GRANT HINDSLEY / THE NEW YORK TIMES
GRANT HINDSLEY / THE NEW YORK TIMES

Estudo levanta dúvidas sobre teste genético para embriões 'anormais'

Exame, que leva ao descarte de dezenas de milhares de embriões por ano, pode ter sido incorporado prematuramente à rotina médica

Azeen Ghorayshi, The New York Times

25 de abril de 2022 | 05h00

Quando começaram suas duas primeiras rodadas de fertilização in vitro em 2015, Anna Dahlquist e seu marido, Brian, fizeram um teste genético muito comum para determinar a condição dos embriões que haviam criado. Os resultados foram devastadores: todos os treze eram “anormais”.

Os embriões ficaram congelados em sua clínica de fertilidade em Seattle por seis anos, enquanto o casal passava por várias rodadas de fertilização in vitro, sem sucesso. Depois de três anos, eles tiveram uma filha saudável, usando um embrião que haviam decidido não testar.

Então, no ano passado, eles foram para uma nova clínica – uma clínica que questionou a confiabilidade do teste genético que eles tinham feito. A clínica implantou uma rodada de embriões irregulares do casal – dois embriões com um erro cromossômico e outro com dois erros. No mês passado, Dahlquist deu à luz um menino saudável.

“Eu tinha 39 anos quando fiz o embrião”, disse Dahlquist. “E tinha 46 quando engravidei. É muito tempo, muitos anos valiosos tanto na educação do meu filho quanto na minha vida”.

Nas últimas duas décadas, o chamado teste genético pré-implantacional para aneuploidia, ou PGT-A, se tornou um exame padrão nos procedimentos de fertilização in vitro, os quais por si mesmos já são bastante caros. Mas o teste, que pode custar de US$ 4.000 a US$ 10.000, ficou controverso ao longo dos anos, já que estudos lançaram dúvidas sobre se o exame chega a aumentar as taxas de natalidade da fertilização in vitro. Um número crescente de cientistas vem questionando o uso generalizado do teste, que gera o descarte de dezenas de milhares de embriões por ano e faz com que muitas mulheres acreditem que talvez não possam ter filhos biológicos.

Um novo estudo publicado na semana passada detalha 50 pacientes que passaram por transferências de embriões anormais no Centro de Reprodução Humana em Nova York. (Os Dahlquist tiveram seus embriões anormais transferidos nesta clínica, uma vez que sua clínica local se recusava a implantá-los). O estudo relatou oito nascimentos após 57 ciclos de transferência de embriões com resultados de testes genéticos anormais desde 2015. Sete dos bebês nasceram saudáveis. A idade média das mulheres no estudo foi de 41 anos.

O estudo é a continuação de uma pesquisa de 2015 também liderada pelo centro, a qual mostrou pela primeira vez que embriões anormais selecionados ainda podem ser viáveis. Desde então, outras clínicas de fertilidade em todo o mundo também começaram a transferir esses embriões.

A pesquisa foi financiada pela clínica e pela Foundation for Reproductive Medicine, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos com sede em Nova York. O novo estudo “fundamenta as preocupações que eu e outros profissionais temos há vários anos quanto à precisão desses testes”, disse por e-mail Josephine Johnston, bioeticista e diretora de pesquisa do Hastings Center em Garrison, Nova York, que não esteve envolvida na pesquisa. “O estudo reforça o argumento de que os testes de PGT-A foram incorporados prematuramente à medicina de fertilidade e sugere fortemente que esses testes levam os pacientes a descartar embriões potencialmente viáveis”.

Mas o novo estudo também mostra as limitações da transferência desses embriões. A grande maioria dos 144 embriões transferidos pelo grupo tinha apenas uma ou duas anomalias cromossômicas, mas as transferências levaram a 11 abortos, além dos oito nascidos vivos.

“Há muitos abortos nessa proporção”, disse Laura Hercher, diretora de pesquisa estudantil do programa de aconselhamento genético do Sarah Lawrence College.

O teste PGT-A é usado para rastrear aneuploidia, que ocorre quando se detecta um número impróprio de cromossomos – a mais ou a menos – nas células amostradas. Um número anormal de cromossomos pode, em casos graves, levar a deficiências genéticas, como a síndrome de Down. Mais frequentemente, o número errado de cromossomos pode levar a gestações problemáticas, seja impossibilitando a implantação de embriões ou causando abortos espontâneos.

Mas o problema com o PGT-A, argumentam os autores do estudo, é que ele fornece uma imagem incompleta que muitas vezes é interpretada como um resultado definitivo. O teste se baseia na amostragem de um punhado de células da camada externa do embrião em desenvolvimento e na contagem para ver se cada célula tem 23 pares de cromossomos.

