 2ª, por exemplo) está em análise pelas autoridades. 

Presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e secretário de Saúde do Maranhão, Carlos Lula diz que já havia expectativa de faltar doses da vacina da AstraZeneca para completar os esquemas vacinais iniciados nos últimos meses. O desabastecimento pode acontecer principalmente em Estados e municípios que usaram as vacinas destinadas à 2ª aplicação como 1ª dose.

"A gente já tinha pedido ao Ministério da Saúde para resolver isso com o intercâmbio de vacinas", diz Lula. Estudos mostram que é seguro e eficaz fazer o chamado esquema heterólogo. No País, isso foi feito em gestantes que tomaram o imunizante fabricado pela Fiocruz antes de a Anvisa recomendar a suspensão do uso das vacinas de vetor viral neste grupo.

No Maranhão, o intervalo entre a 1ª e a 2ª dose da AstraZeneca é de 12 semanas. Lula ainda não se compromete a diminuir esse tempo para oito semanas a partir de 15 de setembro, conforme orientação federal. "O ministério não disse no que está se baseando para fazer essa conta. Só poderemos diminuir o intervalo quando a vacina chegar aqui", reforça.

A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo informou que está cobrando o envio de 4 milhões de doses da AstraZeneca para concluir esquemas vacinais com vencimento em setembro e outubro. “Caso o governo federal não tenha disponibilidade de mais remessas da AstraZeneca, o Estado aguarda envio imediato do quantitativo da Pfizer para suprir esta demanda e concluir os esquemas em conformidade com a solução de intercambialidade indicada pelo próprio PNI.”

O secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, diz que estava conseguindo cumprir o calendário de aplicação da 2ª dose até esta quarta-feira. Na manhã de quinta, o estoque era de só 37 mil doses, insuficiente para abastecer todas as unidades. "É a primeira vez que estamos tendo problemas com a 2ª dose da AstraZeneca", diz.

Questionado sobre a possibilidade de aplicar uma dose de Pfizer em quem recebeu a 1ª de AstraZeneca, Aparecido diz que essa poderia ser uma saída viável se houvesse Pfizer em abundância. No momento, esses imunizantes estão sendo usados na vacinação de adolescentes, que têm aderido fortemente à campanha.

O secretário de Saúde do Espírito Santo, Nésio Fernandes, também cobra mais diretrizes ao ministério sobre a falta de doses e a possibilidade de adotar o esquema heterólogo. "A câmara técnica do PNI [Programa Nacional de Imunização] e gestores estaduais são favoráveis ao assunto. Só falta o ministério se posicionar." Para ele, a redução do prazo de aplicação entre doses aumenta ainda mais o desafio de cumprir o calendário. "Se o ministério quiser antecipar a 2ª dose, será praticamente obrigado a aprovar o esquema heterólogo", diz.

A epidemiologista Ethel Maciel relembra que, na nota técnica 6/2021, o ministério determinou que vacinas heterólogas podem ser administradas quando houver indisponibilidade do imunizante aplicado como 1ª dose e o intervalo entre doses já estiver no limite. O documento do órgão ficou conhecido por determinar que gestantes e puérperas (mães que tiveram o filho há até 45 dias) vacinadas com a 1ª dose da AstraZeneca poderiam receber a 2ª dose de outros imunizantes.

Ainda com esse trecho presente em uma nota técnica, de acordo com Maciel, os critérios para a vacinação heteróloga seguem vagos no País, não havendo uma indicação de como os municípios devem agir em casos de falta de segunda dose. “Essas orientações precisam estar mais explícitas, mais claras e mais assertivas, para que não haja demora e confusão”, defende a epidemiologista.

Em Florianópolis, o secretário municipal de Saúde, Carlos Alberto Justo da Silva, diz que, como o município reservou as segundas doses enquanto fazia a primeira aplicação, a previsão é que não irá faltar vacina da AstraZeneca para completar o esquema vacinal na cidade. Ele reconhece, porém, que esse pode ser um problema para municípios que não guardaram a quantidade total de segundas e contaram com a chegada de novas remessas.

