TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO - 02/10/2020
Corredores treinam no Ibirapuera; atividades físicas ajudam a diminuir os riscos de inflamações, segundo especialistas  TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO - 02/10/2020

Estilo de vida saudável é a melhor maneira para evitar inflamações, apontam especialistas

Alimentação balanceada, atividade física e boa noite de sono contribuem para minimizar patologias

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 10h00

Na gênese da maioria das doenças, existe um processo inflamatório, como o Estadão mostrou em reportagens publicadas no sábado e no domingo. Isso explica o interesse renovado da ciência em descobrir todos os mecanismos causadores de inflamação nas diferentes patologias, algo que pode levar ao desenvolvimento de medicamentos mais eficazes. Por enquanto, a prevenção ainda é o melhor investimento ao alcance dos indivíduos. 

"O estilo de vida saudável reforça os mecanismos de regulação da inflamação no corpo para fazer com que a gente inflame só na hora certa. Ou seja: apenas quando o organismo precisa dela para se defender de infecções, reparar tecidos, entre outras funções", diz Ana Caetano Faria, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Além da alimentação balanceada, outros hábitos saudáveis como a prática frequente de atividade física, as noites de sono reparador, o controle do estresse e o abandono do cigarro são as medidas mais citadas pelos especialistas como intervenções para reduzir o desenvolvimento da inflamação crônica e suas consequências (veja lista abaixo). 

Quando exagerada, ela pode levar ao desenvolvimento de múltiplas doenças como depressão, Alzheimer, problemas cardiovasculares, câncer, entre outras. Vários estudos demonstram que o envelhecimento é acompanhado de uma inflamação subclínica de baixo grau. "É uma pequena inflamação crônica que não dói e sequer é percebida, mas que acompanha o processo de envelhecimento", afirma. 

Até os centenários que envelhecem muito bem têm essa inflamação subclínica, mas eles também contam com outros mediadores que compensam o estado inflamatório e mantêm o equilíbrio fisiológico do organismo (a chamada homeostase). "Há genes que são protetores, mas os hábitos saudáveis são fundamentais para estimular a ação de vários mediadores anti-inflamatórios no corpo", explica a professora. Esses mediadores são, por exemplo, metabólitos como os ácidos graxos butirato e propionato. 

O grupo de pesquisa coordenado pela professora na UFMG estuda intervenções de estilo de vida saudável para prevenir danos decorrentes da inflamação crônica. "Em termos de saúde pública, faz muito mais sentido descobrir maneiras de promover essa homeostase no corpo por meio do estilo de vida saudável do que tratar as doenças inflamatórias relacionadas ao envelhecimento", diz ela. 

Doenças cardiovasculares

Quanto mais inflamado é um paciente, maior é o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, entre muitas outras. A aterosclerose (acúmulo de gordura, cálcio e outras substâncias nas artérias) é causada por vários fatores, mas o processo inflamatório está presente desde o início. 

A inflamação produz o rompimento das placas de aterosclerose e contribui para a formação de coágulos que podem ocasionar um infarto, um acidente vascular cerebral e outros problemas. "Fomos selecionados pela natureza para engordar e para ter grandes respostas inflamatórias porque, há um milhão de anos, faltava comida e não existia antibiótico", diz o cardiologista Raul Santos, diretor da Unidade Clínica de Lípides do Instituto do Coração (InCor). 

"A soma dessa predisposição com um ambiente de sedentarismo, excesso de alimentos e tabagismo acaba levando a respostas inflamatórias exageradas e ao desenvolvimento de várias doenças", diz Santos. "O pacote completo do estilo de vida saudável é fundamental para prevenir a inflamação crônica e suas consequências."

Tratamento

Quando os problemas decorrentes da inflamação crônica precisam ser tratados, os médicos recorrem a medicamentos e intervenções cirúrgicas, dependendo do tipo de doença. No caso do coração, as estatinas usadas para controle do colesterol também têm uma função anti-inflamatória. Para as doenças inflamatórias intestinais, existem corticoides, drogas imunobiológicas e cirurgias. 

