Valter Campanato/Agência Brasil - 01/12/2014
O epidemiologista Fábio Mesquita, que já foi diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, defende a importância de 'corrigir erros do passado' na comunicação correta sobre a varíola dos macacos  Valter Campanato/Agência Brasil - 01/12/2014

Combate à varíola dos macacos não pode ter mesmo erro que na Aids, diz brasileiro na OMS

Para Fábio Mesquita, que integra grupo técnico da Organização Mundial da Saúde estratégias de controle do vírus, incluindo a vacina, ainda estão em debate no mundo

João Ker, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2022 | 10h00

Com 35 anos de experiência trabalhando no combate ao HIV e a outras infecções sexualmente transmissíveis, o epidemiologista Fábio Mesquita confessa que a ciência está em um "debate intenso" sobre a necessidade de adquirir e distribuir mais vacinas nesse estágio do surto de varíola dos macacos (monkeypox). "Pode ser a solução, mas isso ainda não é um consenso", disse em entrevista ao Estadão. Alguns países, como Estados Unidos e Reino Unido, já iniciaram campanhas de vacinação focadas em homens que fazem sexo com outros homens, grupo mais vulnerável à doença. 

Desde 2016, quando abandonou o comando do Departamento de Doenças de Transmissão Sexual, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, onde esteve por três anos, Mesquita integra o corpo técnico da Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje lotado em Mianmar, na Ásia, ele defende que o cuidado na comunicação sobre a varíola dos macacos está no "cerne da questão" para evitar que a doença aumente o estigma da população LGBT+.

"A forma de não cometermos o mesmo erro do passado é dizer que, nesse momento, a comunidade precisa ficar atenta, porque está disseminando o vírus de forma importante. Mas também precisamos afirmar que não há evidência científica de que o monkeypox ficará restrito a essas pessoas", aponta. 

Por ora, já há algo sobre os motivos pelos quais a doença está disseminada principalmente entre o público de “homens que se relacionam com homens (HSH)”?

Isso ainda está em investigação. Basicamente, tentamos descobrir se a varíola dos macacos (monkeypox) é uma DST (doença sexualmente transmissível) pelo contato penetrativo ou se apenas pelo contato físico, que é o mais provável. Embora 98% dos casos mundiais são na população HSH, ainda não foi comprovada a transmissão sexual. Mas está nítido que a pessoa infectada teve contato físico com quem teve a doença. 

Sabemos, por exemplo, que não é uma transmissão aérea, mas sim pelo contato físico. O que não está nítido é o grau de intimidade necessário para transmitir o vírus no contato. 

É possível traçar algum paralelo com o início da epidemia do HIV?

Nesse momento, a varíola dos macacos está se espalhando nesse segmento da população. Mas temos o cuidado de não tachar isso como uma nova "peste gay", como chamaram no início da epidemia de HIV. Apesar da maior incidência, algumas mulheres já estão infectadas também. O HIV começou exatamente assim. Nossa hipótese, por enquanto, é que qualquer pessoa pode pegar a doença. 

E como transmitir informações sobre a doença para essa população sem aumentar o estigma da comunidade?

Esse é o cerne das discussões internacionais, exatamente para não cometermos os mesmos erros do HIV. Naquela época, nossa ignorância era muito grande. Demoramos para entender a ciência, o que era e como transmitia. Olhamos só para o número de casos e como se ela fosse necessariamente associada a uma comunidade. 

A forma de não cometermos o mesmo erro é dizer que, nesse momento, a comunidade precisa ficar atenta, porque está disseminando o vírus de forma importante. Mas também precisamos afirmar que não há evidência científica de que o monkeypox ficará restrito a ela. Ninguém está dizendo que é uma doença só dessa comunidade, mas, como já está entre ela, precisamos mandar mensagens importantes e específicas ao movimento gay e LGBT+, dizendo ao mesmo tempo que é muito cedo para afirmar que essa será uma doença específica. 

No momento, não temos vacinas suficientes para a imunização em massa em nenhum lugar do mundo. Qual seria o melhor enfrentamento nesse estágio da doença?

Temos algumas polêmicas sobre esse assunto e as opiniões são divergentes sobre se a vacina vai segurar a disseminação nesse momento. Como vimos com a covid-19, precisamos de mais tempo pra ver o impacto e se vale a pena pensar em uma escala de produção global. Suponha que a imunização não tenha impacto na contenção do vírus - você estaria investindo em um campo que não sabe se é correto.

