Estudo revela que HIV surgiu em chimpanzé africano

Sudeste da República de Camarões, início do século 20. Foi lá que o vírus da aids, o HIV, passou dos macacos para os seres humanos, dando início à pandemia global que já matou mais de 20 milhões de pessoas, segundo um estudo publicado hoje na revista Science. Pela primeira vez, os cientistas conseguiram detectar a presença do vírus em uma população selvagem de chimpanzés, comprovando a teoria de que foram eles que transmitiram o HIV para o homem. Os pesquisadores rastrearam dez populações de chimpanzés da região sul de Camarões e descobriram que várias apresentavam infecção pelo SIV cpzPtt, a forma do HIV em macacos que é mais próxima geneticamente do vírus da aids no homem. A sigla significa vírus da imunodeficiência simiesca (SIV) de chimpanzés (cpz) da espécie Pan troglodytes troglodytes (Ptt) - uma das quatro subespécies de chimpanzé africano. Até agora, o vírus só havia sido detectado em animais de cativeiro. Análises epidemiológicas e genéticas, segundo os cientistas, estabelecem definitivamente o P. t. troglodytes como um reservatório natural do HIV e, muito provavelmente, como a espécie que transmitiu o vírus para o homem. "Ali é o epicentro da epidemia", disse ao Estado o virologista Marcelo Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que fez doutorado com a coordenadora do projeto, Beatrice Hahn, na Universidade do Alabama em Birmingham, nos EUA. "A probabilidade de haver um vírus mais próximo do HIV do que esse é muito baixa." O SIV encontrado no estudo, segundo ele, é mais parecido com o HIV-1 do que o próprio HIV-2 (outra linhagem do vírus que infecta seres humanos, mas está restrita ao continente africano). O caso mais antigo conhecido de infecção humana pelo HIV é de 1959, referente a um marinheiro que havia passado pelo Congo (país vizinho de Camarões). A epidemia, de fato, só começou a ser percebida na década de 80, nos EUA. Mas estudos moleculares indicam que a passagem do chimpanzé para o homem teria ocorrido na década de 30, segundo Soares. Nesse intervalo, o vírus poderia ter ficado "escondido" em populações isoladas, até que conseguisse se disseminar pelo planeta. O cenário mais provável é que o SIV tenha entrado na espécie humana por meio de algum caçador que teve contato com o sangue de um animal infectado. "É possível que tenha havido várias introduções na espécie humana, mas que acabaram se mostrando becos sem saída, ou porque o vírus não se adaptou ao organismo humano ou não conseguiu se propagar na população", explicou Soares. Segundo ele, há mais de 30 espécies de macaco na África que carregam o SIV, mas só o SIV cpzPtt conseguiu se disseminar pela população em escala global, na forma do HIV-1 M. Outras duas linhagens (HIV-1 N e O) também teriam chegado ao homem pelo Pan troglodytes troglodytes, mas não evoluíram a ponto de causar uma pandemia - permaneceram endêmicas de populações africanas. Os pesquisadores acreditam que a linhagem M foi transmitida localmente, no sudeste de Camarões, e se espalhou pelos Rios Sangha e Congo até a capital congolesa, Kinshasa, de onde se espalhou para o mundo. "O ciclo foi fechado", afirmou o infectologista Esper Kallás, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Descarta-se definitivamente a possibilidade de que o HIV seja uma arma biológica que escapou do laboratório ou qualquer coisa desse tipo." É possível que haja cepas ainda mais virulentas do SIV em outras espécies de macaco, esperando uma oportunidade para infectar novos hospedeiros. Os próprios macacos raramente ficam doentes, pois aprenderam a conviver com o vírus ao longo de milhões de anos.

Agencia Estado,

26 de maio de 2006 | 08h40

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