“O objetivo do PGT era selecionar embriões que dariam às pessoas uma chance melhor de engravidar”, disse o Dr. David Barad, ginecologista do Centro de Reprodução Humana e coautor do estudo. “Mas fazer testes genéticos não deixa os embriões melhores. Só nos dá uma ideia de quem eles são”.

Embora avançar com o uso desses embriões com anormalidades possa trazer algum risco, os autores do novo estudo, todos ligados à clínica que faz as transferências, argumentam que embriões viáveis estão sendo descartados, deixando muitas mulheres com a ideia de que não têm outras opções para engravidar.

“A taxa de aborto é aproximadamente o que se espera nessas idades mais avançadas”, disse o Dr. Norbert Gleicher, diretor da clínica e coautor do estudo, por e-mail. Ele acrescentou: “Pergunte às mulheres o que elas preferem: risco de aborto espontâneo ou nenhuma chance de ter bebê? A resposta vai ser bem clara”.

Em uma das gestações do estudo, o feto foi diagnosticado com um defeito cardíaco. Os pais seguiram em frente. Após uma cirurgia ainda recém-nascido, o bebê está saudável. Gleicher disse que não havia “nenhuma conexão conhecida” entre o defeito de nascença e o erro cromossômico.

Um estudo maior sobre os resultados deixaria mais claro se há risco de defeitos congênitos, disse Hercher. Mas também há que se falar do complexo nível de incerteza que os provedores de fertilidade terão de enfrentar – e informar adequadamente seus pacientes – quanto aos potenciais riscos envolvidos no uso desses embriões.

“Nós realmente não sabemos o que dizer a eles sobre as consequências potenciais a longo prazo para a criança que nasce”, disse Hercher. “Haverá um aumento no número de defeitos congênitos? Será que vamos descobrir que as crianças vão enfrentar problemas no caminho? Muitas das respostas são ‘eu não sei’”.

Números irregulares de cromossomos são surpreendentemente comuns, sobretudo à medida que as mulheres envelhecem. Para mulheres com mais de 35 anos, há cerca de 50% de incidência de aneuploidia em embriões produzidos durante a fertilização in vitro. À medida que o óvulo fertilizado se divide e se multiplica em células, os erros que ocorrem ao longo do processo podem ser replicados. Mas as células normais podem ter uma vantagem competitiva sobre as células anormais, levando a grande maioria das células do embrião a ainda ter o número correto de cromossomos. Ou algumas dessas células incorretas podem acabar se autocorrigindo.

De qualquer forma, o potencial dessa colcha de retalhos de células significa que qualquer imagem do embrião será limitada. Um resultado de teste normal pode não ver células irregulares em outros lugares, e uma única célula com o número errado de cromossomos é suficiente para apresentar resultados anormais. Ao amostrar apenas um pequeno subconjunto de células em um estágio muito inicial do desenvolvimento embrionário, o PGT-A pode fazer com que algumas clínicas de fertilidade, receosas de correr riscos, rejeitem embriões que poderiam gerar gestações saudáveis.

Os falsos positivos também são um problema para as mulheres que não se submetem à fertilização in vitro. Na terça-feira, a agência sanitária americana (FDA) alertou que testes pré-natais não invasivos, que procuram sinais de anormalidades genéticas no feto, podem levar as pacientes a tomar decisões sobre suas gravidezes com base em informações incorretas.

Alguns pesquisadores argumentam que o PGT-A ainda pode ser útil para algumas pessoas. Para pacientes mais jovens que produzem mais óvulos, o teste pode ajudar a classificar quais embriões têm maior probabilidade de sucesso, minimizando o número de procedimentos que precisam ser realizados e pagos.

Mas os Dahlquist, que foram informados de que os embriões “anormais” produzidos em seus dois primeiros ciclos de fertilização in vitro não poderiam ser usados, acreditam que é preciso comunicar mais nuances aos pacientes para que estes possam pesar os riscos e tomar decisões informadas.

O fato de sua clínica de fertilidade não ter permitido o uso de embriões potencialmente viáveis e tê-los forçado a esperar seis anos para implantá-los fez o casal se sentir impotente, disse Dahlquist. Poucas clínicas concordam em transferir esses embriões e, no momento em que fizeram o teste, o casal nem sabia que havia essa possibilidade.

“Eu só sinto que é injusto”, disse ela. “Eles realmente estão arruinando as chances de muitas pessoas”.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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