Hemobrás
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Estoque de hemoderivados em SP dura até 20 dias

Substâncias são essenciais para tratamento de hemofílicos; secretaria confirma que repasse do ministério foi feito com atraso

Paula Félix e Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

14 Abril 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Pacientes com hemofilia estão enfrentando desde novembro racionamento de produtos essenciais para a sobrevivência, os hemoderivados em oito Estados. Em São Paulo, no último dia 1º, o estoque para fator IX era suficiente para 20 dias. O de fator VIII, para 15 dias - metade do que é recomendado. 

De acordo com informações obtidas pelo Estado no Ministério da Saúde, a média de consumo mensal de São Paulo é de 1,8 milhão de unidades internacionais (UI) de fator IX por mês. Em março, o Estado recebeu 1,3 milhão de UIs e, em abril, 531 mil UI. Com fator VIII, o problema é ainda mais grave. A média de consumo do Estado é de 5 milhões de UIs mensais. Em março, o ministério enviou para a rede paulista 3 milhões e, em abril, 442 mil UIs. A redução também ocorreu com o fator recombinante. A media mensal é de 7,5 milhões. Em março, foram entregues 7 milhões de UIs e, em abril, 5,8 milhões de Uis.

Médica hematologista do Serviço de Hematologia do Hospital das Clínicas, Paula Villaça diz que os hemoderivados são essenciais para os hemofílicos. "Há cerca de 11 mil hemofílicos em todo o País. Pacientes que não têm o fator de coagulação podem ter sangramentos espontaneamente. É extremamente importante que eles recebam o tratamento adequado e esse tratamento preventivo também diminui riscos de sangramentos mais graves, inclusive na cabeça."

Paula, que também é integrante da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), diz que o número de doses varia de acordo com o paciente, mas que elas podem ser administradas duas ou três vezes por semana. A hematologista afirma que a falta do medicamento seria um retrocesso. "O Brasil já atingiu um ponto de reconhecimento internacional. O paciente tem acesso ao tratamento que é recomendado em todo o mundo e não pode perder nada do que foi conquistado." 

Presidente do Centro dos Hemofílicos do Estado de São Paulo, Maria Cecília Magalhães Pinto diz que não sentiu o impacto da redução de fornecimento dos hemoderivados em São Paulo. "Não estou recebendo queixa de pacientes. Mas não pode faltar. Sem o fator, o paciente não sobrevive. Com o tratamento adequado, ele vive e tem qualidade de vida."

Maria Cecília diz que a redução na distribuição não pode ser uma realidade nos dias atuais. "A gente quer acompanhar os avanços da medicina. Viver com menos quantitativo não passa na minha cabeça. Ter fator em quantidade suficiente para que o paciente tenha qualidade de vida e seja um cidadão pleno na sociedade é uma conquista que veio como resultado de luta de décadas. Essa discussão já está superada."

Em tratamento com hemoderivados há um ano, um hemofílico de 30 anos que preferiu não se identificar diz que sua vida mudou completamente desde que começou o tratamento. "Pela primeira vez na vida, tenho a sensação de que não sou hemofílico. Ao longo da minha infância, joguei bola e me machuquei muito. Tenho sequelas no tornozelo, que já tem artrose." Sangramentos nas articulações são comuns em hemofílicos.

Ele diz que não deixou de receber o produto, que utiliza para tratamento de hemofilia B, mas que teme ficar sem o hemoderivado. "Isso me deixa preocupado. Viver sem o fator é quase uma sentença de morte, porque não tem outra alternativa."

Atraso. A Secretaria de Estado da Saúde confirmou que o repasse do Ministério da Saúde dos hemoderivados foi feito "com atraso e em quantidades parciais nos últimos meses". Mas afirmou que as unidades que oferecem tratamento para os hemofílicos não ficaram desabastecidas. "Porém, com as irregularidades de abastecimento no Estado, os estoques foram utilizados de modo emergencial."

A pasta informou que recebeu quantidade suficiente para atender o serviço durante 30 dias, pois o recebimento do mês de abril foi normalizado e destacou que o plano de atendimento dos pacientes "depende da regularidade do envio mensal e da manutenção da quantidade dos três fatores", referindo-se ao fator IX e aos fatores VIII plasmático e VIII recombinante. A secretaria disse ainda que a maior demanda é pelo fator VIII plasmático. 

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