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Brasil produz 500 bilhões de itens descartáveis de plástico por ano, o equivalente a 15 mil itens por segundo. EnriqueTalledo/Oceana

Estudo inédito encontra microplástico em pulmão humano

Pesquisador brasileiro comprovou presença de partículas de plástico em 13 das 20 amostras de tecido examinadas na USP

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 12h41

O primeiro estudo científico brasileiro a encontrar partículas de microplástico em pulmão humano acaba de ser concluído em São Paulo e aguarda publicação, nos próximos dias, no The Journal of Hazardous Materials, revista científica da área da engenharia ambiental. A informação é do autor do estudo, engenheiro ambiental Luís Fernando Amato, que desenvolveu a pesquisa com supervisão da médica Thais Mauad, cientista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

"Pela primeira vez no Brasil constatamos a presença de microplástico em pulmão humano", afirmou Amato ao Estadão nessa quarta-feira, 19. O cientista, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – Programa USP Cidades Globais, doutor em ciências pelo departamento de Patologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, contou que foram analisadas amostras de 20 tecidos pulmonares, das quais 13 peças continham resíduos de microplásticos. A contaminação dos pulmões ocorreu por inalação. O trabalho foi desenvolvido pelo Instituto de Química e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP em parceria com a Faculdade de Medicina.

 As análises foram feitas e concluídas ainda antes do período da pandemia obedecendo rígido controle de processo de análises em laboratório com filtros ambientais que permitem afirmar, segundo o pesquisador, que não houve contaminação externa das amostras estudadas. "O controle no processo de laboratório foi uma das preocupações da pesquisa", explicou Amato. Segundo ele, o trabalho teve filtros ambientais no laboratório, posteriormente checados e analisados, para que pudessem ser eliminadas suspeitas de eventual contaminação no processo da pesquisa.

Inédito

"O trabalho é inédito e significa um avanço científico importante para a pesquisa no Brasil", disse a médica coordenadora do estudo. O material com as conclusões de Amato já foi aceito para publicação na revista científica, confirmou a professora.

De acordo com os pesquisadores brasileiros, a conclusão de Amato sobre a contaminação pulmonar por plástico mostrou a ocorrência da inalação em ambiente caseiro. O microplástico é aquele plástico que fica se microfragmentando no meio ambiente, seja ar, água ou solo, explicou a cientista que coordenou a pesquisa. Ele está em todo lugar e vai sofrendo uma série de transformações, dependendo de condicionantes como o tempo e temperaturas, explicou Thais Mauad. "O plástico pode causar irritações nos tecidos e reações inflamatórias", apontou a cientista.

A médica alertou, no entanto, que ainda é cedo para concluir sobre eventuais ligações da presença do plástico nos pulmões com a ocorrência de doenças, como o câncer, por exemplo. "Há ainda uma dificuldade de se entender exatamente se ele tem efeitos danosos na saúde e também quais os tipos e outros efeitos no organismo", disse a professora. "Não há somente um microplástico, mas sim diversos tipos. E, também, depende da forma pela qual ele entra no organismo, se por inalação, se por ingestão. E há teorias de absorção pela pele."

Placentas

Em dezembro último, um grupo de cientistas italianos divulgou outro estudo que localizou partículas de microplástico em tecido humano. Os europeus estudaram partes da placenta. A pesquisa levantou dúvidas sobre a contaminação de tecidos humanos de proteção no desenvolvimento e da vida de um grupo de bebês. No estudo, seis placentas humanas, coletadas de mulheres com gestações fisiológicas, foram analisadas por microscopia Raman para avaliar a presença de microplásticos, diz o texto publicado em revista científica.

"No total, 12 fragmentos microplásticos (variando de 5 a 10 μm em tamanho), de formato esférico ou irregular, foram encontrados em 4 placentas (5 no lado fetal, 4 no lado materno e 3 nas membranas corioamnióticas", detalhou a pesquisa de especialistas italianos. "Todas as partículas microplásticas foram caracterizadas quanto à morfologia e composição química. Todos eles eram pigmentados. Três foram identificados como polipropileno corado, um polímero termoplástico", informou relatório dos pesquisadores europeus.

"Agora, aqui no Brasil, a pesquisa científica do Luís comprova a ocorrência de plástico inalado em pulmões e isso abre uma oportunidade para novos estudos da ciência sobre os impactos da inalação de microplásticos na saúde das pessoas", disse a médica da USP.

