Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Estudo da Unicamp avalia impactos neurológicos da covid-19 a longo prazo

Publicações científicas registram sintomas que vão de perda de olfato à acidente vascular cerebral

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 15h10

O Laboratório de Neuroimagem do Hospital da Clínicas da Unicamp associado ao Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn) realiza um estudo em pacientes de covid-19 para avaliar o impacto da doença no sistema nervoso a longo prazo.

"É extremamente intrigante e não sabemos a razão pela qual o vírus causa tantos problemas neurológicos. A via olfatória é uma possível porta de entrada, mas não apenas ela justificaria os problemas”, explicou Clarissa Lin Yasuda, neurologista da Unicamp, ao portal da universidade.

Por meio de ressonância magnética, serão avaliadas pessoas que tiveram alterações neurológicas na fase aguda e apresentam sintomas após a recuperação, aquelas que tiveram poucas alterações e assintomáticos.

“No processamento de imagem conseguimos detectar alterações cerebrais sutis. A hipótese é que o vírus poderia causar alterações estruturais ou mesmo da função cerebral, ou até algum grau de atrofia", avaliou a neurologista.

A Unicamp e o Brainn já têm um projeto para identificar fatores de risco para complicações neurológicas em pessoas que adoeceram por conta do novo coronavírus. O objetivo é ajudar na prevenção desses problemas, tanto os imediatos quanto os tardios.

Desde o início da pandemia, pesquisadores tentam desvendar a ação no corpo humano do Sars-CoV-2 que, apesar de ser um vírus respiratório, ataca diversos órgãos e pode levar à morte não somente pelo dano que causa ao pulmão. 

Publicações recentes nas revistas científicas New England Journal of Medicine e Brain registram os sintomas neurológicos em pacientes com a doença, que variam de perda de olfato e formigamento à encefalite e acidente vascular cerebral (AVC). 

Nenhum desses estudos conseguiu detectar a presença do vírus no líquor - líquido presente no cérebro e na medula espinhal. "Parece que os efeitos não ocorrem por ação direta do vírus e sim por mecanismos mais indiretos que fazem lesões no sistema nervoso", disse Clarissa.

O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido avalia que diversas sequelas físicas, cognitivas e psicológicas devem persistir em pacientes, principalmente as respiratórias, se a covid-19 seguir os padrões da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers).

O Sistema de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde aponta que 50% dos pacientes mais graves sobrevivem. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a chance de sequelas aumenta em pacientes graves que tiveram permanência prolongada em unidade de terapia intensiva (UTI) e necessidade de usar aparelhos respiradores. A recuperação pode levar de três a seis semanas ou mais.

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