Estudo descreve predador dos Pampas

Animal é o carnívoro terrestre mais antigo da América do Sul; viveu há 260 milhões de anos em uma região dominada por lagos e dunas

Alexandre Gonçalves,

16 Janeiro 2012 | 19h34

Cientistas do Brasil encontraram o fóssil do carnívoro terrestre mais antigo da América do Sul. Batizado de Pampaphoneus biccai, ele viveu há mais de 260 milhões de anos, no Período Permiano.

 

Os pesquisadores encontraram um crânio muito bem conservado de 35 centímetros de comprimento. Pela proporção, acreditam que o animal tinha cerca de três metros de comprimento e pesava mais que um leão. O fóssil está descrito em um artigo publicado na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)

Seu nome significa algo como “matador dos pampas do Bicca”, uma homenagem a José Bicca, proprietário da fazenda em São Gabriel (RS), a 330 quilômetros de Porto Alegre, onde o fóssil foi achado em 2008.

No ano passado, os cientistas já tinham descrito, em um trabalho publicado na Science, outro fóssil descoberto na mesma cidade: um herbívoro com dentes de sabre, o registro mais antigo de um animal com estrutura dentária sofisticada, ou seja, que inclui incisivos, molares e caninos.

Ambos pertencem ao grupo dos terápsidos. Viveram antes dos dinossauros, mas não são seus ancestrais. Estão na base do galho que, milhões de anos depois, deu origem aos mamíferos.

“Os caninos voltados para trás, como um gancho, não deixam dúvida de que se tratava de um carnívoro”, explica Juan Carlos Cisneros, salvadorenho da equipe que descobriu o fóssil. “Eles prendiam melhor a presa que os caninos de um leão, hoje.” Na época, Cisneros realizava pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Hoje, leciona na Universidade Federal do Piauí.

Continentes. O Pampaphoneus não traz só informações valiosas sobre a evolução dos mamíferos. Ele também fundamenta teorias sobre como os continentes estavam dispostos há 260 milhões de anos.

O artigo da PNAS recorda que a Terra era bem diferente do que hoje conhecemos. Os continentes estavam se reunindo em um único bloco, conhecido como Pangéia.

“A descoberta desse fóssil mostra que havia um corredor biológico que ligava o Brasil ao que hoje conhecemos como Rússia e África do Sul”, aponta Cisneros. Foram encontrados registros de predadores muito parecidos com o Pampaphoneus nesses dois países, o que comprova a comunicação entre as regiões.

Preferência. O cientista afirma que os animais do Permiano são diferentes dos que vieram depois, no Triássico, e menos estudados. Entre os dois períodos, houve o maior evento de extinção em massa da Terra, causado pela ação de vulcões. Cerca de 90% dos seres vivos desapareceram. Cisneros resolveu estudar esses animais e utiliza uma técnica singular para encontrar sítios paleontológicos: procura no Google Earth formações geológicas que indiquem a presença de fósseis do período. De cinco terrenos visitados, um deles costuma ter material fóssil relevante.

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