Consultados pelo Estadão, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Tocantins afirmam que podem enfrentar desabastecimento da vacina da AstraZeneca caso o governo federal atrase as entregas previstas. Em Mato Grosso, municípios que não reservaram a segunda dose correm risco de ficar sem vacinas para cumprir esta etapa. O governo de Santa Catarina também admitiu que pode ficar sem estoque de AstraZeneca e, caso isso aconteça, usará a vacina da Pfizer.

Fiocruz diz que 15 milhões de doses estão asseguradas para setembro

Com 32,8 milhões de primeiras doses de AstraZeneca aplicadas no País nos meses de junho a agosto, a alta demanda por segundas doses pode dificultar os planos de encurtar o intervalo entre aplicações da vacina. 

Seguindo o intervalo máximo de 12 semanas, as 32,8 milhões de segundas doses que completam o esquema vacinal de quem foi vacinado de junho a agosto teriam de ser administradas do início de setembro ao final de novembro no País. Para encurtar o intervalo, por outro lado, a mesma quantidade de doses teria de ser aplicada no máximo até outubro.

Dados do Ministério da Saúde apontam que foram distribuídas aos Estados até aqui um total de 101,1 milhões de doses de AstraZeneca, sendo que 83 milhões delas já foram aplicadas de janeiro a agosto. Em tese, há cerca de 18 milhões de doses restantes que serão somadas às vacinas que ainda vão ser entregues para aplicação de segunda dose.

A Fiocruz informou que recebeu na última sexta-feira, 3, mais um lote de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) da vacina contra covid-19, o que seria suficiente para a produção de mais 4,5 milhões de doses. “A remessa, somada às duas anteriores recebidas no mês de agosto, comporá as entregas ao Ministério da Saúde no mês de setembro, a serem realizadas a partir da semana de 13 de setembro. Com o novo lote, já estão asseguradas para este mês cerca de 15 milhões de vacinas”, acrescenta. 

Na semana passada, a Fiocruz tornou público um atraso na chegada da matéria-prima, o que a fez interromper por cerca de dez dias as entregas previstas. As doses devem voltar a ser entregues a partir da próxima segunda-feira, 13.

Coordenador na Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt não descarta a possibilidade de faltar doses para completar o esquema vacinal de quem foi vacinado com a primeira dose da AstraZeneca. “Pelo que vimos, as distribuições são feitas em um cenário de não atraso, sempre contando com a produção máxima”, explica.

Schrarstzhaupt reforça que, a cada semana sem produção, passa a ser necessário, “na melhor das hipóteses”, ir ‘comendo’ o estoque excedente, caso haja. Com isso, a vacinação com a segunda dose, que já é considerada ajustada no País, torna-se ainda mais desafiadora e pode passar por percalços em alguns locais. “Como a gente viu a falta da Coronavac por semanas, percebemos que esse erro já foi cometido”, complementa o coordenador.

Para o diretor da Fiocruz SP e professor de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Rodrigo Stabeli, um ponto de atenção é que, com o recrudescimento da pandemia em países da Europa e da Ásia, um desafio é saber se os fornecedores irão honrar os contratos para entrega dos Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), já que eles foram firmados antes do cenário atual. O IFA é usado para fabricar as vacinas no Brasil.

“Lembrando que Butantan e Fiocruz dependem muito da variação internacional tanto do dólar, quanto também da disponibilidade do IFA, frente aos países que estão vendo a covid aumentar em seus solos e que são produtores de vacina”, reforça Stabeli. Caso dificuldades como essa sejam superadas, explica, a possibilidade de avançar ainda mais a imunização até o final do ano é grande.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que o recebimento de imunizantes contra a covid-19 “segue o ritmo previsto”. “A pasta contratou mais de 600 milhões de doses das vacinas contra covid-19 para serem entregues até o fim do ano. O quantitativo é suficiente para vacinar toda a população adulta e completar o esquema vacinal”, apontou.