Os serviços de saúde mais avançados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), nos Estados Unidos, e do Departamento de Saúde, do Reino Unido, estão fazendo tentativas, até pelo alto número de casos nesses países, para ver se as intervenções com a vacina vão ter algum efeito, mas ainda é cedo demais para afirmarmos algo. Até porque a vacina que temos não é específica do monkeypox. Na ciência, há um debate intenso sobre isso, não é um consenso ainda. 

Mas então como evitaríamos que a doença se espalhe ainda mais? 

Clinicamente, as pessoas têm evoluído bem. Não é algo desesperador, então precisamos de mais tempo para entender que medidas podem ajudar a conter essa disseminação. Por exemplo: está nítido que o contato de pele é importante. A observação das pessoas é crucial, se tem ferida ou algo assim em quem elas está se relacionando.  Esse é um caminho. O problema é que, por exemplo, se a pessoa está numa balada e lá é escuro, você não vê nada. Não é algo simples. 

Como avalia a resposta do Brasil à doença?

A vantagem do Brasil é o SUS (Sistema Único de Saúde) e a independência dos Estados. 

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Por que a varíola dos macacos se espalhou agora?

Cientistas de todo o mundo buscam respostas para o surto recente e repentino de monkeypox, enquanto tentam evitar 'erros do passado' cometidos durante o início da epidemia de HIV com a população LGBT+. OMS reconhece doença como emergência global

João Ker, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2022 | 05h00
Atualizado 29 de julho de 2022 | 13h51

Desde que extrapolou as fronteiras da África em maio, a varíola dos macacos (monkeypox) já se espalhou por 78 países e infectou cerca de 18 mil pessoas, diz o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) - a entidade reconheceu no último sábado, 23, a doença como emergência de saúde global.

No Brasil, o total de casos já se aproxima de 1 mil, a maioria em São Paulo – mas especialistas acreditam que o vírus esteja mais espalhado, em meio às dificuldades de teste e diagnóstico. A doença foi identificada pela ciência em 1958, mas agora médicos e pesquisadores tentam entender as causas da velocidade do novo surto e debatem a melhor forma para conter essa ameaça sem aumentar o estigma sobre os grupos mais vulneráveis ao vírus. Entre as estratégias, eles defendem campanhas de orientação focadas e vacinas.

A OMS estima que 98% dos casos de varíola dos macacos notificados em todo o mundo sejam entre "homens que se relacionam com homens" (HSH), o que engloba o grupo de gays e bissexuais, mas não se restringe a eles. No Brasil, médicos de São Paulo relatam percepção semelhante e o boletim mais recente do Ministério da Saúde aponta que essa população corresponde a 100% dos pacientes que declararam a orientação sexual na hora do diagnóstico. Ainda não se sabe o motivo de o contágio ser maior nesse grupo. 

Origem

Antes, a doença estava mais restrita a áreas rurais da África central e continental. Ainda não há consenso sobre o motivo do contágio mais veloz – a transmissão sexual ainda é investigada pelos pesquisadores. A teoria mais difundida entre cientistas é de que isso ocorreu por causa de uma série de mutações no vírus, que depois encontrou na população HSH um primeiro nicho de disseminação. 

Apesar do nome, a varíola dos macacos é mais comum em roedores e se restringia majoritariamente a caçadores africanos, onde é considerada endêmica. "Ela foi descrita assim pela primeira vez porque teve um surto em macacos, que adoeceram assim como nós. Não foram eles que transmitiram a doença para nós", explica Ana Gorini da Veiga, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

"Ainda não sabemos por que esse surto está mais abrangente. Pode ser por uma maior transmissibilidade do vírus, porque hoje temos maior facilidade de transporte e locomoção de pessoas...", aponta Ana. Os primeiros registros dessa nova variante vieram da Espanha e da Bélgica, mas rapidamente os sintomas pipocaram em países como Portugal, Reino Unido e nas Américas. 

Um dos principais empecilhos para dimensionar o alcance da monkeypox no Brasil e no mundo tem sido a variedade de manifestações da doença e a subnotificação. Com o período de incubação do vírus podendo variar de 5 a 21 dias, os primeiros sintomas geralmente incluem febre, dor de garganta, de cabeça e no corpo (que em alguns casos leva a uma primeira suspeita de infecção por algum vírus respiratório), além de inchaço dos gânglios. Alguns dias depois, surgem as lesões na pele, com pequenas erupções que podem se espalhar pelos dedos, mãos, braços, pescoço, costas, peito e pernas.

O surgimento dessas feridas nas regiões genital e perineal (entre o ânus e o órgão genital) tem ajudado médicos a confundir a varíola dos macacos com outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como sífilis e herpes. Pacientes ouvidos pela reportagem relatam que foram medicados com antibióticos e anti-inflamatórios, na primeira consulta após os primeiros sinais da doença. Com a persistência dos sintomas, a maioria deles só foi novamente testada após insistir em um novo diagnóstico ou se dirigir a outro hospital. 

