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Estudo de efeitos do zika usará minicérebros

Modelos são utilizados para investigar desenvolvimento de transtornos psiquiátricos; rede com 379 cientistas receberá R$ 12 mi

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

05 Fevereiro 2016 | 03h00

RIO - Minicérebros criados em laboratório serão usados para investigar a ligação entre zika e microcefalia. As estruturas de menos de dois milímetros reproduzem o tecido do cérebro de um feto de três meses e foram obtidas a partir de células-tronco. Os modelos, hoje empregados no estudo do desenvolvimentos de transtornos psiquiátricos, serão inoculados com o vírus da zika. O trabalho está entre as 23 linhas de pesquisa que receberão recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) a partir de março.

A agência de fomento do governo fluminense dividiu os grupos científicos em seis redes que se dedicarão a pesquisas sobre zika - temas como métodos de diagnóstico, controle do mosquito, acompanhamento de gestantes infectadas pelo vírus e de seus filhos. As redes, que reúnem 379 pesquisadores, receberão R$ 12 milhões.

O pesquisador Stevens Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está entre os que têm a missão de responder se a infecção por zika provoca a microcefalia. “A gente não tem a resposta. É muito precoce assumir que zika tem relação direta com as alterações no sistema nervoso. Existe uma correlação epidemiológica, mas isso não significa necessariamente que o vírus cause a má-formação. Tanto que a Organização Mundial de Saúde divulgou o alerta em cima do surto de microcefalia, não da zika. Existe consequência real para células do sistema nervoso humano em desenvolvimento causada pela infecção pelo vírus? Foi isso que me comprometi a responder nos próximos meses. Talvez chegue no fim e diga que não vi nenhuma evidência de alteração. Isso pode significar que o mecanismo se dê de forma indireta: uma resposta à ação inflamatória da mãe sobre o feto.”

O estudo de Rehen será feito em organoides (minicérebros) obtidos a partir de células extraídas da urina e convertidas em células-tronco pluripotentes, que têm capacidade de se transformar em qualquer célula do corpo humano. “Organoide é um órgão em miniatura. Ele não cresce mais porque não tem vascularização que permita a entrada dos nutrientes. Ele tem equivalência a diferentes estruturas do cérebro humano. Se a gente infecta o organoide com o vírus zika, consegue identificar se há alterações de crescimento desses organoides comparando com o que não foi infectado. Essa é a grande vantagem nossa. É um organoide humano, que apresenta o mesmo padrão de desenvolvimento do cérebro de um feto”.

Os minicérebros foram desenvolvidos pela pesquisadora austríaca Madeline Lancaster em 2003. A equipe de Rehen obteve organoides “mais simples e mais baratos”. Ele nunca antes trabalhara com infecção viral. Até então, usava organoides para pesquisar transtornos como esquizofrenia.

“A formatação de redes nos permitiu em espaço curto de tempo colocar mil pessoas envolvidas num trabalho para dar resposta à sociedade. São 400 pesquisadores, além dos estudantes, doutorandos, que se despem de seus objetivos individuais como pesquisadores e convergem esforços para dar resposta à sociedade. Acredito que novas redes vão se formar, interagir e teremos um fato histórico extraordinário na ciência brasileira por meio de percepção da necessidade de convergência de trabalho”, disse o imunologista Wilson Savino, da Fundação Oswaldo Cruz, coordenador de uma rede.

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