O transplante de fezes de pacientes saudáveis para enriquecer a microbiota intestinal dos doentes é um dos campos em investigação, mas ainda não adotado corriqueiramente na prática clínica. Estudos indicam, por exemplo, que processos inflamatórios no intestino podem afetar o cérebro e contribuir para o desenvolvimento de doenças como a depressão e o Alzheimer, mas falta desvendar detalhes dessa relação.

"Decifrar mecanismos cruciais para a sinalização da inflamação pelo eixo intestino-cérebro é fundamental para a compreensão da comunicação neuro-imune", afirmou a pesquisadora Gulistan Agirman, da Universidade da Califórnia, em artigo publicado recentemente na revista Science. Segundo ela, isso deve facilitar o desenvolvimento de novas terapias para distúrbios do trato intestinal e também para doenças neurológicas.     

COMO LIDAR COM O EXCESSO DE INFLAMAÇÃO

  • Melhoria do estilo de vida

O estilo de vida saudável (alimentação balanceada, atividade física praticada com regularidade, peso adequado, sono de qualidade etc.) é fundamental para prevenir o desenvolvimento da inflamação e da maioria das doenças. 

  • Controle do estresse

O estresse leva ao estado de inflamação crônica que contribui para o desenvolvimento de várias doenças, entre elas a depressão e Alzheimer. A atividade física e outras práticas como a meditação ajudam a prevenir excesso de inflamação.

  • Abandono do cigarro

O tabagismo é um dos mais importantes causadores da inflamação que contribui para o aumento da obstrução das artérias. A consequência é a elevação do risco de enfarte, acidente vascular cerebral (AVC) e muitos outros males.

  • Medicamentos

A inflamação leva ao rompimento de placas de aterosclerose, ao infarto e ao AVC. As estatinas têm ação anti-inflamatória, além de combater o colesterol. Corticóides e imunobiológicos são usados para tratar doenças inflamatórias intestinais, entre outras.

  • Transplante fecal

Pesquisadores buscam melhorar a microbiota intestinal de pacientes com doenças inflamatórias por meio do transplante de fezes. A técnica também desponta como uma tentativa de reduzir doenças no cérebro. Ainda não disponível na prática clínica.

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Por que inflamamos na saúde e na doença?

Novas evidências científicas podem ajudar na prevenção de males como a depressão, o Alzheimer e os distúrbios intestinais

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 05h00

Vermelhidão, inchaço, calor e dor. Desde os primeiros tombos, aprendemos a reconhecer os sinais clássicos de inflamação e a associá-los a experiências negativas. Quem nunca os sentiu na pele depois de um joelho ralado, um corte no dedo ou uma sessão de tatuagem que acabou mal? 

Esse conhecimento adquirido pela experiência diária continua válido, mas novas evidências científicas destacam um papel pouco conhecido e fundamental da inflamação: a manutenção do equilíbrio fisiológico do organismo (a chamada homeostase). A inflamação está presente em todos os processos metabólicos ruins – das doenças cardiovasculares e do envelhecimento celular ao câncer; da artrite ao Alzheimer. E nos bons também, desde que não seja exagerada. 

Uma visão expandida sobre a inflamação é proposta pelo imunologista Ruslan Medzhitov, professor da Universidade Yale (EUA), no principal artigo de uma edição especial sobre o tema, publicada recentemente pela revista Science. Segundo ele, o conhecimento ampliado sobre a natureza da inflamação poderá levar a novas formas de prevenir, tratar ou amenizar o sofrimento. 

Ao mesmo tempo, novas evidências indicam que os mediadores da inflamação (proteínas como as citocinas, por exemplo) estão envolvidos numa ampla gama de funções essenciais ao bom funcionamento do corpo, como remodelação de tecidos, metabolismo, geração de calor, comunicação entre órgãos e funcionamento do cérebro (incluindo o comportamento). 

“Como a inflamação está associada a quase todas as doenças (veja infográfico ao lado), é importante descobrir a causa dela em diferentes situações”, disse Medzhitov ao Estadão. “Isso permitirá desenvolver terapias que previnem a inflamação indesejada, que perpetua e amplifica processos patológicos.” 