Transmissão sexual?

O fato de a varíola dos macacos causar erupções próximas ao genital e se disseminar tão rapidamente entre homens gays e bissexuais tem levantado a hipótese de que essa forma da doença possa ser sexualmente transmissível. Estudos preliminares na Itália e na Alemanha encontraram vestígios do vírus no sêmen de pacientes, mas os dados ainda são poucos para afirmar se a quantidade de carga viral seria suficiente para uma infecção. 

"O fato é que temos uma doença transmitida de roedores para humanos e levada para a Europa, onde se disseminou de maneira muito intensa em encontros sexuais casuais, especialmente de homens. O vírus encontrou um nicho epidemiológico, que tem a possibilidade de transmissão adequada", explica Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista e pesquisador epidemiologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp). 

Por enquanto, médicos e cientistas dizem que é possível afirmar com mais segurança que a principal forma de transmissão da monkeypox é pelo contato direto com lesões ou saliva de pessoas infectadas, e não pela penetração sexual, por exemplo. Nesse sentido, o uso de máscara facial é importante, assim como a higiene constante das mãos e manter distância de quem esteja com sintomas, principalmente os visíveis.

"A transmissão não é pelo ato sexual, mas tem apresentado um comportamento que mimetiza essas características. Já temos casos, por exemplo, de alguém que teve a doença sexualmente e transmitiu para uma segunda pessoa do mesmo domicílio de outra forma", aponta Fortaleza. "Ao mesmo tempo, ignorar que ela tem se comportado como uma IST pode fazer com que a gente não dê as orientações necessárias para determinado grupo prioritário."

Sem erros do passado

Esse comportamento singular da monkeypox e sua associação ao ato sexual têm impulsionado queixas de parte da comunidade LGBT+, que encara os alertas específicos para "homens que se relacionam com homens" como uma forma de renovar o estigma criado há décadas sobre esse mesmo público desde o surgimento do HIV. Entre a comunidade médica e científica, essa mesma preocupação de reforçar estereótipos está "no cerne da questão", como aponta o epidemiologista Fábio Mesquita. 

"Não queremos cometer os mesmos erros do HIV. Na época, nossa ignorância era muito grande. Olhamos só para o número de casos como se fosse necessariamente associado a uma comunidade", observa ele, que já foi diretor do então Departamento de Doenças de Transmissão Sexual, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e hoje está baseado em Myanmar como membro do corpo técnico da OMS. 

E qual seria a forma correta de alertar a população de risco sem cair na estigmatização ou até culpar a comunidade pelo espalhamento do vírus? "É dizer que, nesse momento, a comunidade precisa ficar atenta, porque está disseminando de forma importante", aponta Mesquita. "Mas também precisamos frisar que não há evidência científica de que a monkeypox ficará restrita a ela (comunidade LGBT+)." 

Quem concorda com essa visão é David Uip, infectologista e secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Estado de São Paulo. Ao Estadão, ele disse acreditar que "informação clara, correta e científica" é o melhor caminho para contornar o preconceito e criar a conscientização necessária tanto no grupo de risco como na população em geral, evitando o que categoriza como "a catástrofe do ponto de vista médico, epidemiológico e social" vista no enfrentamento do HIV. 

"Você tem de se prevenir com o que temos de informações disponíveis, sem gerar pânico", aponta Uip, que esteve na linha de frente do combate ao HIV quando a doença explodiu no Brasil, em 1980, e foi inicialmente batizada de "peste gay". "(A monkeypox) não é uma doença letal, pelo menos no momento, mas as pessoas estão muito sintomáticas e sofrendo demais."

Vacinas

Outro paralelo que Uip estabelece entre a monkeypox e o HIV é a falta de vacinas específicas e duradouras para essas doenças. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde a imunização contra a varíola dos macacos já começou, são usadas doses inicialmente desenvolvidas para a varíola humana (smallpox), distribuídas especificamente para a população HSH e com estoque bem aquém do necessário. 

"Eu aproveitaria esse momento e encontraria mais informações sobre a monkeypox. Passaram-se 40 anos e ainda não encontramos a vacina para o HIV. O paciente tratado tem outra vida. O que resta, por enquanto, são medicamento e informação", diz.

Por ora, a aquisição de vacinas contra a varíola dos macacos não é uma realidade para o Brasil e nem para a maioria dos países em que a doença já foi encontrada. Questionado ao longo das últimas semanas, o Ministério da Saúde limitou-se a dizer que segue desde maio em tratativas com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a quem atribui a responsabilidade da distribuição de doses.  

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