Animais

De acordo com a especialista da USP, a ciência já sabe, porém, por estudos em animais, que o microplástico provoca efeitos na saúde dos bichos, como os animais marinhos. "Mas por que ele faria mal para a saúde?", questionou a pesquisadora, para em seguida responder: “Primeiro, porque quando ele se quebra, ele vai expor uma série de substâncias que estão dentro do plástico, como os retardantes de chama, os fenóis, que são substâncias potencialmente tóxicas. Ele pode também ser recoberto de bactérias ou outros organismos. E a própria partícula de plástico, que, pelo tamanho, seu organismo não consegue eliminar, pode ser um fator de irritação inflamatória", afirmou. E emendou: "Em pequenos animais não há mais dúvidas a respeito disso. Tanto ele pode bloquear o intestino daquele animal, quanto há estudos que mostram que as partículas chegam ao fígado, nos rins e que induzem a respostas inflamatórias".

"Até agora a gente não sabia se os humanos estavam absorvendo. A gente ainda não tem essa resposta, nem de qual o tipo de microplástico, nem da quantidade. Mas o trabalho italiano diz que ele foi encontrado na placenta. E o trabalho pioneiro do Luís mostra que foi encontrado nos pulmões e que eles estão dentro das nossas casas", reforçou Mauad.

Tipos

De acordo com o autor do estudo, a maior parte das partículas encontradas nos pulmões examinados era de dois tipos de plásticos. "A maioria do que a gente achou é polietileno e polipropileno, dois plásticos muito consumidos que, segundo dados da União Europeia, são os mais utilizados para embalagens e consumo. Mas há outros em tamanhos muito pequenos", disse Amato. "Eles conseguem superar todas as barreiras de proteção do organismo e chegar até o pulmão", acrescentou. Os tecidos pulmonares estudados pertenciam a moradores de São Paulo, pessoas que viveram há pelo menos 10 anos na cidade.

De acordo com Luís Fernando Amato, uma das exigências científicas foi o controle da contaminação no ambiente dos exames dos tecidos. "Trabalhei em uma capela (ambiente) com sistema de ventilação adequado para que não houvesse entrada de partículas externas. A roupa que eu usei era de algodão. Não pode ser nenhum tipo de avental de material polimérico. E usamos um sistema que chamamos de 'branco processual', cujo controle é feito por meio de filtros que são analisados depois para ver se houve contaminação com partículas desde a coleta do tecido pulmonar até o final da análise", explicou. "Porque eu preciso saber se durante o trabalho caiu alguma partícula que haja no ar", ensinou

Ele contou ainda que há estudos na França, Nova Zelândia, China, Inglaterra mostrando que há partículas de microplástico em suspensão no ar tanto na rua quanto dentro de casa. "Esses filtros, depois, são também analisados para checagem de quais tipos de plásticos acumularam e também a contagem para verificarmos se houve contaminação ou não."

No estudo de Amato foram encontradas partículas de plástico de 4 mícrons (μm) e de 1,5 mícron, o que já se aproxima do tamanho da nanopartícula, a partícula menor do que 1 micron (a milésima parte do metro).

De acordo com Thais Mauad, o resultado do estudo mostrou também o equívoco do conceito de que o plástico é inerte no organismo e, por si, não causa prejuízos à saúde. Essa é uma das críticas ao trabalho de ambientalistas que sustentam haver perigo no crescente acúmulo de matéria plástica para a vida humana e animal e  meio ambiente. "Plástico não é apenas carbono e hidrogênio", argumentou a cientista. Ele funciona também como um veículo de transporte de substâncias tóxicas para dentro do organismo. "Além disso, há a questão de que os macrófagos não conseguem fazer a fagocitose do material", explicou Amato. "Há uma soma de fatores. O pesadelo é um pouco maior do que a gente pensa", alertou Amato.

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'Precisamos olhar para as embalagens e para o vácuo legal', diz pesquisadora sobre uso de plástico

Lara Iwanicki é gerente da Campanha de Redução da Poluição Marinha por Plásticos, da ONG Oceana Brasil

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 12h43

Formada em Engenharia Ambiental pela Unesp, Lara Iwanicki tem mestrado em Gestão Ambiental pela Universidade de Yale (EUA). Trabalhou com várias organizações internacionais em projetos relacionados à conservação marinha e gestão pesqueira. Na Oceana, maior organização não governamental sem fins lucrativos voltada para a conservação dos oceanos, é gerente da campanha de Redução da Poluição Marinha por Plásticos, autora dos estudos "Um Oceano Livre de Plásticos" e "Auditoria da Pesca Brasil 2020".

Ao Estadão, ela fala sobre o trabalho em prol do meio ambiente e da conservação da biodiversidade nos oceanos.

