Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Estudo mostra diferenças entre fobia social e timidez

Segundo pesquisadores, muitos adolescentes que se descrevem apenas como tímidos, na verdade sofrem de desordem psiquiátrica

Reuters,

20 de outubro de 2011 | 17h44

NOVA YORK - O diagnóstico controverso da 'fobia social' é uma condição psiquiátrica legítima e não é a mesma coisa que timidez, afirmam pesquisadores do governo dos Estados Unidos em novo estudo. "Timidez não é necessariamente fobia social e esse é o ponto principal do nosso trabalho, disse Kathleen Merikangas, do Instituto Nacional de Saúde Mental, em Bethesda, Maryland.

Baseado em uma pesquisa realizada em todos os estados norte-americanos, entre 2001 e 2002, os estudiosos encontraram casos de fobia social entre adolescentes que se descreveram como tímidos, assim como entre aqueles que não o fizeram. Também foi apontado que menos de 8% dos adolescentes com fobia social disseram já terem sido tratados com antidepressivos.

O estudo foi publicado na revista 'Pediatrics', da Sociedade Americana de Pediatria, e sugere que a fobia social não é um conceito criado para vender medicamentos para pessoas que vivem emoções comuns, como a timidez.

"Eu acho que o artigo é um lembrete de boas-vindas dizendo que os diagnósticos psiquiátricos não são algum tipo de conspiração por parte da indústria farmacêutica", disse Ian Dowbiggin, historiador e autor de 'The Quest for Mental Health: A Tale of Science, Medicine, Scandal, Sorrow, and Mass Society' (em tradução literal, 'A busca pela saúde mental: um conto da ciência, medicina, calúnia, tristeza e sociedade de massa').

Para o autor, as novas descobertas não desafiam a ideia de que 'fobia social' é apenas um rótulo novo para experiências que já foram consideradas normais. "Eles deixaram de fora todo o debate sobre o quanto nossa sociedade e cultura influenciam o modo como as pessoas relatam seus estados emocionais", explica Dowbiggin.

"Atualmente, estamos vivendo em uma cultura do 'terapismo'. Isso encoraja as pessoas tímidas a concluírem que elas sofrem de um prejuízo significativo dentro do funcionamento social", afirma o autor.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental, a fobia social é caracterizada pelo 'medo intenso, persistente e crônico de estar sendo observado e julgado pelos outros e de ser envergonhado ou humilhado por suas próprias ações'. Esta condição estaria ligada a uma série de problemas enfrentados na vida diária, dizem os pesquisadores.

"Muitas dessas crianças não vão à escola nos dias em que devem falar na aula ou então não comparecem às festas", afirma a estudiosa Kathleen Merikangas. "Eles ficam tão preocupados por terem que estar presentes em algum desses contextos sociais que chegam a prejudicar os próprios desempenhos educacionais".

 

Segundo Merikangas, muitos adolescentes com fobia social podem ser ajudados pela educação, a terapia da conversa ou então os medicamentos, como antidepressivos.

 

 

 

Cautela na análise dos casos

 

Sua equipe de pesquisa também descobriu que os adolescentes que se enquadravam nos critérios para a doença, estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria, tinham maior probabilidade de estarem deprimidos, terem problemas de comportamento e sofrerem com o abuso de drogas do que os adolescentes que se mostraram apenas tímidos.

Os pesquisadores avaliaram a timidez pedindo diretamente aos adolescentes que respondessem, em uma escala de quatro pontos, 'onde é que eles se encaixavam junto a pessoas de sua idade que não conheciam muito bem'.  Eles ainda pediram aos pais que avaliassem os filhos na mesma questão.

Cerca de metade dos mais de 10 mil adolescentes norte-americanos entrevistados nessa pesquisa disseram que eram tímidos em algum grau, enquanto cerca de 9% preenchiam os critérios para fobia social.

Uma em cada oito crianças que se descreveram como tímidas também mostraram quadro de fobia social - chamado de transtorno de ansiedade social, em algum ponto. A comparação foi feita com um em cada 20, que não eram tímidos.

De acordo com Glen Spielmans, psicólogo da Metropolitan State University, em Saint Paul, Minnesota, as estimativas desse estudo são carregados de incerteza. "Temos que ser um pouco cautelosos com a maioria dos transtornos psiquiátricos. O que acontece muitas vezes é que as pessoas que estão fazendo as entrevistas não são profissionais da área da saúde mental", explica.

Isso significa que eles podem ser muito rápidos, ou até mesmo lentos, para diagnosticar qual é a desordem sofrida pela pessoa.

Spielmans também afirma que o estudo foi 'datado', ou seja, as entrevistas foram realizadas em 2001 e 2002 e a prescrição de antidepressivos disparou desde então. Além do mais, diz o psicólogos, medicamentos para a fobia social têm sido essencialmente comercializados para adultos, e não crianças.

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