Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Estudo: UPAs já registravam óbitos de pacientes que deveriam estar em hospitais antes da pandemia

Levantamento com dados do Rio de Janeiro mostrou queda de 21% de mortes em hospitais após implantação dos equipamentos; pesquisadores estimam que casos migraram para unidades

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2021 | 19h00

Um levantamento sobre o impacto da implantação das unidades de pronto atendimento (UPAs) para pacientes, hospitais e municípios apontou que óbitos que ocorreriam nos hospitais migraram para as unidades após a instalação dos equipamentos. Esse movimento já ocorria mesmo antes da pandemia de covid-19. Segundo o estudo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) com dados do Estado do Rio de Janeiro, foi registrada queda de 21% nas mortes em hospitais após a inauguração de uma UPA próxima, mostrando uma realocação dos óbitos.

O Rio de Janeiro foi escolhido para o estudo por ter sido o Estado que, durante a implementação das UPAs, teve o ritmo mais acelerado de inaugurações. Assim, foi possível observar o contexto antes e depois da oferta do serviço, que teve início em 2008 no País, mas o Rio recebeu a primeira unidade em 2007. De acordo com dados de 2019, o Brasil tem mais de 500 UPAs. Os pesquisadores do IEPS analisaram um painel trimestral de 115 unidades e de todos os municípios do Rio de Janeiro no período de 2005 a 2016.

"O Rio realmente investiu neste modelo. A  expansão se deu de forma rápida entre 2007 e 2016, quase 70 unidades e mais de 30% dos municípios cobertos. A distância mediana até o pronto-socorro mais próximo caiu cerca de 25%. Teve ainda redução de 18% dos procedimentos ambulatoriais nos hospitais gerais com emergência próximos e de 31% nas internações sensíveis à atenção primária, como diabetes, hipertensão e infecção urinária. O total de óbitos em hospitais caiu 21% após a abertura de uma UPA próxima, mas pode refletir uma queda na demanda nos hospitais", explica Letícia Nunes, pesquisadora do IEPS e uma das autoras do estudo, que foi apresentado nesta terça-feira, 11, durante o evento online "As UPAs fazem bem à Saúde? – Como as Unidades de Pronto Atendimento impactam o desempenho hospitalar e a saúde da população".

Segundo ela, essas mortes foram realocadas nas UPAs. "Este número aparece espelhado para um aumento de mortes nas UPAs. Mas, olhando os dados por município, não houve redução de mortes por 100 mil habitantes." O dado positivo é que as estimativas apontam queda de 15% das mortes por hipertensão e insuficiência cardíaca com a chegada das unidades.

Durante a pandemia, as unidades passaram a receber pacientes graves que aguardavam por leitos em hospitais. Como mostrou o Estadão, 22 mil pessoas com covid-19 morreram nas unidades desde o início dos casos no País.

"Aqui, na situação da pandemia, a gente tinha uma capacidade de reação da atenção primária que, na ponta, poderia ter nos ajudado a orientar a população no dia a dia. Tem recursos para usar em uma ponta, na atenção primária, e 22 mil pessoas morrem na UPA por falta de coordenação", comenta Rudi Rocha, diretor de pesquisas do IEPS, também autor do estudo.

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