Lindsey Wasson/Reuters
Lindsey Wasson/Reuters

Estudo em Manaus aponta riscos da cloroquina, e revista médica pede cautela com droga

Trabalho que levou cientistas a sofrerem ameaça de morte mostra que dose alta da droga não é segura, causando arritmia cardíaca; 'resultados devem provocar algum grau de ceticismo às alegações entusiásticas sobre a cloroquina', diz Jama

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 20h37

SÃO PAULO - A pesquisa feita com duas doses diferentes de cloroquina em Manaus para pacientes com quadros severos de covid-19 e que revelou riscos cardíacos da dose mais alta – o que rendeu até ameaças de mortes aos cientistas – foi publicada nesta sexta-feira, 24, na prestigiosa revista da Associação Médica Americana (Jama).

O trabalho, que mostra o perigo de administrar concentrações parecidas com as que foram usadas na China, foi acompanhado de um editorial do Jama, que defende, com base nos resultados, cautela no uso da substância

O alerta é feito um dia depois de o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizar a aplicação da cloroquina e da hidroxicloroquina (variante um pouco menos tóxica) até em casos leves da doença, mesmo reconhecendo que não há indicações científicas para isso. E ocorre ao mesmo tempo em que a agência de drogas americana, o FDA, também preconizou cuidado com a medicação.

Outros trabalhos já feitos com a substância, como o da Prevent Senior, foram divulgados apenas no formato preprint, ou seja, que não passou por revisão de pares. Ou com pouquíssimas pessoas. O trabalho de Manaus é o primeiro submetido a esse crivo científico.

O estudo foi publicado na revista por 28 pesquisadores membros do projeto CloroCovid-19, de instituições como Fiocruz, Universidade do Estado do Amazonas, Universidade Federal do Amazonas, Faculdade de Medicina da USP, com base nos resultados do teste de cloroquina em 81 pacientes com covid-19.

Os pacientes que apresentavam um quadro grave de síndrome aguda respiratória foram divididos em dois grupos. Metade recebeu uma dose mais baixa de cloroquina (450 mg duas vezes no primeiro dia e uma vez nos quatro dias seguintes) e a outra metade recebeu uma mais alta (600 mg duas vezes por dia, por dez dias). Houve combinação também com azitromicina, um antibiótico.

O valor mais baixo é equivalente ao que o Ministério da Saúde havia recomendado para pacientes com quadro grave. A concentração mais alta foi adotada por ser semelhante a que tinha sido usada em pacientes chineses no início da pandemia (500 mg) e porque, in vitro, apenas doses muito altas se mostraram capazes de matar o vírus.

O trabalho teve início em 23 de março, com pacientes do hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus. Após 13 dias do início do ensaio, 16 pessoas haviam morrido no grupo de dose alta (39%) e 6 no grupo de dosagem baixa (15%). Mas já quando haviam sido observadas 11 mortes (nos dois grupos), a dose mais alta foi interrompida e o Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) foi informado. 

O resultado, porém, caiu nas redes sociais e os pesquisadores chegaram a ser acusados de usar pacientes como cobaias e de terem aplicado uma dosagem letal para causar má-impressão sobre o medicamento no tratamento contra a doença causada pelo novo coronavírus.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o infectologista Marcus Lacerda, da Fiocruz, líder do grupo, preferiu não comentar as ameaças que ele e outros pesquisadores sofrerem. Ele explicou que estudos anteriores de laboratório haviam mostrado que a cloroquina só mata o vírus em concentrações muito altas. 

“As concentrações baixas que estão sendo usadas não têm ação antiviral. Havia estudos de fase 1, em pacientes com câncer, mostrando que essa dose de 600 mg de 12 em 12 horas tinha segurança e poderia ser usada. Mas infelizmente nos pacientes de covid-19, essa dose não é segura”, disse.

“O estudo que inicialmente tinha previsão de incluir 440 pacientes teve uma análise interina, preliminar, feita por um comitê de segurança, após a inclusão desses 81 pacientes, que definiu que o grupo de alta dose não deveria ser continuado. Não só por causa da maior mortalidade, mas porque tinha mais arritmias cardíacas”, afirma Lacerda.

As arritmias foram observadas em 19% do grupo com dose mais alta e em 11% que recebeu a concentração mais baixa. A conclusão do trabalho é que a dose mais alta não é segura para pacientes criticamente doentes, especialmente quando combinada com a azitromicina, “por causa do seu potencial risco de segurança”, escrevem os autores. 

“Mas as descobertas não podem ser extrapoladas para pacientes com covid-19 mais branda”, dizem. O ensaio clínico com a dose mais baixa continua sendo realizado.

“Justamente por incluirmos pacientes muito graves é que a mortalidade foi alta, o que equivale à mortalidade vista em toda a literatura sobre a covid-19. Outro estudo recente no Jama mostrou que a mortalidade de pessoas que estavam em uso de respirador, entubadas, chega a quase 80%”, afirmou Lacerda.

O editorial do Jama considerou que os resultados do trabalho são motivo para cautela. “Os resultados deste ensaio devem provocar algum grau de ceticismo às alegações entusiásticas sobre a cloroquina e talvez servir para coibir seu uso exuberante. Por enquanto, os médicos prudentes devem discutir com os pacientes e suas famílias, quando possível, os riscos potenciais desse medicamento e os benefícios incertos antes de iniciá-lo”, pontua a publicação.

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