Isac Nóbrega/PR
Isac Nóbrega/PR

'Estarrecidos', secretários dizem que Bolsonaro tenta desmobilizar esforços contra o coronavírus

Conselho Nacional de Secretários de Saúde disse que pronunciamento do presidente 'dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e de técnicos'. Em discurso, Bolsonaro voltou a falar em 'histeria'

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 00h18

 

BRASÍLIA - O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirmou nesta terça-feira, 24, que o presidente Jair Bolsonaro, ao se pronunciar em rede nacional de TV, tentou "desmobilizar" a sociedade, autoridades sanitárias e o próprio Ministério da Saúde no combate ao novo coronavírus. "Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e de técnicos", afirma a carta dos secretários endereçada ao presidente.

No discurso transmitido na noite desta terça, Bolsonaro voltou a falar em "histeria" sobre a pandemia e criticou o fechamento de escolas, entre outras medidas adotadas por governos e municípios. Bolsonaro disse ainda que autoridades "devem abandonar o conceito de terra arrasada" e rever a proibição de transporte, o fechamento dos comércios e o "confinamento em massa".

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Na carta, os secretários dizem que assistiram "estarrecidos" ao pronunciamento. "É preciso demonstrar ao Brasil as suas consequências para que toda a sociedade perceba a gravidade do momento que estamos vivendo", afirmam. Segundo o Conass, as recomendações dos secretários e do próprio Ministério da Saúde têm se baseado em evidências científicas.

"Não temos intenção de politizar o problema. Temos construído, sem dificuldade, independente de colorações partidárias, políticas e ideológicas, consensos para o bem do SUS e, sobretudo com a saúde de nosso povo. É isso que norteia nossas ações e esforços. Este é nosso compromisso", dizem os secretários.

O Conselho ainda afirma que já tem "problemas demais para enfrentar". "Assim é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República."

De acordo com dados oficiais atualizados nesta terça pelo Ministério da Saúde, o Brasil contabiliza 46 mortes e 2.201 casos confirmados, um aumento de 16,4% em um dia.

"Ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que temos feito junto com o povo brasileiro, negar todas as recomendações tecnicamente embasadas e defendidas,  inclusive, pelo seu Ministério da Saúde, deveríamos ver o Presidente da República liderando a luta, contribuindo para este esforço e conduzindo a nação para onde se espera de seu presidente: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar", afirmam os secretários.

Bolsonaro elogiou as ações do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no planejamento estratégico de esclarecimento e atendimento no Sistema Único de Saúde. Ao se usar como exemplo, o presidente disse que, caso ele contraísse o coronavírus, ele não sentiria nenhum efeito dado o seu histórico de atleta. Bolsonaro viajou com ao menos 23 pessoas que receberam diagnóstico positivo para a doença. Há duas semanas, o Estado pede os resultados dos seus exames para covid-19, mas não obtém resposta.

O Estado revelou que o pronunciamento do presidente Bolsonaro pegou de surpresa integrantes do Palácio do Planalto. O discurso, em que pediu o fim do “confinamento em massa” foi preparado no gabinete do presidente com a participação de poucas pessoas e em segredo. O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), considerado o mais radical do clã, participou da elaboração do texto.

Durante o pronunciamento, Bolsonaro voltou a ser alvo de panelaços nesta terça-feira, 24, em em ao menos nove capitais do Paí: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Fortaleza e Porto Alegre.

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