NIAID-RML/Handout via Reuters
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Estudo revela que houve epidemia de coronavírus na Ásia Oriental há 20 mil anos

No passado, algumas dezenas de genes humanos evoluíram rapidamente na Ásia Oriental para impedir infecções por coronavírus, dizem os cientistas. Esses genes podem ser cruciais para a pandemia de hoje

Carl Zimmer, The New York Times

30 de junho de 2021 | 15h00

Pesquisadores encontraram indícios de que uma epidemia de coronavírus varreu a Ásia Oriental há cerca de 20.000 anos e foi devastadora o suficiente para deixar uma marca evolutiva no DNA das pessoas vivas atualmente.

O novo estudo sugere que um antigo coronavírus afetou a região por muitos anos, dizem os pesquisadores. A descoberta pode ter implicações muito sérias para a pandemia de covid-19 se ela não for controlada logo por meio da vacinação.

“Isso deve fazer com que nos preocupemos”, disse David Enard, biólogo evolucionista da Universidade do Arizona que liderou o estudo, que foi publicado na quinta-feira na revista científica Current Biology. “O que está acontecendo agora talvez aconteça por gerações e gerações.”

Até agora, os pesquisadores não podiam olhar muito para trás na história dessa família de patógenos. Nos últimos 20 anos, três coronavírus se adaptaram para infectar humanos e causar doenças respiratórias graves: covid-19, SARS e Mers. Os estudos a respeito de cada um desses coronavírus indicam que eles saltaram de morcegos ou de outros mamíferos para a nossa espécie.

Outros quatro coronavírus também podem infectar as pessoas, mas eles normalmente causam apenas resfriados leves. Os cientistas não observaram diretamente esses coronavírus se tornando patógenos humanos, então eles têm se baseado em pistas indiretas para estimar quando os saltos de uma espécie para a outra aconteceram. Os coronavírus ganham novas mutações em um ritmo mais ou menos regular e, portanto, a comparação da variação genética deles torna possível determinar quando eles se separaram de um ancestral comum.

O mais recente desses coronavírus leves, denominado HCoV-HKU1, cruzou a barreira das espécies na década de 50. O mais antigo deles, denominado HCoV-NL63, pode ter tido origem há 820 anos.

Mas antes daquele ponto, o rastro do coronavírus não podia mais ser seguido - até que Enard e seus colegas aplicaram um novo método à pesquisa. Em vez de olhar para os genes dos coronavírus, os pesquisadores analisaram os efeitos no DNA de seus hospedeiros humanos.

Ao longo de gerações, os vírus provocam enormes quantidades de mudanças no genoma humano. Uma mutação que protege contra uma infecção viral pode muito bem significar a diferença entre a vida e a morte, e será transmitida aos descendentes. Uma mutação que salva vidas, por exemplo, talvez permita que as pessoas dividam separadamente as proteínas de um vírus.

Mas os vírus também podem evoluir. As proteínas deles podem mudar de formato para superar as defesas do hospedeiro. E essas mudanças podem fazer com que o hospedeiro desenvolva ainda mais contraofensivas, levando a mais mutações.

Quando uma nova mutação aleatória acontece para proporcionar resistência a um vírus, ela pode rapidamente se tornar mais comum de uma geração para a outra. E outras versões desse gene, por sua vez, tornam-se mais raras. Portanto, se uma versão de um gene é dominante em relação a todas as demais em grandes grupos de pessoas, os cientistas sabem que muito provavelmente isso é uma marca evolutiva rápida do passado.

Nos últimos anos, Enard e seus colegas têm pesquisado o genoma humano para esses padrões de variação genética com o objetivo de reconstruir a história de uma série de vírus. Quando a pandemia de covid-19 surgiu, ele se perguntou se os antigos coronavírus teriam deixado uma marca distintiva própria.

Ele e seus colegas compararam o DNA de milhares de pessoas em 26 populações diferentes do mundo inteiro, analisando uma combinação de genes conhecidos por serem cruciais para os coronavírus, mas não para outros tipos de patógenos. Em populações da Ásia Oriental, os cientistas descobriram que 42 desses genes tinham uma versão dominante. Esse era um forte indício de que as pessoas naquela região se adaptaram a um antigo coronavírus.

Mas o que quer que tenha acontecido na Ásia Oriental parece ter se limitado àquela região. “Quando os comparamos com as populações ao redor do mundo, não conseguimos encontrar o indício”, disse Yassine Souilmi, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Adelaide, na Austrália, e coautor do novo estudo.

Os cientistas então tentaram calcular há quanto tempo os asiáticos dessa região tinham se adaptado a um coronavírus. Eles tiraram proveito do fato de que, uma vez que uma versão dominante de um gene começa a ser transmitida de geração em geração, ela pode se beneficiar de mutações aleatórias inofensivas. À medida que mais tempo se passa, mais dessas mutações se acumulam.

Enard e seus colegas descobriram que todos os 42 genes tinham aproximadamente o mesmo número de mutações. Isso significava que todos eles haviam evoluído rapidamente mais ou menos ao mesmo tempo. “Este é um indício que sem dúvida não devemos esperar [encontrar] por coincidência”, disse Enard.

Eles calcularam que todos esses genes desenvolveram suas mutações antivirais em algum momento entre 20.000 e 25.000 anos atrás, muito provavelmente ao longo de alguns séculos. É uma descoberta surpreendente, já que os asiáticos dessa região na época não viviam em grandes comunidades, mas, em vez disso, formavam pequenos grupos de caçadores-coletores.

Aida Andres, geneticista evolucionista da Universidade College London, que não participou do novo estudo, disse que achou o trabalho extremamente interessante. “Estou bastante convencida de que há algo por trás disso”, disse ela.

Entretanto, ela não acha que já seja possível fazer uma estimativa concreta de há quanto tempo a antiga epidemia ocorreu. “Calcular o momento exato é complicado”, disse ela. “Quer isso tenha acontecido alguns milhares de anos antes ou depois - eu pessoalmente acho que isso é algo que não podemos ser tão confiantes a respeito.”

Os cientistas que pesquisam medicamentos para combater o novo coronavírus talvez queiram examinar minuciosamente os 42 genes que evoluíram em resposta à antiga epidemia, disse Souilmi. “Na verdade, isso está nos indicando os botões moleculares para ajustar a resposta imunológica ao vírus”, disse.

Aida concordou, dizendo que os genes identificados no novo estudo devem receber atenção especial como alvos para medicamentos. “Você sabe que eles são importantes”, disse ela. “Isso é a coisa legal sobre a evolução.”/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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