O Canadá adotou há alguns dias uma restrição legal sobre plástico. O país incluiu o plástico na lista de poluidores. Como você analisa essa iniciativa deles e o que há neste sentido no Brasil?

A gente está muito, muito atrasado. Esse movimento que o Canadá fez não significa uma lei de banimento, como tantos países, centenas deles, estão fazendo. O movimento do Canadá inclui o plástico como uma substância tóxica dentro de um anexo que lista outras substâncias tóxicas. Não significa que eles estejam banindo o plástico. O ministro agora vai ter autoridade e autonomia para conduzir avaliações de risco e tomar medidas de gestão de risco com relação ao plástico. É uma camada a mais de regulamentação para a comercialização dos plásticos descartáveis. É um caminho diferente.

No paralelo, o Canadá está discutindo uma legislação de banimento de plástico de uso único, como há na Europa, na China, que já proibiu canudinho e tem uma lei que vai banir, gradativamente, sacolas. Como Austrália, África do Sul, Quênia, Jamaica, Chile, Peru, uma longa lista de países que estão indo nesse sentido. Um sentido mais restritivo, de redução gradativa, de banimento. Isso é o que realmente dá resultado. Reduz a poluição.

E no Brasil?

Aqui, a gente tem alguns municípios com leis mais restritivas. Como São Paulo, que tem lei aprovada em 2020, mas que ainda não está regulamentada. Ela proíbe canudinhos, sacolinhas e descartáveis em estabelecimentos comerciais. No Rio, há lei para cobrar pelas sacolinhas plásticas e uma lei que proíbe canudinhos. Em Belo Horizonte, se não me engano, também tem lei mais restritiva para sacolinhas. Então, alguns municípios têm leis mais restritivas, mas no nível nacional, a gente não tem.

A gente tem uma política nacional de resíduos sólidos que tenta endereçar o destino das embalagens em geral, por meio da logística reversa, que é organizada por um acordo setorial com as empresas. Mas nem isso está sendo implementado. Houve a fase um, que recuperou em torno de 1,5%, e  uma fase dois, prevista para ser iniciada em 2018 mas que até hoje, 2021, não foi iniciada. Nem sequer o que estava previsto na política de resíduos sólidos está sendo cumprido. Isso, se estamos falando de embalagens. E quando a gente olha para produtos descartáveis, que são os pratinhos, canudinhos, copinhos, contêineres de isopor, sacolinhas, nada disso está dentro do marco legal. Há um vácuo legal. Precisamos de uma legislação. É o que outros países estão fazendo, mas que no Brasil ainda há dificuldade de se avançar até na discussão do assunto.

Há uma pesquisa internacional sobre os efeitos de partículas de plástico na vida humana. O estudo, do final do ano passado, detectou microplástico em placenta e organismo de bebês. Isso é discutido no Brasil? Há estudos sobre o impacto do microplástico na saúde humana?

Há poucos estudos. O que a gente sabe é que os estudos mais aprofundados são os europeus. Tem esse italiano, que olhou para seis placentas humanas e viu que em cinco delas havia microplástico, e um outro, que é bem emblemático, feito, se não me engano por austríacos, que encontrou microplástico em fezes humanas. As amostras são de pessoas de diferentes países da Europa o que mostra que é um problema que não depende das fronteiras. Isso é bastante preocupante, porque o microplástico já está chegando ao nosso corpo. Mas agora está sendo objeto de estudo pela ciência.

A gente ainda não sabe qual é o efeito agudo disso no nosso corpo. Dependendo do tamanho da partícula, ela é excretada. Ou é absorvida.  Se você tem uma partícula de menos de 150 micrômetros, ela provavelmente vai ser absorvida pelo seu corpo, vai entrar na corrente sanguínea e talvez vá para algum tecido, como apareceu nas placentas estudadas. Quando é um pedaço um pouquinho maior, seu corpo talvez não absorva, mas seu corpo vai entrar em contato com os produtos químicos dessa partícula de plástico. O que é assustador nisso tudo é que a gente está ingerindo, respirando isso. São objetos sintéticos, corpo estranho para o nosso organismo. A resposta imunológica a isso, se vai ficar na célula, se vai causar mutação genética – no caso da placenta, se vai entrar no corpo do feto -, são as perguntas da ciência. O que acontece quando a gente ingere? A gente tende a imaginar que não é saudável. Porque não é natural, não é biodegradável. E pode gerar efeitos.

Ainda não dá para saber se provoca doenças, algum tipo de câncer, por exemplo?

A gente ainda não pode afirmar que o microplástico causa, por exemplo, o câncer de estômago. Essa afirmação ainda não é possível. Mas a gente sabe que o contato é cada vez maior por meio dos alimentos, da água, do ar.

