WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Estudo reduz tempo de uso de remédio contra doença de Chagas e facilita tratamento

O trabalho conduzido na Bolívia mostra que a terapia com o medicamento benzonidazol pode ter sua duração reduzida de oito para duas semanas, sem que a eficácia seja comprometida e com melhora do estado geral do paciente

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2019 | 13h13

BRASÍLIA - Resultados de estudo inédito coordenado pela Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) abrem uma nova perspectiva para o tratamento da doença de Chagas, infecção que atinge aproximadamente 2 milhões de brasileiros e é uma das quatro maiores causas de mortes por doenças infecciosas e parasitárias no País.

Conduzido na Bolívia entre 2016 e 2017, o trabalho mostra que a terapia com o medicamento benzonidazol pode ter sua duração reduzida de oito para duas semanas, sem que a eficácia seja comprometida e com melhora do estado geral do paciente. 

O benzonidazol é usado desde a década de 1980. Mas há entre parte dos profissionais uma resistência em indicar o tratamento na fase crônica da doença, porque a droga pode provocar efeitos colaterais significativos. 

“Mesmo quando indicado, boa parte dos pacientes acaba desistindo da terapia, por causa do mal estar”, conta o diretor do programa clínico de Chagas do DNDi, Sérgio Sosa Estani. Entre os problemas relatados estão erupções cutâneas, intolerância gástrica e problemas neuromusculares. 

No esquema de tratamento testado pelo estudo, no entanto, a taxa de abandono caiu de 20% para menos de 3% dos casos. “É um ganho importante”, constata. Quando não tratada na fase crônica, a doença de Chagas ataca o coração e órgãos do sistema digestivo e pode levar à morte. Além disso, a doença pode ser transmitida da mãe para o feto. 

Sosa Estani observa que o tratamento sem efeitos colaterais significativos permite a adoção de estratégias direcionadas, por exemplo, para o tratamento de mulheres em idade fértil. Isso ajudaria não apenas a preservar a saúde dessa população, mas a evitar novos ciclos da doença.

A estimativa é de que 6 milhões de pessoas no mundo estejam infectadas com o protozoário causador da doença, o Trypanosoma cruzi. A infecção pode ocorrer por meio da picada de insetos conhecidos como barbeiros, pela ingestão de alimentos contaminados, além da transmissão da mãe para o feto. Há ainda o risco de transmissão por transfusão de sangue – no Brasil muito reduzido, em virtude da melhora da vigilância. 

Na maioria dos casos, a doença de Chagas é assintomática nos primeiros anos da infecção. Mas em cerca de 30% dos pacientes a doença se torna crônica. Nesses casos, silenciosamente o parasita provoca danos no sistema cardíaco e digestivo. 

Embora animadores, os resultados do estudo coordenado pelo DNDi ainda precisam ser confirmados por outros trabalhos. Sosa Estani conta que nesta próxima etapa, a DNDi inicia uma rodada de discussões com órgãos reguladores de países mais afetados pela doença para iniciar novos braços da pesquisa e, confirmado o resultado, liberar rapidamente essa nova indicação do tratamento. 

O estudo foi feito em parceria com a Fundação Ciência e Estudos Aplicados para o Desenvolvimento em Saúde e Meio Ambiente e a Fundação Mundo São. “Essa é uma das estratégias que avaliamos para tentar aumentar o arsenal terapêutico contra a doença de Chagas”, contou Sosa Estani. 

Organização sem fins lucrativos, a DNDi trabalha na pesquisa e desenvolvimento de tratamentos para doenças negligenciadas. As pesquisas são feitas tanto com drogas novas quanto com novos esquemas de uso, como é o caso do benzonidazol. 

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