Diante da diversidade de processos biológicos envolvendo sinais inflamatórios e células, Medzhitov acredita que a visão tradicional da inflamação como uma resposta à infecção ou lesão tecidual é estreita e incompleta. “A inflamação pode estar claramente presente na ausência desses processos”, diz ele. “É o caso da inflamação associada à obesidade, ao envelhecimento, ao câncer e até à privação do sono”, afirma. 

SEGUNDO CÉREBRO

Assim como o cérebro, o intestino é um órgão sensorial responsável por detectar, retransmitir e responder aos sinais do ambiente interno e externo. O intestino tem a capacidade de agir por conta própria, sem precisar de comandos emitidos pelo sistema nervoso central. Governado pelo sistema nervoso entérico, o intestino é conhecido como o “segundo cérebro”. 

Muito mais que um tubo processador de comida, o intestino é uma máquina que avalia constantemente o que precisa ser feito no organismo. Por isso, ele tem um papel importante na fisiologia e no comportamento. Estudos indicam que processos inflamatórios no intestino podem afetar o cérebro e contribuir para o desenvolvimento de doenças como a depressão e o Alzheimer, mas falta desvendar detalhes dessa relação.

“Isso ainda não é completamente compreendido, mas tanto a depressão quanto o Alzheimer são doenças causadas ou promovidas pela inflamação”, diz Medzhitov. “A depressão é uma resposta de proteção do organismo quando ele está em risco. Provavelmente porque reduz a exploração do ambiente, mas ela se torna patológica quando é excessiva”, explica. 

A conversa cruzada entre o intestino e o cérebro regula as respostas inflamatórias e a homeostase imune. Quando desregulada, a inflamação direcionada contra micróbios no intestino pode levar ao surgimento de doenças inflamatórias como, por exemplo, a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn. Essas são doenças sem cura, mas que podem ser controladas com medicamentos (corticoides e imunobiológicos) e cirurgias. 

Entre as causas principais, os médicos citam a microbiota pouco variada, fatores genéticos, o cigarro, a falta de atividade física, o uso indiscriminado de antibióticos e o estresse. O paciente sofre de diarreias crônicas, dores abdominais, cólicas e distensão abdominal. Com o tratamento, cada vez mais individualizado, o corpo para de inflamar durante longos períodos. O objetivo é reduzir as crises e induzir a remissão da doença no paciente. 

“O principal desafio é encontrar a medicação certa para cada um”, diz o coloproctologista Daniel Alencar, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. “Além dos remédios, a mudança de estilo de vida é fundamental: fazer atividade física, melhorar a alimentação com acompanhamento nutricional e controlar o estresse.” 

MUDANÇA DE VIDA

Quando descobriu que tinha doença de Crohn, há mais de duas décadas, a cabeleireira Maria Lúcia Moreira de Alcântara, de 65 anos, vivia um período estressante. Com dores constantes e diarreia crônica que a impediam de trabalhar e sem conseguir diagnóstico, acabou demitida do departamento de recursos humanos de uma empresa. Foi a senha para mudar de vida. 

Maria Lúcia decidiu usar o dinheiro da rescisão para investir em um curso de cabeleireira para poder trabalhar por conta própria. Dessa maneira, ela conseguiu ter maior flexibilidade de horários para se tratar ou ficar em casa quando a doença exigisse. 

Após ser diagnosticada, ela foi submetida a diversos tratamentos e cirurgias ao longo dos últimos anos. Perdeu o intestino delgado e alterna períodos de crise com remissão. “Para manter a doença quietinha por mais tempo, aprendi a fazer meu autocontrole psicológico”, diz ela. “Se eu me estressar por qualquer coisa, sei que a doença vai entrar em atividade”, afirma. “Por sorte, hoje posso trabalhar fazendo o que gosto e no espaço que montei em casa”, conta a cabeleireira. 

ESTRESSE CRÔNICO

No tempo das cavernas, o chamado reflexo de fuga ou luta preparava o corpo humano para caçar o almoço ou escapar de virar o almoço de um predador. “A primeira coisa que o organismo faz diante de situações como essa é desligar o sistema imune, porque ele consome uma quantidade enorme de energia”, explica o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein. “Os vasos dilatam à custa de histamina e adrenalina para que os músculos recebam mais sangue, e a pessoa possa partir para a briga ou fugir”, diz. O problema é que nosso cérebro não evoluiu para entender que o estresse crônico que vivemos hoje não deveria ser tratado como o estresse que a humanidade enfrentava há 300 mil anos. 

