Estudo aponta consciência em paciente vegetativo

Técnicas avançadas de produção de imagens descobriram sinais surpreendentes de consciência num mulher em estado vegetativo, dizem cientistas britânicos em artigo publicado na edição desta semana da revista Science - descoberta que complica uma das principais questões éticas da Medicina. O trabalho certamente atrairá apelos de parentes desesperados para saber se seus entes queridos, cuja recuperação é considerada além da capacidade da Medicina, têm algum tipo de vida mental de que os médicos sequer suspeitam. Mas ainda é muito cedo para criar esperanças, dizem os cientistas. Não há como saber se a mulher pesquisada no estudo, de 23 anos e que sofreu dano cerebral há mais de um ano, irá se recuperar, e, portanto se a atividade cerebral registrada tem algum significado médico. Além disso, o ferimento específico estudado pode não ser típico dos demais pacientes em estado vegetativo. Não há, sequer, consenso sobre se a mulher realmente demonstrou consciência - ela parece ter conseguido obedecer, mentalmente, algumas ordens - ou se o cérebro apenas reagia automaticamente à fala dos cientistas. "Foi apenas uma paciente. O resultado de uma paciente não nos diz se outros pacientes terão resultados similares", disse o principal responsável pelo experimento, o médico Adrian Owen. A mulher estudada foi ferida num acidente de carro. Quando Owen fez imagens de seu cérebro, cinco meses depois, ela havia sido declarada em estado vegetativo - incapaz de reagir, fisicamente, a uma bateria de testes. Uma pequena porcentagem das pessoas se recupera após um curto período em estado vegetativo. Os que não melhoram após muito tempo são classificados em "estado vegetativo persistente", como Terri Schiavo, cujo caso desencadeou uma controvérsia política nos EUA sobre a questão de se tirar ou não esses pacientes dos aparelhos que os mantêm vivos. No caso de Schiavo, uma autópsia revelou dano cerebral irreversível. Segundo Owen e colegas, leituras do cérebro da mulher analisada no novo estudo, feitas com ressonância magnética funcional (fMRI), mostram que ela preserva alguma consciência, a despeito do estado vegetativo. Como eles sabem disso? Primeiro, checaram se ela conseguiria entender a fala. Quando lhe disseram "há café com leite e açúcar", as imagens de fMRI mostraram reação nas mesmas regiões do cérebro ativadas em voluntários saudáveis que ouviram a mesma frase. Depois, Owen pediu à mulher que realizasse uma tarefa mental - que se imaginasse jogando tênis e caminhando pela casa. Regiões do cérebro responsáveis pelo controle dos movimentos se ativaram no cérebro dela, da mesma forma que no de voluntários saudáveis usados na comparação. "Não há outra explicação para isso, além de que ela tinha decidido, intencionalmente, envolver-se no estudo e fazer o que pedíamos", disse Owen. Outros cientistas, porém, não vêem a questão tão fechada. Os resultados não são "totalmente convincentes de consciência", diz o neurocientista Lionel Naccache, do instituto Nacional de Ciências da França.

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