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Bruno Kelly/ Reuters
Bruno Kelly/ Reuters

Estoque de oxigênio acaba em hospitais de Manaus e pacientes morrem asfixiados

Sem insumo, equipes tiveram que ventilar manualmente pacientes internados na UTI; secretário da saúde fala em colapso do sistema de fornecimento

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 15h10
Atualizado 20 de janeiro de 2021 | 13h27

SÃO PAULO - Com a nova explosão de casos de covid no Amazonas, o estoque de oxigênio acabou em vários hospitais de Manaus nesta quinta-feira, 14, levando pacientes internados à morte por asfixia, segundo relatos de médicos que trabalham na capital amazonense. O governo federal anunciou que vai transferir pacientes para outros Estados e pediu ajuda aos Estados Unidos com o fornecimento de um avião adequado para levar cilindros a Manaus.

O Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), ligado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ficou cerca de quatro horas sem o insumo na manhã desta quinta. De acordo com um profissional ouvido pelo Estadão e que não quis se identificar, o oxigênio acabou na madrugada de quinta, gerando desespero nas equipes de saúde. O hospital teria recebido cilindros às 12h capazes de oferecer ajuda a pacientes por apenas duas horas. 

"Colegas perderam pacientes na UTI por causa da falta de oxigênio. Eles ainda tentaram ambuzar (ventilar manualmente), mas foi só para tentar até o último recurso mesmo, porque é inviável manter isso por muito tempo. Cansa muito, tem que revezar os profissionais. Chamaram residentes para ajudar na ventilação manual. A vontade que dá é de chorar o tempo inteiro. Você vê o paciente morrendo na sua frente e não pode fazer nada. É como se ver numa guerra e não ter armas para lutar", disse outra médica da unidade.

Diversos relatos que circulam nas redes sociais dão conta de que a situação é crítica e centenas de pessoas internadas correm risco de morrer. “O Getúlio Vargas está sem oxigênio e todos os pacientes estão sendo ambuzados (ambuzar é a expressão usada para o procedimento por meio do qual um balão de oxigênio é bombeado com as mãos, exigindo revezamento constante por ser exaustivo ). Se alguém puder ajudar para fazer o revezamento para ambuzar no CTI no quinto andar, por favor, estamos necessitando”, afirma um médico, em um alerta que circulou pelas redes sociais e confirmado ao Estadão por profissionais que trabalham no hospital.

Com a situação agravada, o presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Mário Viana, fez um apelo para que o governo federal intervenha na Saúde do Estado. “Estamos perdendo vidas aqui. Há algumas semanas a gente já vinha citando que era um cenário de guerra e que o caos iria se instalar. É o que eu vejo hoje. Apesar dos esforços, a situação, no meu entendimento, é crítica. É preciso ter um comando unificado, um comitê de crise instalado em vários setores para poder dar as soluções necessárias para essa situação de guerra que aqui vivemos”, afirmou.

De acordo com relatos de outros profissionais de saúde da cidade postados nas redes sociais, a maioria dos hospitais sofre com o mesmo problema. Há registro de falta do insumo nos hospitais Fundação de Medicina Tropical e nos serviços de pronto-atendimento (SPAs) da capital amazonense.

O procurador de Justiça Públio Caio Dessa Cyrino, que tinha um filho internado no Hospital Fundação de Medicina Tropical, disse ao Estadão que pela manhã não havia oxigênio para nenhum dos pacientes. “Minha nora me ligou às 5h, quando ela foi lá visitá-lo, avisando que tinha acabado. Ele estava no terceiro dia de UTI e evoluindo bem. Por sorte eu tinha uma ‘bala’ de oxigênio em casa e corri para o hospital para levar para ele. Quando cheguei com a bala na mão, vi o olhar de desespero dos médicos, servidores. Eles estavam em choque, sem poder fazer nada.”

Cyrino conta que o filho, de 36 anos, começou a se sentir mal há quase duas semanas, mas logo no início não achou vaga em hospital e ficou em home care, por isso ele tinha oxigênio. “Isso aqui é uma praça de guerra. E esse governo irresponsável não se planejou para a guerra, apesar de saber que ela iria ocorrer”, disse. Ele conseguiu contratar uma UTI aérea e ia transferir o filho para São Paulo agora à tarde. “Eu consegui, mas quantas centenas não têm como fazer isso e podem morrer hoje?”

Colapso e escassez de insumos

Mesmo as unidades que ainda não chegaram ao fim do estoque registram escassez do insumo, como é o caso do Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. Médico de urgência e emergência na unidade, Diemerson Silva diz que a demanda por oxigênio se intensificou com o aumento de internações pela covid-19 nos últimos sete dias.