Esses sinais de contaminação já eram detectados pelos cientistas na vida marinha. Além daquela imagens dos animais com sacos plásticos enrolados no pescoço, tampa de garrafas no aparelho digestivo, há estudos conclusivos sobre o impacto na vida animal, na vida marinha?

O que temos de estudos é que há mortes na vida marinha provocadas pela ingestão, que é efeito mais imediato. O plástico não é digerido e, então, vai se acumulando no estômago do animal. Depende do tamanho do animal. Os maiores comem os pedaços maiores. Os zooplânctons, por exemplo, vão comer pequenos fios de microplásticos. Então, o que os estudos estão mostrando  como efeito mais imediato na saúde dos animais é justamente a morte por inanição, ou seja, o acúmulo do plástico no sistema digestivo leva a uma falsa sensação de saciedade no animal. Ele deixa de procurar alimento porque ele entende que ele está satisfeito. E acaba morrendo por falta de nutrientes. Isso a gente mostra no nosso relatório no Brasil, mas tem sido encontrado no mundo todo. E também está sendo encontrada a migração de componentes químicos na cadeia trófica. O plástico ingerido pelo animal é composto por outras substâncias que não são só os polímeros. E os estudos científicos mostram que esses acúmulos são danosos e mortais.

Há uma tentativa de resistir a isso? Há campanhas?

A primeira campanha que estamos fazendo é a campanha do delivery. É quando as pessoas conseguem visualizar a quantidade de plástico que está indo para o lixo. E traz também responsabilidade não só para o governo, mas também para as empresas. É uma forma de trazer o debate sobre o plástico descartável. É o primeiro ponto.

A gente tem feito discussões com o setor da cadeia do plástico sobre a necessidade de se ter uma lei nacional que contemple o conjunto de plásticos que não são contemplados pela política nacional de resíduos sólidos. A gente precisa olhar para as embalagens, mas a gente precisa olhar para o vácuo legal. É difícil isso no Brasil. Não há tanto interesse. Há tantos outros problemas no País. Mas o que a gente percebe é que os problemas relacionados ao oceano ainda ficam sendo secundários, em relação às queimadas na Amazônia. Mas a gente tem feito trabalho com outros atores para levar a discussão ao Congresso. Mas há articulações. Na Câmara há mais de 50 projetos de lei sobre o tema.

Mas esse é um debate antigo, não?

Em termos científicos, as primeiras evidências desse problema do plástico nos oceanos vieram na década de 1970. Os americanos e a própria indústria já acompanham. A gente está em 2021, já temos aí 50 anos que há documentação disso. Mas à medida que a produção de plástico descartável se acelera e tudo passa a ser plástico descartável, as evidências aumentaram. Talvez de uns dez anos para cá a gente tenha visto um crescimento de mídia, de legislação porque ficou tão óbvio isso. Não é mais só em artigos científicos. Está na praia, na trilha. E a Oceana tem trabalhado campanhas  para reduzir a produção do plástico descartável desde 2018. Já tivemos algumas vitórias. A lei nacional do Peru foi uma vitória da Oceana. E recentemente o Chile também aprovou lei.

Há um ambiente novo que favorece o debate?

Tem, sim. E não só um ambiente novo, mas uma manifestação dos próprios consumidores. A gente viu isso no caso do Delivredeplástico. 72% dos consumidores querem o delivery sem plástico descartável porque as pessoas sabem que isso é um problema e elas querem receber alternativa. Há consumidores querendo formas mais sustentáveis. No mundo dos investimentos, do ESG, agora neste contexto da pandemia, há preocupação de não colocar dinheiro em indústrias que vão causar poluição. Há sim um movimento, uma onda nova. A empresa que não surfar esse movimento, vai ficar pra fora. Há materiais alternativos. Só precisam de escala. Há materiais biodegradáveis, soluções retornáveis. Coisa até que há 20 ou 30 anos já se usava. É preciso retomar e dar escala.

Neste tempo de pandemia. Como está o debate?

A pandemia também traz essa reflexão. Houve uma mudança no padrão de consumo, por exemplo. As pessoas estão mais em casa, aumentou o consumo por delivery. E não só no delivery, mas também no e-commerce. Isso foi gerando uma consciência da quantidade de embalagens e descartáveis. Isso ficava mais diluído, mas na pandemia, como mostra a campanha, as pessoas tomaram mais consciência de que não basta só separar o lixo. Mesmo você fazendo a sua parte, o lixo pode ir parar no lixão. A campanha mostra que as pessoas têm sede de alternativas.

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