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Estresse em casa

Somente mães e pais que estão com elas sabem o que isso significa: oscilações de humor, teimosias bobas, resistência a muitas coisas que não existiam, dias bons, dias não tão bons e dias ruins

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 06h41

As crianças estão em casa há dois meses! Somente mães e pais que estão com elas sabem o que isso significa: oscilações de humor, teimosias bobas, resistência a muitas coisas que não existiam, dias bons, dias não tão bons e dias ruins, tédio e tédio choroso, manhas, birras e tudo o mais que quem tem filhos conhece muito bem.

Pudera! Elas perderam o que faziam de melhor: as brincadeiras com os pares, motor de seu desenvolvimento e crescimento, e a convivência com outros adultos que não os pais para dar um suspiro – um respiro – do estilo deles de amar, de ficar bravo, de ter raiva, de cobrar. Cada um de nós faz isso de um jeito, e estar o tempo todo submetido a um ou dois desses estilos cansa a criançada.

Resultado? Trabalho dobrado para os pais e, como ainda está em vigor, na maioria das casas, a tradição de ser mais das mães esse trabalho com os filhos, são elas que mais têm arcado com todas essas tarefas. Ah! E não podemos esquecer de acrescentar o trabalho remunerado que, de casa, muitas mulheres precisam honrar. Não se trata de jornada dupla e sim tripla: casa, filhos e trabalho profissional!

Cuidar dos filhos, já estressados a esta altura, não é fácil. Temos muitas crianças com crises de choro, medo do adoecimento e até da morte dos pais, ansiosas e angustiadas, com pesadelos, e tudo isso exige muito das mães.

Pois bem: para cuidar de tantas situações, algumas bem delicadas, a mãe – e/ ou o pai – precisa também cuidar de si mesma, já que, quem não está bem está quase sempre à beira de um descontrole, mesmo que temporário. E esses descontroles não afetam apenas os filhos: afetam, principalmente, a própria pessoa que se descontrolou. Sim, porque, depois, vem a culpa, o arrependimento, a raiva de si mesmo.

Como mães e pais podem se proteger e ter o autocuidado em situação tão estressante? Primeiramente, tratando da própria saúde mental. Um passo importante é reconhecer medos, inseguranças, angústia e outras emoções. É normal ter medo, por exemplo, mas quando ele não é reconhecido pode se expressar de outras maneiras e prejudicar o cotidiano. O autoconhecimento facilita o conhecimento das diversas emoções que nos assaltam e, consequentemente, a maneira de lidar com elas. Sentimentos não reconhecidos podem se transformar em um estorvo.

É também o conhecimento de si que possibilita identificar quais atividades podem auxiliar a pessoa a se distrair, relaxar, a reduzir estresse e ansiedade. Pode ser música, dança, meditação, exercícios de respiração, de ioga, jogos de tabuleiros, filmes etc. Aliás, melhor do que brincar com os filhos, o que eles podem e devem fazer sozinhos, é reunir a família na prática de exercícios. Em geral, a garotada curte isso. O que não podemos é exigir deles comportamentos de adultos nessas atividades.

Mas como encontrar tempo para isso se as crianças exigem e demandam a mãe o tempo todo? Elas precisam ser ensinadas a respeitar o tempo de descanso e trabalho dela! Muitas não aprenderam porque era pequeno o tempo para estar com os filhos e, nesse período, os pais atendiam a todos os chamamentos. Agora é a hora desse aprendizado!

Para as crianças, vale muito colocar um indicador visual, pois torna concreta a ideia da espera, de ter de aguardar. Por exemplo: uma mãe colocou um cone de sinalização na porta do cômodo da casa em que trabalha sempre que precisa fazer reunião ou não pode ser interrompida. Para surpresa dela, funcionou!

Ter um tempo para se apaziguar é importante, e recolher as crianças para dormir antes dos pais possibilita isso. Pode dar trabalho? Pode, por alguns dias, no início. Depois, os pais poderão desfrutar momentos de quietude em casa. Cuidar de si é trabalhoso, sim, mas é o que permite que a saúde, física e mental, seja mantida. Por isso, força e coragem! 

*É PSICÓLOGA

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