“O hospital é abastecido de forma diária, de acordo com a necessidade, mas na última semana houve uma maior necessidade e, com essa dimensão, tivemos que fazer o uso racional do oxigênio”, explica. “O que tem acontecido é que há aumento da demanda de consumo e, infelizmente, uma diminuição da oferta.”

Silva conta que o hospital tem, nesta quinta-feira, ao menos cem pacientes, entre enfermaria e unidade de tratamento intensivo, com necessidade de oxigenação. “No momento, não temos pacientes sem oxigênio, mas temos uma oferta que não vai dar para suprir todos. Chegam muitos pacientes a cada hora e não sabemos até quando vamos conseguir ofertar para essa quantidade de pessoas.” 

Segundo Marcellus Campêllo, secretário Estadual da Saúde do Amazonas, as empresas fornecedoras de oxigênio entraram em colapso por não conseguir atender à demanda pelo insumo, que dobrou em relação ao primeiro pico da pandemia, registrado entre abril e maio. "No 1º pico, o consumo máximo foi de 30 mil metros cúbicos de oxigênio e, neste momento, nós estamos com consumo acima de 70 mil cúbicos. O número mais que dobrou em relação ao pico do ano passado. Ontem à noite fomos informados do colapso do plano logístico em relação a algumas entregas que estariam abastecendo  a cidade de Manaus, o que causará uma interrupção da programação por algumas horas", declarou.

Corrida por oxigênio

No desespero pela falta de atendimento adequado, muitas pessoas estão tentando comprar oxigênio por conta própria para garantir a vida de familiares com sintomas graves de covid-19. O professor de Educação Física Walhederson Brandão Barbosa, 38, é um deles, que está correndo contra o tempo para não deixar sua mãe sem o insumo. “Já recarreguei o cilindro três vezes e agora estou indo encher um maior; a família toda está se mobilizada para mantê-la com oxigênio”, conta.

Barbosa relata que sua mãe está internada com sintomas de covid-19 na Unidade de Saúde de Pronto Atendimento José Jesus Lins, no bairro Redenção, zona Centro-Oeste de Manaus. “Às 8h, soubemos que faltou oxigênio. Lá dentro eu vi mais de cinquenta pacientes entubados; minha mãe está com boa saturação e está na sala de inalação improvisada no local, mas ainda assim precisa de oxigênio porque está com cateter nasal. Nós estamos comprando agora um cilindro de dez litros e pagando R$ 1 mil”.

Transferência de pacientes e ajuda militar

Com o colapso da rede de atendimento, o Amazonas vai transferir pacientes para outros Estados. A ideia é que ao menos 750 pessoas recebam tratamento em outras cidades, começando com 235 pacientes de 'casos moderados' (aqueles que precisam de oxigênio, mas podem ser deslocados ) que serão enviados a hospitais do Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Goiás e Distrito Federal. 

O governo federal irá apoiar a transferência dos pacientes, em aviões militares. O secretário nacional de Atenção Especializada em Saúde, Franco Duarte, disse que serão transferidos pacientes com quadros "moderados", que exigem uso de oxigênio, mas têm ainda condições de serem transportados.

O vice-presidente Hamilton Mourão informou na tarde desta quinta que aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) transportarão a Manaus mais de oito toneladas de material hospitalar, entre camas, cilindros de oxigênio, macas e barracas. O Brasil também pediu à Força Aérea dos EUA que auxilie no transporte de cilindros de oxigênio para a cidade

Enterros quintuplicam em um mês

O número de sepultamentos em Manaus quintuplicou em um mês, segundo dados divulgados pela Prefeitura. Na quarta-feira, 13, 198 enterros ocorreram na capital, dos quais 87 tinham confirmação para covid-19 e sete eram de casos suspeitos. Em 13 de dezembro foram 36 óbitos, seis com resultado positivo para o vírus. Isto representa um aumento de 450%. 

O crescimento também se repete entre as mortes em domicílio, que quadruplicaram. Em 13 de dezembro, foram registradas 6 pela gestão municipal, número que subiu para 26 em 13 de janeiro.

Com o aumento de sepultamentos, duas câmaras frigoríficas foram instaladas pela gestão municipal e começaram a funcionar nesta quinta-feira no cemitério público Nossa Senhora Aparecida. Elas são destinadas ao armazenamento provisório de até 60 caixões. /FABIANA CAMBRICOLI, GIOVANA GIRARDI, LUIZ CARLOS PAVÃO, JOÃO KER, MATEUS VARGAS, PRISCILA MENGUE E ALISSON CASTRO

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