REUTERS/Ricardo Moraes
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AstraZeneca: Estudo aponta benefícios de 3ª dose da vacina e de maior janela entre aplicações

Pesquisa desenvolvida pela Universidade de Oxford mostra que mais uma dose do imunizante leva a 'forte' reforço imunológico, o que pode ajudar contra variantes. Intervalo entre vacinas de até 45 semanas amplia níveis de anticorpos

João Ker, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2021 | 15h43
Atualizado 28 de junho de 2021 | 22h53

Uma terceira dose da vacina da AstraZeneca contra a covid-19 gera um "forte" reforço imunológico contra o coronavírus e suas novas variantes, de acordo com um estudo preliminar publicado nesta segunda-feira na revista médica The Lancet.

Os resultados iniciais desta pesquisa, publicados como pré-print (ou seja, ainda não sujeitos à revisão externa por outros especialistas), também refletem que o adiamento da segunda dose por mais semanas pode ser benéfico no caso da AstraZeneca.

O estudo, desenvolvido pela Universidade de Oxford, aponta que quando o intervalo entre as duas primeiras doses é de 45 semanas - cerca de dez meses - os níveis de anticorpos são até quatro vezes mais elevados do que com um período intermediário de 12 semanas.

"Esta é uma notícia tranquilizadora para os países com menor fornecimento de vacinas, que podem estar preocupados com atrasos no fornecimento de segundas doses para suas populações", disse Andrew Pollard, diretor de testes de vacinas da Oxford, em comunicado.

De acordo com a pesquisa, os níveis de anticorpos permanecem elevados em relação à linha de base por pelo menos um ano após uma única dose, representando uma resposta imunológica "robusta e duradoura", disse Mene Pangalos, diretor da AstraZeneca.

Além disso, o estudo observa que dar uma terceira dose pelo menos seis meses depois aumentaria os anticorpos seis vezes e ofereceria maior imunidade contra as variantes Alfa (detectada pela primeira vez no Reino Unido), Beta (na África do Sul) e Delta (na Índia).

No entanto, os autores do estudo observam que "ainda não se sabe se as injeções de reforço serão necessárias", seja em resposta à imunidade diminuída ou para fortalecer a proteção contra as variantes de risco.

Em relação aos efeitos adversos da vacina da AstraZeneca, resultados preliminares de pesquisas indicam que são "bem toleradas", com incidência menor após a segunda e terceira doses do que após a primeira. 

Cenário brasileiro

No Brasil, a vacina da AstraZeneca já representa 49,7% de todos os imunizantes distribuídos entre janeiro e junho pelo Ministério da Saúde. E, apesar de classificar os resultados da pesquisa de Oxford como "animadores", Monica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários de Vacinação da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), aponta que eles dificilmente devem ser levados em consideração para a imunização brasileira.

"Temos esse resultado positivo da pesquisa, mas tomarmos uma dose só tem prejuízo no grau de proteção. A quantidade de anticorpos é menor e, pelo que já sabemos, tanto a vacina da Pfizer quanto a da AstraZeneca têm uma eficácia bastante reduzida para a variante Delta", explica.

Monica ainda frisa que o cenário epidemiológico do Brasil é diferente do encontrado no Reino Unido por uma série de fatores que levam em consideração desde a diferença nas variantes que predominam aqui e lá, assim como a taxa de transmissibilidade do vírus, colpaso hospitalar, respeito às medidas não farmacológicas (uso de máscara, distanciamento...) e cobertura vacinal. "Não dá pra dizer que é seguro deixar a população brasileiro com uma dose só." 

Ela também adverte que ainda é cedo para o Brasil se preocupar com uma possível terceira dose de vacina, ou o "booster" (reforço imunológico). "Precisamos ver o que acontece na efetividade da vacina, na vida real, com a vacinação em massa da população. Não podemos nos basear em locais onde as taxas de transmissão e circulação de variantes são diferentes das nossas. A gente também não sabe o grau de proteção para a variante P.1, que predomina por aqui. Não dá para transpor tudo o que foi achado à nossa realidade", alerta.

O possível intervalo de 45 semanas, frisa, pode acarretar uma maior negligência da cobertura vacinal e empacar o volume de aplicação da segunda dose, que já tem enfrentado obstáculos no País durante as últimas semanas.

"Não podemos nos dar o luxo disso em uma pandemia com mais de meio milhão de mortos. Temos que lutar para o povo ir atrás da segunda dose no prazo de 90 dias. Precisamos da proteção máxima o quanto antes", aponta. "Agora, um aspecto positivo do estudo é que ele corrobora o que a gente vem dizendo: para quem perdeu o prazo da segunda dose não se preocupar e ir tomar mesmo assim."

Procurada, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), responsável pela produção da vacina da AstraZeneca no Brasil, afirmou não ter participado do estudo em questão. Já o Ministério da Saúde afirma que tem acompanhado os estudos de efetividade e segurança das vacinas contra a covid-19 e ainda "aguarda a conclusão das análises sobre os resultados obtidos" para submeter o assunto à discussão na Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis. /COM INFORMAÇÕES DA EFE

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