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Estratégia de vacinação do Brasil apostou no nacionalismo - e não deu certo

Governo apostou em produção no País pelo Butantan e Fiocruz, mas entrega de imunizantes segue lenta; é difícil saber quantas vidas seriam poupadas ao evitar essa postura

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 05h00

O Brasil se mostrou incapaz de executar um distanciamento social rígido e longo o suficiente para controlar o espalhamento do coronavírus. Temos relaxado as medidas assim que as mortes se estabilizam. 

Nessas condições, a única medida que pode controlar a pandemia, antes que todos sejam infectados, é a vacinação. O consenso nos países que estão controlando a pandemia é de que 70% a 85% da população precisa estar imunizada, pela vacina ou pela infecção, para conter a pandemia. Esses números podem mudar, dependendo das novas variantes. 

Em meados de 2020, o governo definiu sua estratégia inicial. Recusou-se a comprar doses prontas de vacina e apostou na produção local pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan. Como não estavam desenvolvendo as próprias vacinas, estes dois fizeram parcerias com produtores estrangeiros: o Butantan com a Sinovac, chinesa, e a Fiocruz com a AstraZeneca. 

Esses contratos de transferência de tecnologia preveem duas etapas. Nos primeiros seis meses de 2021, os institutos receberiam a vacina praticamente pronta em grandes lotes e fariam o envase no Brasil. 

Durante esse período, os dois institutos construiriam fábricas para produzir localmente a vacina (o chamado IFA), de modo que, a partir do segundo semestre, a produção fosse totalmente nacional. Para isso ambas receberam financiamento do governo e doações para construir as fábricas. Se desse certo, o Brasil teria 400 milhões de doses até o fim de 2021, suficientes para vacinar toda a população.

Infelizmente o plano desandou. Estamos no início de maio e apenas 64,5 milhões de doses foram entregues – 32,3% do previsto para o primeiro semestre. Já a importação de IFA tem sofrido atrasos e cortes – as fabricantes não têm cumprido os prazos. 

Muito provavelmente a entrega do IFA correspondente aos primeiros 200 milhões de doses só chegará no segundo semestre. É isso que explica nossa vacinação a conta gotas. Além disso, as fábricas para produção nacional estão atrasadas: a Fiocruz promete agora que a sua estará em operação em setembro, mas sequer conseguiu fechar o contrato de transferência de tecnologia. O Butantan já anunciou que a sua só ficará pronta no início de 2022. 

Para piorar a situação, as duas vacinas em que o Brasil apostou são provavelmente as de menor eficácia. Hoje os cientistas acreditam que as melhores vacinas são as baseadas em mRNA (Pfizer e Moderna). A da AstraZeneca, apesar de aprovada na Europa e no Brasil, ainda não foi aprovada nos EUA. E a Coronavac ainda é pouco conhecida e não se sabe se ela será aprovada pela Organização Mundial da Saúde. 

Para amenizar o problema, o Instituto Butantan resolveu desenvolver em parceria com os americanos a Butanvac, cujos testes em humanos (Fases 1, 2 e 3) sequer foram aprovados pela Anvisa. E, portanto, nada se sabe sobre sua eficácia.

Agora, com a chegada do primeiro milhão de doses da vacina da Pfizer, o Brasil está diversificando suas apostas, o que deveria ter feito um ano atrás. Se a Pfizer entregar de fato 100 milhões de doses até setembro, ela pode vir a ser vacina com mais doses aplicadas no País – já que é pouco provável que o Butantan e a Fiocruz entreguem esse número de doses até lá. 

A partir de agora, a estratégia mais lógica aqui é garantir que Butantan e Fiocruz consigam produzir o IFA o mais rápido possível, e combinar as doses desses programas com as vacinas importadas, de preferência as de tecnologia do mRNA (Pfizer e Moderna) e as que necessitam de somente uma dose (Jansen). Essas vacinas provavelmente vão ser aprovadas para crianças nos próximos meses, o que dificilmente ocorrerá com a Coronavax. Se o governo tiver sucesso nessas negociações, pode ser que consiga aplicar as 400 milhões de doses até o fim do ano. 

Mas uma coisa é certa, chegaremos no fim do ano com mais de 600 mil mortos ao evitarmos o distanciamento social rigoroso. Quantos dessas mortes poderiam ter sido evitadas se a estratégia de vacinação tivesse rejeitado o nacionalismo exacerbado é difícil de saber, mas serão centenas de milhares.

* É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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