Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

It Avó: 'Estar em processo de aprendizado contínuo é o bonito da vida'

Por conta do ócio, Rosangela Marcondes decidiu se arriscar na internet. Hoje, aos 66 anos, é influenciadora digital e tem uma rede de admiradores

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2022 | 05h00

Em 2014, com tempo ocioso de sobra e ainda muito desejo de descobrir o desconhecido, Rosangela Marcondes se encantou pelo mundo digital. “A internet é um universo incrível. Você aprendeu hoje, amanhã você tem de aprender outra vez. Um lugar onde eu nunca vou saber o suficiente, nunca vou estar pronta e esse é o bonito da vida: estar em processo de aprendizado contínuo”, declara.

Foi ali que ela descobriu que, apesar dos diversos cargos ocupados na vida – empreendedora, empresária, concursada, publicitária –, faltava um essencial para alguém inquieta e comunicadora como ela: criadora de conteúdo. “O prazer de estar fazendo parte disso me dá um fôlego de falar: ‘eu não estou aqui à toa’”, conta, durante uma animada entrevista de vídeo com o Estadão.

A curiosidade é uma coisa que sempre se manteve presente durante seus 66 anos. Aos 18 anos, ela decidiu largar a faculdade de Ciências Contábeis na cidade de São Sebastião do Paraíso, interior de Minas Gerais, e vir para São Paulo conhecer o mundo.

“Eu fui buscadora, fui fazedora. Ia para onde o vento me levava e tenho muito orgulho da minha história. Eu acredito muito que cada um tem um diferencial, uma potência que pode entregar para o mundo”, reflete. 

Apesar de nunca ter mexido na internet antes, ela descobriu que sua vocação estava nas redes sociais. Mais especificamente, em falar da sua vivência como idosa e gerar um conversa intergeracional a partir disso, de maneira que “os velhos” (como ela diz) saíssem do estereótipo de incapazes e os jovens se inspirassem nessa longevidade. “Eu represento milhares de Rosangelas que são como eu, que estão em todos os lugares, que correm o risco, que não esperam e que se cuidam”, diz. Mas o caminho para entender essa proposta foi mais longo do que ela esperava. 

TECNOLÓGICA

Investir na internet foi ideia de sua filha, Fernanda, que vendo a mãe em busca de uma nova aventura, sugeriu que ela criasse um blog. E foi assim o primeiro contato de Rosangela com o mundo de criadora de conteúdo: por meio do canal Domingo Açucarado, criado em novembro de 2013. 

A ideia do nome veio das tardes compartilhadas com a sua neta recém-nascida na época, Júlia (hoje com 9 anos). “Neto é filho com açúcar”, explica.

As publicações, que falavam de receitas a decoração de quartos infantis, fizeram sucesso: em um mês ela acumulou mil seguidores. “Foi muito bacana para mim, porque eu não sabia nada de nada, estava escrevendo da forma que eu sei escrever porque não tenho título nenhum, sou só uma velha curiosa”, brinca.

Nesse meio-tempo, ela fez um curso sobre envelhecimento na Universidade de São Paulo (USP). “Eu queria mesmo era ficar naquele ambiente de universidade, ouvir os doutores e ter aquele conhecimento que eles poderiam me passar.” 

O momento não poderia ter sido melhor. Pelo mundo, o movimento de valorização da longevidade crescia e nas redes cada vez mais se falava sobre os termos ageísmo ou etarismo (discriminação por idade), contribuindo para movimentos de exaltação do envelhecer.

“Comecei a participar de eventos, palestras, assuntos envolvidos com a longevidade e pensei: ‘Nossa, preciso avisar os velhos do que está acontecendo’”, conta ela, que então, aos 62 anos, criou o Instagram It Avó. “Com isso, a gente consegue inspirar os mais novos e entender quem somos. O meu grande desejo é acabar com essa história de ageísmo, etarismo e o escambau porque acho uma chatice.” 

Sua forma de rebater é mostrar esse lado jovem da velhice. Em seu Instagram, os eventos são muitos: de lives com diferentes gerações ao Café & Prosa, encontro com pessoas inspiradoras que ela conheceu por aí e uma galeria de fotos para mostrar “os vários tipos de velhos”. Cabelos coloridos, tatuagem, esportistas: há espaço para pessoas de todos os tipos. Variedade similar aos assuntos tratados, que incluem novidades no mercado da terceira idade, beleza e até morte. 

Para ela, conversar sobre temas distintos com pessoas tão diferentes retira a velhice de um lugar de burrice ou doença, e a traduz como algo ativo e entusiástico. “A gente não para porque tem essa sede de aprendizado, de estar pleno e de honrar esse espacinho no mundo, porque muitos dos nossos amigos foram embora. E eu fiquei, então tenho o compromisso de ser uma pessoa inspiradora, de ser alguém que leva alguma coisa, mesmo do meu jeito.”

Tudo o que sabemos sobre:
terceira idaderede social

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.