GABRIELA BILÓ/ ESTADAO
GABRIELA BILÓ/ ESTADAO

Estudo sobre anticorpos de assintomáticos põe em 'xeque' testes rápidos de covid-19, diz cientista

'Não sabemos como interpretar adequadamente os resultados dos testes de anticorpos. E isso pode impactar a confiança nos estudos epidemiológicos que usam anticorpos para medir a prevalência da doença', afirma Ricardo Schnekenberg

Entrevista com

Ricardo Schnekenberg

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 18h07

A pesquisa que indicou a baixa presença de anticorpos em pacientes chineses que foram contaminados com o coronavírus Sars-CoV-2, mas ficaram assintomáticos traz dúvidas sobre a validade do chamado “passaporte de imunidade” e também sobre os resultados dos testes rápidos sorológicos que proliferam no Brasil. 

Para o médico e pesquisador Ricardo Schnekenberg, pós-doutorando da Universidade de Oxford, que tem analisado há mais de dois meses os resultados desses produtos, a pesquisa levanta muitas dúvidas sobre as inferências que se faz com esses testes. “Não sabemos como interpretar adequadamente os resultados dos testes de anticorpos. E isso pode impactar a confiança nos estudos epidemiológicos que usam anticorpos para medir a prevalência da doença na população”, disse em entrevista ao Estadão.

O estudo, divulgado na semana passada na revista Nature Medicinefez uma análise detalhada, tanto clínica quanto imunológica, de 37 pacientes chineses infectados com o coronavírus e que não apresentaram sintomas. A pesquisa apontou que os anticorpos IgG produzidos pelos assintomáticos eram significativamente mais baixos que os dos sintomáticos durante a fase aguda da infecção. São esses anticorpos que apontam uma resposta de longo prazo.

E de 8 a 12 semanas após a alta hospitalar, observou-se que os níveis de anticorpos neutralizantes (aqueles que de fato têm capacidade de neutralizar o vírus) diminuíram em 81,1% nos pacientes assintomáticos, em comparação com 62,2% dos pacientes sintomáticos.

Na entrevista a seguir, Schnekenberg explica que isso não quer dizer que os assintomáticos não terão uma resposta imunológica diante de uma eventual nova infecção e quais podem ser as implicações do trabalho.

Com esses resultados, é possível inferir que essas pessoas não terão resposta imune a uma nova infecção?

Não. Inclusive no estudo eles mediram a capacidade de neutralização do vírus entre os dois grupos e não parece haver diferença significativa. A questão é mais de detecção. Mas ainda assim não sabemos se a imunidade conferida por esses anticorpos neutralizantes é efetiva ou por quanto tempo ela dura.

O que é capacidade de neutralização?

Muitos anticorpos são apenas “marcadores”, embora eles existam não quer dizer que eles realmente tenham algum efeito imunológico no vírus. Um exemplo são os anticorpos contra o vírus HIV, que nos permitem fazer o diagnóstico da infecção, mas não conferem imunidade. Mas existem certos anticorpos que são considerados neutralizantes, pois quando adicionados com o vírus em uma cultura celular eles impedem (neutralizam) a infecção. Esses são os anticorpos que provavelmente mais se correlacionariam com o processo de imunidade observado in vivo.

E pra esses anticorpos, especificamente, não houve diferença, é isso?

Meu entendimento é que a capacidade de neutralização foi semelhante entre os grupos. Talvez não precisemos ter grande quantidade de anticorpos para conseguir neutralizar o vírus. De todo modo, ainda não temos dados observacionais de que pessoas com presença de anticorpos neutralizantes estejam realmente protegidas.

O que o estudo aponta é que a resposta imune é mais fraca, mas isso não significa que ela não exista, é isso?

Pacientes assintomáticos reagem de forma mais leve ao vírus. E isso faz sentido, já que os sintomas de uma infecção comumente não são da infecção em si, e sim do nosso sistema imunológico reagindo a ela. Isso não causa surpresa.

Com base nos resultados, os pesquisadores fazem um alerta para os chamados ‘passaportes de imunidade’. Quais são as implicações que você vê nesse trabalho?

Embora seja um estudo pequeno, esses resultados são muito importantes e levantam muitas dúvidas sobre o que inferimos quando realizamos testes de anticorpos. Não sabemos como interpretar adequadamente os resultados dos testes de anticorpos. E isso pode impactar a confiança nos estudos epidemiológicos que usam anticorpos para medir a prevalência da doença na população. Me chamou a atenção que na 2ª fase da pesquisa Epicovid19 (conduzida pela Universidade Federal de Pelotas em 133 cidades brasileiras), a cidade de Breves, no Pará, perdeu metade de sua prevalência de anticorpos em relação à primeira fase da pesquisa. Será que pode ser por causa dessa redução dos anticorpos em assintomáticos?

Essa pesquisa vem indicando que podemos ter cerca de 6 vezes mais infectados do que os números oficiais. Pela sua análise, então, podem ser ainda mais do que isso? Uma vez que o estudo sorológico pode ter muitos falsos negativos por causa desse ‘desaparecimento’ de casos.

Creio que sim, tanto pela baixa sensibilidade do teste em si, quanto por pacientes que nunca desenvolvem anticorpos em número suficiente e por esse possível fenômeno de “perda” de anticorpos nos pacientes assintomáticos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.