“Naquele tempo, o estresse era autolimitado: a pessoa vencia a luta ou morria. Hoje vivemos com o sistema imune, o endócrino e o nervoso trabalhando diariamente em condições nos quais eles deveriam trabalhar apenas durante alguns minutos”, afirma Rizzo. “O resultado é o excesso de inflamação que, no caso do sistema nervoso, leva ao Alzheimer, à depressão e a outras doenças.”

INFLAMAÇÃO VITAL

A inflamação deve ser compreendida como uma espada dupla, explica a médica Ana Caetano Faria, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Ela é necessária à vida, mas quando surge um distúrbio é importante que existam mecanismos e mediadores anti-inflamatórios no organismo, capazes de controlar a magnitude da inflamação”, diz. “As pessoas adoecem quando o corpo perde essa regulação.” 

A covid-19 serve de exemplo. Quando o organismo reage à infecção e cria fenômenos homeostáticos rápidos, a pessoa pode ficar assintomática. Em casos assim, a resposta é tão eficaz que ele alcança o equilíbrio, sem sofrer uma inflamação descontrolada. 

Outros pacientes não têm a mesma sorte. Se houver resposta inflamatória muito exacerbada no pulmão, ela pode destruir o órgão. “Mesmo quando lidamos com um agente infeccioso que precisa ser eliminado, o organismo deve ser capaz de regular a magnitude da inflamação para não causar dano tecidual”, afirma Ana. Precisamos da inflamação para viver, mas ela precisa ocorrer no grau certo, na hora exata. Esse é o desafio cotidiano do corpo que habitamos.

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Abuso de remédios para inflamações traz riscos à saúde, revelam estudos

Medicamentos são importantes nos casos com recomendação médica, mas uso inadequado pode causar úlceras e até reduzir benefícios do exercício físico

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 05h00

Novos estudos que ampliam o conhecimento sobre a importância da inflamação na defesa do organismo, no reparo de tecidos, no funcionamento do cérebro e em muitos outros processos vitais, como o Estadão mostrou no sábado, também despertam a discussão sobre os riscos do consumo abusivo de medicamentos.

“O uso excessivo de anti-inflamatórios pode ter duas consequências negativas. Além de perturbar a homeostase (a manutenção do equilíbrio fisiológico do organismo), pode comprometer a defesa contra infecções e até contra alguns tipos de tumor”, disse o imunologista Ruslan Medzhitov, professor da Universidade Yale (EUA), ao Estadão. Em uma edição especial a respeito do papel da inflamação, publicada recentemente pela revista Science, ele propõe uma visão expandida sobre o tema.

Segundo Medzhitov, estudos recentes têm demonstrado que anti-inflamatórios não esteroides (como o ácido acetilsalicílico e o ibuprofeno) podem causar úlceras no intestino e até reduzir o efeito positivo dos exercícios físicos, se usados em altas doses e por longos períodos. A automedicação, prática comum no Brasil, complica o problema.

Em janeiro deste ano, 26 milhões de caixinhas de anti-inflamatórios foram vendidas em farmácias por todo o País. Se cada consumidor tivesse levado para casa só uma caixinha, a quantidade vendida neste mês seria suficiente para alcançar 12% da população brasileira. Entre 2020 e 2021, a venda subiu 3%: de 217 milhões para 224 milhões de caixas.

O levantamento feito a pedido do Estadão pela consultoria IQVIA, empresa que monitora informações do setor farmacêutico, considera só a categoria de anti-inflamatórios usados para tratar o sistema músculo-esquelético, como dores na perna, braço, ombro, quadril e coluna, entre outros.

Dores desse tipo são bem conhecidas no mundo da dança. A paulistana Júlia Pontes dos Santos, de 19 anos, formada em balé clássico profissional, calçou as primeiras sapatilhas aos dois anos de idade e passou a infância se exercitando na barra e ensaiando coreografia por longas horas.