Procurado, o Instituto Butantan informou que, após a interceptação de 12 milhões de doses da Coronavac, criou uma força-tarefa para “agilizar a liberação dos lotes o mais rapidamente possível para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), considerando a urgência dentro do contexto pandêmico”.

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Aplicação da 2ª dose se torna predominante no País e avanço da imunização tem de superar desafios

Brasil entra em nova fase da sua campanha de vacinação. Além da entrega de doses, sucesso da etapa pressupõe convencimento da população para retorno a postos de saúde

Ítalo Lo Re e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 15h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 19h42

A aplicação da segunda dose contra a covid-19 no Brasil foi predominante na semana passada pela primeira vez desde o início de maio, apontam dados do Ministério da Saúde. É apenas a quarta vez que isso ocorre e a primeira em um contexto de vacinação com a primeira dose avançada no País, o que indica uma nova fase da campanha de imunização. 

Além da entrega de vacinas, o avanço da aplicação da segunda dose de imunizantes contra a covid-19 no Brasil também envolve uma série de outros fatores: desde a realização de campanhas publicitárias para conscientização até a busca ativa de quem não tiver retornado para completar o esquema vacinal.

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que ações como essas são de extrema importância sobretudo porque o espaço entre as doses foi expandido para alguns imunizantes no País, o que aumenta os riscos de evasão.

Para a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, vários fatores dificultam a aplicação da segunda dose no Brasil. A falta de vacinas é um deles. "Quando a pessoa vai ao posto e não encontra a vacina que precisa para a segunda dose, dificilmente irá em outro local ou voltará outro dia", explica.

Outro ponto levantado pela especialista é o esquecimento. O intervalo entre as doses das vacinas pode chegar a doze semanas. Muita gente fica ansiosa aguardando a data do reforço, mas outro tanto esquece de voltar ao posto. "Precisamos de algum mecanismo para lembrar a pessoa, seja uma mensagem de texto, ligação, e-mail...".

Para aumentar a adesão, ela pede que os governos facilitem o acesso à vacina. Se uma pessoa busca a segunda dose um ou dois dias antes do prazo, não deveria ser impedida de recebê-la, cita Denise. A especialista diz que ampliar o horário de funcionamento das unidades de saúde é outra forma de aumentar o acesso à vacina.

Campanhas publicitárias também podem fazer a adesão crescer. "Isso faz toda a diferença. Embora a gente tenha uma cultura pró-vacina muito forte, muitas vezes as pessoas esquecem da segunda dose", diz. A propaganda ajudaria a lembrar de completar a vacinação.

Denise ressalta que apenas uma dose da vacina não impede a pessoa de ser infectada pelo coronavírus, principalmente em um cenário que passa a ser dominado pela variante Delta. "Não tomar a segunda dose no tempo certo é desperdiçar os esforços feitos até aqui. A primeira dose sozinha evita parte das internações graves e mortes, mas não confere proteção contra a infecção".

A epidemiologista afirma que o Brasil tem o conhecimento suficiente para garantir que todos recebam a segunda dose no tempo certo, mas falta esforço por parte dos governantes. "Não adianta adiantar a vacinação para os mais jovens se a cobertura em pessoas mais velhas ficar prejudicada. É essencial olharmos para as taxas de segunda dose", diz.

O médico infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Renato Kfouri entende que a vacinação no País passa, de fato, por uma nova etapa. Com isso, o maior desafio que se apresenta agora, segundo ele, é o de terminar os esquemas vacinais. “Nós vamos precisar de uma campanha de comunicação muito forte, no sentido de divulgar a necessidade de terminar o esquema (vacinal)”, reforça.

