Estudo aponta para uma lei da evolução das palavras

Quanto mais usada, menos uma palavra muda, diz pesquisa que analisou 87 línguas indo-européias

Carlos Orsi, estadao.com.br

10 de outubro de 2007 | 14h08

Muitas coisas se desgastam com o uso, mas palavras definitivamente não estão na lista. Estudo envolvendo 87 línguas (incluindo português e "brasileiro"), com uma análise estatística cuidadosa do vocabulário de quatro - inglês, espanhol, russo e grego - mostra que, quanto mais uma palavra é usada, menos o som que a representa muda, numa escala de milhares de anos.   Publicado na edição desta semana da revista Nature, o trabalho analisa a "taxa de mutação" de palavras cognatas - as que tem som e significado similares em diferentes idiomas - em línguas descendentes do indo-europeu, linguagem pré-histórica que deu origem à maior parte das línguas faladas no Ocidente e a alguns idiomas orientais, como o sânscrito.   A conclusão, que os autores do artigo comparam a uma "lei", é de que quanto mais uma combinação de som e significado é usada atualmente, menos ela terá mudado na evolução do indo-europeu até a sua forma atual, processo que pode ter levado de 6.000 a 10.000 anos.   O estudo sugere ainda uma "meia vida" para palavras - o intervalo de tempo em que um som tem 50% de chance de ser substituído por outro, não relacionado, para expressar o mesmo significado: 750 anos para as palavras menos usadas, e até 10.000 anos para as mais. No gráfico de taxas de mutação, as palavras cognatas menos substituídas foram as que expressam números, como "dois" (média de 0,09 substituição em 10.000 anos) e pronomes, como "eu" (também 0,09).   Os autores do artigo, liderados por Mark Pagel, do Instituto Santa Fé (EUA) e da Universidade de Reading (Reino Unido) sugerem que as línguas têm um mecanismo de descendência com modificação semelhante ao do código genético. "Especulamos sobre dois mecanismos que podem explicar por que a taxa de modificação desacelera à medida que uma palavra é mais usada", diz Pagel. "Um é de que as palavras mais usadas são 'super-aprendidas', e assim há menos chance de errarmos ao usá-las".   Ele destaca que esses 'erros' seriam as mutações sobre as quais a evolução lingüística atua.   Outro mecanismo seria o fato de que erros em palavras de uso freqüente têm mais chance de serem corrigidos por outras pessoas. "Chamamos isso de 'seleção purificadora', e especulamos que pode ser esse o fator que mantém a integridade das palavras".   O cientista acredita que a analogia entre palavras e genes é profunda. "Algumas palavras evoluem mais devagar que muitos genes", afirma, citando a palavra para "dois" como exemplo - mudanças nela espalharam-se mais devagar, pela população de fala indo-européia, que o gene que permite que adultos digiram leite.   Pagel é cauteloso diante de tentativas de generalizar seu resultado - de que o uso constante fixa a forma - para outros campos da evolução cultural, como o dos costumes ou da religião. "Língua é apenas um som representando um significado, não é uma idéia. Não creio que possamos dizer que idéias evoluirão mais devagar se forem expressadas com maior freqüência - pode até ser que sim, mas não se pode dizer isso a partir dos nossos dados".   Se o uso de uma palavra faz com que ela mude pouco, e as palavras mais usadas são as mesmas há 10.000 anos, isso significa que a humanidade fala sobre os mesmos assuntos desde a pré-história?   "Estamos usando as mesmas palavras, ou sons muito próximos, do que usávamos de 6.000 a 10.000 anos atrás", reconhece Pagel. "Mas uma língua pode produzir um número infinito de sentenças, então talvez seja assim que surgem novos assuntos: usando novas combinações de velhas palavras".

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