Ela tinha menos de 12 anos quando sofreu uma lesão na coluna. “Tomava anti-inflamatórios, relaxantes musculares e opióides para evitar a fisioterapia e continuar dançando”, conta Júlia. “Às vezes, ficava travada na cama por dois dias. Comecei a usar esses remédios feito água. Minha mãe escondia as caixas, mas eu tomava sem que ela soubesse.”

Como tantas garotas que almejam passar pela difícil seleção das grandes companhias de dança, Júlia queria ser descoberta em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, e brilhar no exterior. Mais madura, faz faculdade de Fisioterapia e segue praticando quatro horas de dança (balé clássico, heels dance e dança do ventre) por dia, três vezes por semana. Júlia pretende trabalhar com preparação física para bailarinos. “Não abri mão do meu sonho, mas abri minha cabeça.”

Para trilhar esse novo caminho, ela se inspira no exemplo de Tamires Reis, personal trainer especializada em treinamento físico para bailarinos. Formada em Educação Física pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e bailarina profissional, ela criou um programa online de prevenção de lesões. Dá consultoria para grandes companhias de dança e conhece bem a cultura do uso indevido de remédios.

“Bailarinos acham que é normal sentir dor e tomar anti-inflamatórios por conta própria. Um indica os remédios ao outro. Eu mesma vivi isso e cometi esse erro”, diz. “Enquanto pensam que é fraqueza demonstrar que não estão bem, muito professores insistem em achar que longas horas de dança são suficientes para preparar o corpo para a execução dos movimentos”, diz Tamires. “Não é verdade. Bailarinos precisam de um trabalho muscular para prevenir lesões, assim como jogadores de futebol e outros atletas”, acrescenta.

Ana Caetano Faria, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, salienta que anti-inflamatórios são extremamente importantes quando usados no momento certo. Nas situações em que a pessoa não consegue lidar com uma infecção ou inflamação exacerbada, em doença autoimune ou alérgica. “A pessoa precisa daquele medicamento, mas isso tem de ser feito com muito critério para não inibir outras substâncias benéficas”, diz.

Para o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, o abuso de anti-inflamatórios prejudica o equilíbrio homeostático. “São uma das classes de drogas mais consumidas no Brasil e no mundo, mas cerca de 10% das pessoas têm reações adversas”, afirma.

Ele explica que, em grande parte dos casos, isso corre porque nossos receptores entendem que o remédio é uma tentativa de bloquear um processo natural. “É claro que anti-inflamatórios são importantes nos casos em que, por exemplo, a pessoa tem artrite reumatoide que precisa ser controlada, mas não são drogas para uso sem prescrição médica, como muitos fazem.”

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'O intestino é uma máquina computacional sofisticada'

Muito mais que um tubo processador de comida, o órgão tem um impacto poderoso na fisiologia e no comportamento, diz o professor da Universidade Yale que estuda o papel da inflamação na saúde e na doença

Entrevista com

Ruslan Medzhitov

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 10h00

O imunologista Ruslan Medzhitov, professor da Universidade Yale, é um dos mais respeitados estudiosos do papel da inflamação na manutenção do equilíbrio fisiológico do organismo (a chamada homeostase) e também dos processos inflamatórios que contribuem para o desenvolvimento da maior parte das doenças – do câncer à depressão; dos problemas cardiovasculares às doenças intestinais e muitas outras.

Um dos descobridores dos receptores Toll-Like (moléculas presentes nas células de defesa responsáveis pela geração de sinais que levam à produção de citocinas pró-inflamatórias), Medzhitov é frequentemente citado por imunologistas como merecedor de um Prêmio Nobel

Em uma edição especial publicada recentemente pela revista Science, ele defendeu uma visão expandida da inflamação na saúde e na doença, tema da série de três reportagens que o Estadão publicou no sábado (5), no domingo (6) e nesta quarta (9). Em entrevista ao jornal, Medzhitov diz que o intestino é muito mais que um tubo processador de comida e tem um impacto poderoso na fisiologia e no comportamento. 

Novos estudos apontam que a inflamação está associada a quase todas as doenças humanas e, também, na manutenção do equilíbrio do organismo (homeostase). De que forma essas evidências podem contribuir para a melhoria da atenção à saúde? 