Ele acrescenta que a suspensão das 12 milhões de doses da Coronavac e o atraso na entrega de insumos para produção da AstraZeneca são problemas que precisam ser contornados, permitindo aplicar a segunda dose na população de forma mais ágil e até encurtar o intervalo entre aplicações. “Quanto mais longo é o intervalo, maior é a taxa de abandono. Então, a gente encurtar esse intervalo é um expediente que colabora com a taxa de cobertura”, explica.

De acordo com o infectologista, ao mesmo tempo em que outros programas vão sendo introduzidos, como o de doses adicionais para idosos e vacinação com primeira dose para adolescentes, é fundamental não esquecer de incentivar a população a completar a vacinação. “É uma nova etapa e a comunicação é crucial”, explica, destacando a importância de ações como busca ativa e flexibilização de horários.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, em um cenário de falta de segundas doses de AstraZeneca, como o que está ocorrendo neste momento, seria mais importante completar o esquema vacinal dos adultos, até com o uso heterólogo da Pfizer, por exemplo, do que seguir com a primeira aplicação em adolescente.

“O risco de adoecimento, internação e óbito entre os adultos é maior do que entre os adolescentes e crianças”, justifica Maciel. Segundo ela, ainda que a vacinação de adolescentes seja importante, estudos apontam que apenas uma dose de vacina contra a covid-19 não gera tanta proteção, sobretudo diante da variante Delta.

Desse modo, a epidemiologista defende que, principalmente em uma campanha da magnitude da vacinação contra a covid-19, é preciso reagir a novas variáveis de forma ágil e, se necessário, remodelar o planejamento inicial, até para atender novas descobertas que vão surgindo. “Se o estoque está acabando, já tem que pensar lá na frente. Não pode esperar o problema acontecer”, diz Maciel. “O ministério está sempre reagindo ao problema, ela não está agindo preventivamente.”

Coordenador na Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt alerta que, mesmo no caso do uso heterólogo da vacina da Pfizer, por exemplo, o planejamento teria de ser feito “com bastante antecedência”. “Logística é sempre bem complicada, ainda mais em algo nacional, escasso e de tanta demanda”, explica. “Quando se trabalha com estoques ‘no limite’, quaisquer desabastecimentos podem, sim, gerar falhas. Ou seja, quanto menos ‘gordura’, maior a precisão necessária.”

Em nota, o Ministério da Saúde informou que o recebimento de imunizantes contra a covid-19 “segue o ritmo previsto”. “A pasta contratou mais de 600 milhões de doses das vacinas contra covid-19 para serem entregues até o fim do ano. O quantitativo é suficiente para vacinar toda a população adulta e completar o esquema vacinal”, apontou.

Auxílio financeiro e remanejamento de doses entre municípios são as estratégias do Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul é o Estado mais avançado na aplicação da segunda dose, com 46,9% da população completamente vacinada contra a covid-19. Há algumas semanas, o governo estadual reduziu o intervalo entre as doses das vacinas da Pfizer e AstraZeneca de 12 para oito semanas. 

O secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, conta que as estratégias de Mato Grosso do Sul para acelerar a vacinação incluem auxílio financeiro para que as cidades vacinem aos finais de semana e remanejamento de doses entre municípios. "Monitoramos diariamente os índices de vacinação nos municípios e não nos constrange ligar para um prefeito ou secretário quando a cobertura está baixa", diz Resende. 

Agora, o Estado está aplicando a dose de reforço em idosos e a primeira dose em adolescentes. A procura por parte dos mais velhos está baixa, então o Estado pretende veicular campanhas publicitárias convocando as pessoas acima de 70 anos para receberem a dose extra.

Mesmo estando com a vacinação adiantada, Resende reconhece que haverá uma demanda muito grande pela segunda dose da AstraZeneca nos próximos dias. Isso pode comprometer os planos do Estado de manter a aplicação da segunda dose em ritmo acelerado. "Estamos aguardando as remessas do ministério", diz.

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