HELSON GOMES
HELSON GOMES

'Estou negativa para covid, mas muito positiva pra 2021'

Em depoimento exclusivo, a empresária Rosangela Lyra, presidente da Associação Comercial dos Jardins e do Itaim, comenta a sua experiência com a covid-19: do diagnóstico à superação

Marcelo Lima, O Estado de São Paulo

31 de dezembro de 2020 | 14h35

A empresária Rosangela Lyra vive uma rotina para lá de agitada. Ex CEO da grife francesa Dior para a América Latina, ela hoje preside a Associação Comercial dos Jardins e do Itaim, é fundadora do Instituto Politica Viva e ainda atua no Programa Longevxs, de desenvolvimento pessoal, criado por ela com base em valores como longevidade, felicidade e positividade.

No último dia 19, incentivada pela filha, ela resolveu se submeter ao teste da covid-19 e foi surpreendida com uma notícia absolutamente inesperada: testou positivo. Rosangela atravessou todo o ciclo da doença, está clinicamente curada mas emergiu da experiência firmemente determinada a possibilitar que as pessoas falem de suas experiências com a covid-19. “Oferecer ajuda a outros que passam pela mesma dificuldade é mais do que empatia, é compaixão”, destaca ela, que, que criou um grupo no WhatsApp, os Superviventes, (011) 93489-1055, especialmente para conectar os interessados. Aqui a íntegra do seu depoimento ao Estadão:

“Eram 3:30hs da madrugada de domingo quando li na tela do meu celular POSITIVO ! Não era possível! A palavra positivo sempre me evocou positividade, positivismo, etimologia e declinações boas. Como positivo se tornara algo ruim?

Tinha ido até o Terminal 3 de Cumbica para fazer o exame de PCR – o cotonete de Itú nas narinas e na garganta –, pois o resultado sairia, rapidamente, em até quatro horas, quando nos hospitais e laboratórios estavam levando de três a quatro dias. Achei que iria encontrar um aeroporto fantasma, vazio. Para minha surpresa estava lotado, filas, auto falantes, às vésperas da época de Natal de um ano qualquer.

O que aconteceu comigo? Fiquei nove meses em casa e agora pari o vírus? Onde foi que o peguei? Se não fui a restaurantes, a nenhum encontro, minhas saídas esporádicas se restringiam a passear com os cachorros na rua e no parque perto de casa? Aí veio uma imagem, como um flash…vendi minha casa no interior e fui fazer a mudança.

E a nova proprietária, na ânsia arrebatadora de se mudar rapidamente, me atropelou e colocou 20 pessoas para iniciar a reforma enquanto eu ainda estava lá. Não era o combinado, mas fui forçada a ceder e conviver com muitas pessoas, por dois dias inteiros.Pode ter sido alí, mas acho que nunca saberei o momento exato e a forma do contágio. Se pelo ar ou superfície de contato. Se entrou pela narina, pela boca ou pela mucosa dos olhos. Mas entrou e se apossou.

Os sintomas? Há uma semana um leve, bem leve, resfriado, me acompanhava, um espirro ali, uma coriza aqui. Busquei os possíveis motivos para aquele resfriado e lembrei que tinha tomado sorvete, vento na varanda, cabelo molhado. Enfim as causas eram palpáveis e afinal escutamos tanto os médicos, em tom crítico, nos alertarem que nem tudo é covid, que as pessoas se resfriam também “não pense que se espirrou é o vírus”. 

Então tá. Só fui fazer o exame porque minha filha insistiu. Como eu poderia pegar covid se estava isolada em casa? Fechei e abri os exames e o resultado continuava lá, imutável: POSITIVO. E agora o que fazer ? Foi uma longa, aterrorizante e solitária madrugada.

A fé? Ah, ela estava dormindo. O medo tomou conta e a cabeça comandava o espetáculo do corpo. O resfriado, até então inócuo, tomou uma proporção gigante: comecei a sentir falta de ar, perdi o olfato e o paladar e só vinha à mente as pessoas nos hospitais, entubadas e falecidas. Pensei em meus filhos, meus netos, minha mãe, meu legado. Aquela retrospectiva que vem num lampejo, na iminência de um desastre, e que durou uma eterna madrugada.

Abro um parênteses aqui : meu marido, um dos primeiros voluntários da vacina de Oxford, fez o teste comigo e deu negativo. Ele sabia, por exames anteriores, que não estava imunizado. Ou era da turma do placebo ou a vacina não havia funcionado pra ele. E, três dias depois, ao repetir o exame, o POSITIVO dele apareceu também.

Esperei o amanhecer chegar para ligar para o médico de minha confiança, que também teve covid. Ele me encaminhou ao hospital para os exames de sangue e tomografia e como não mostraram alterações fui mandada de volta pra casa. Recomendação: medir a oxigenação e a temperatura três vezes ao dia, isolamento, alimentar-se bem, descansar, tomar muito líquido mas nenhum remédio.

Soube que os piores dias são do sétimo ao décimo, quando pode ocorrer a tempestade de citocina. Eu estava no sétimo dia, no olho do furacão. Procurei minha amiga médica integrativa e homeopata que me medicou para fortalecer a imunidade, combater os sintomas da gripe e bloquear possíveis efeitos colaterais da covid.

Meus três dias não foram melhores do que as noites. Isolada no quarto, a comida era deixada no chão do lado de fora. Depois de comer, lavar e higienizar tudo com álcool, eu devolvia ao outro lado da porta. Me senti profundamente só e, necessariamente, segregada.

O que me sustentou e me ajudou a ficar de pé quando meu mundo caiu – bombardeado pelo medo e pela solidão – foi falar com pessoas que sobreviveram à covid. Lembrar que a maioria é curada.São os Superviventes!

Isso fez toda a diferença e por isso me senti motivada a criar grupos onde as pessoas possam ouvir relatos de outras que passaram por situação semelhante. Um tipo de irmandade para tirar dúvidas de quem viveu a Covid. Além de nos dar segurança, como a cabeça está no comando, acredito que esse contato pode aumentar a imunidade e a cura vem mais rápido.

Por isso, convido a todos que receberem o resultado Positivo a se juntarem à gente. Passei pelo ciclo de 14 dias, fiz os novos testes e estou imunizada. Não sei por quanto tempo, nem se estou imune a essa nova cepa, a mutação do vírus.Preferiria a vacina. Manterei os cuidados como o uso da máscara, lavar bem as mãos, usar álcool em gel e aguardarei a vacinação. Mesmo sabendo que, pela idade na casa dos 50 e sem comorbidades, estou no fim da fila.

Hoje ao sair pela primeira vez com os cachorros encontrei muitas pessoas sem máscara e apelei a todas para que não deixassem de usá-la. Me emocionei ao relatar o quão difícil é passar pela covid mesmo sem maiores complicações. Estou negativa para covid, mas muito Positiva pra 2021".

 

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