Como a inflamação está associada a quase todas as doenças, é importante descobrir a causa dela em diferentes situações. Isso permitirá desenvolver terapias que previnem a inflamação indesejada que perpetua e amplifica processos patológicos. 

O senhor propõe uma visão expandida sobre o papel da inflamação no organismo. Isso pode levar à criação de medicamentos melhores? 

A maioria dos métodos para tratar as doenças inflamatórias é baseada no bloqueio da produção de sinais inflamatórios. A alternativa que sugiro é bloquear a resposta dos tecidos e órgãos-alvo aos sinais inflamatórios. Uma analogia: o que fazer quando a música alta perturba? Você pode diminuir o volume ou colocar tampões no ouvido e não se incomodar com o som. Baixar o volume é como suprimir a inflamação, um método que nem sempre funciona. Colocar tampões no ouvido é como reduzir a resposta a sinais inflamatórios. Esse método ainda não foi testado, mas acho que seria uma direção valiosa para futuras pesquisas.    

De que forma o uso excessivo de remédios anti-inflamatórios pode prejudicar o equilíbrio fisiológico do organismo? 

O uso excessivo de anti-inflamatórios pode ter duas consequências negativas. Em primeiro lugar, pode comprometer a defesa contra infecções (e alguns tipos de tumor). Em segundo lugar, isso pode perturbar a homeostase em alguns casos. Um exemplo: estudos recentes têm demonstrado que anti-inflamatórios não-esteroides (como o ácido acetilsalicílico e o ibuprofeno) podem reduzir o efeito positivo do exercício e causar úlceras no intestino, se usados em altas doses e por longos períodos.

Como processos inflamatórios ocorridos no intestino podem impactar o cérebro e contribuir para o desenvolvimento de depressão, doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e outras?

Isso ainda não é completamente compreendido, mas tanto a depressão quanto o Alzheimer são doenças causadas ou promovidas pela inflamação. A inflamação causa muitas formas de depressão. Provavelmente isso é parte da resposta fisiológica normal ao adoecimento. Quando estamos doentes por causa de alguma infecção, a reação normal do corpo é ficar quieto na cama, diminuir o apetite, evitar luzes e sons altos etc. 

Sabemos por que algumas dessas reações acontecem, mas ainda não compreendemos todas elas. A depressão é uma resposta de proteção do organismo quando ele está em risco. Provavelmente porque reduz a exploração do ambiente, mas ela se torna patológica quando é excessiva. 

No caso do Alzheimer, é diferente. O que acontece ainda não foi totalmente esclarecido. Se a doença neurodegenerativa é causada por infecção ou por micróbios intestinais, isso não está bem estabelecido. É muito difícil estudar o Alzheimer porque ele leva décadas para se desenvolver. 

O intestino costuma ser chamado de segundo cérebro. Dizer isso ainda é correto, à luz das novas evidências sobre a sinalização da inflamação entre os dois órgãos?

O intestino tem seu próprio sistema nervoso (sistema nervoso entérico) que, às vezes, é chamado de segundo cérebro. É correto pensar sobre ele dessa forma. O intestino é um órgão subavaliado. As pessoas acham que ele é apenas um tubo processador de comida. Na verdade, ele é uma máquina computacional sofisticada que avalia constantemente o que comemos e o que precisa ser feito. 

Ele tem um impacto poderoso em nossa fisiologia e no nosso comportamento. Da mesma forma, está envolvido na inflamação direcionada contra micróbios e na inflamação direcionada a determinados componentes dos alimentos. Quando desregulada, a primeira pode levar às doenças inflamatórias intestinais e a segunda à alergia alimentar. 

Quais são as lacunas fundamentais no conhecimento sobre a inflamação? Qual pergunta o senhor gostaria de ver respondida?

Acho que a lacuna fundamental é não conhecermos todas as formas pelas quais a inflamação pode ser induzida. Isso pode acontecer de diversas maneiras: quando não dormimos o suficiente, quando viajamos a um país estrangeiro e comemos alimentos muito diferentes, quando estamos de mau humor etc. Gostaria de descobrir quais são os temas comuns aqui e quais são os mecanismos moleculares que causam inflamação sob essas diversas condições.​

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