Rungroj Yongrit/EFE
Rungroj Yongrit/EFE

Pessoas assintomáticas com coronavírus podem ter resposta imune mais fraca

Oito semanas após alta hospitalar, observou-se que níveis de anticorpos neutralizantes diminuíram em 81,1% nos pacientes assintomáticos; isso não significa que a imunidade desaparece, mas põe em xeque ideia de 'passaporte imunológico'

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 04h41
Atualizado 22 de junho de 2020 | 13h56

Pessoas que foram infectadas com o coronavírus SARS-CoV-2, mas ficaram assintomáticas podem ter uma resposta imunológica mais fraca ao vírus. É o que sugere um artigo publicado na semana passada na revista Nature Medicine que fez uma análise detalhada, tanto clínica quanto imunológica, de 37 pacientes chineses infectados e que não apresentaram sintomas.

Os autores, liderados por Ai-Long Huang, compararam o grupo de assintomáticos com 37 pacientes com sintomas leves. Todos os 74 estavam internados em um hospital no distrito de Wanzhou, no sudoeste da China, e tinham sido diagnosticados com teste de PCR, que identifica a presença do vírus geneticamente. A China, onde surgiu a pandemia, adotou uma política de isolar os pacientes diagnosticados para controlar a disseminação da covid-19.

As análises apontaram que os anticorpos IgG produzidos pelos assintomáticos eram significativamente mais baixos que os dos sintomáticos durante a fase aguda da infecção. São eles que apontam uma resposta de longo prazo.

E de 8 a 12 semanas após a alta hospitalar, observou-se que os níveis de anticorpos neutralizantes (aqueles que de fato têm capacidade de neutralizar o vírus) diminuíram em 81,1% nos pacientes assintomáticos, em comparação com 62,2% dos pacientes sintomáticos.

O resultado, porém, não significa necessariamente que as pessoas possam voltar a ser infectadas. Mesmo níveis baixos dos anticorpos neutralizantes podem atuar de modo protetivo. O estudo não traz conclusões nesse sentido e alerta para a necessidade de pesquisas de mais longo prazo para definir quanto tempo dura a imunização contra a doença em pacientes já infectados.

‘Passaporte de imunidade’ em xeque

Mas o trabalho levanta um alerta ao indicar que pessoas assintomáticas que só fossem testadas, por exemplo, depois de 2 ou 3 meses da infecção, poderiam dar negativo em testes sorológicos. São eles que estão sendo usados em estudos no Brasil para tentar medir a taxa de prevalência da doença na população.

Os autores de fato argumentam que esse achado, juntamente com análises anteriores de anticorpos neutralizantes em pacientes em recuperação da covid-19, levanta preocupações em relação à validade de usar testes sorológicos para indicar pessoas supostamente já imunes à doença. 

“Esses dados podem indicar os riscos do uso de 'passaportes de imunidade' da covid-19 e apoiam o prolongamento de intervenções de saúde pública, incluindo distanciamento social, higiene, isolamento de grupos de alto risco e testes generalizados”, escrevem os pesquisadores. 

“Novos estudos sorológicos (que determinar a presença de anticorpos) longitudinais analisando mais indivíduos sintomáticos e assintomáticos são urgentemente necessários para determinar a duração da imunidade mediada por anticorpos. Além disso, baixos níveis de IgG anti-viral em pacientes assintomáticos, com maior probabilidade de se tornar soronegativos, apóiam ainda mais a necessidade de pesquisas para estudar a verdadeira taxa de infecção.”

Autoridades de saúde de alguns países, como a Alemanha, estão debatendo a ética e a viabilidade de se permitir que pessoas que tiveram um exame de anticorpos positivo circulem com mais liberdade do que as que não tiveram. 

Jin Dong-Yan, professor de virologia da Universidade de Hong Kong que não participou do grupo de pesquisa, disse que o estudo não nega a possibilidade de outras partes do sistema imunológico poderem oferecer proteção. Algumas células memorizam como lidar com um vírus quando são infectadas pela primeira vez e podem apresentar uma proteção eficiente se houver uma segunda rodada de infecção, disse. 

Cientistas ainda investigam se este mecanismo funciona para o novo coronavírus. "A descoberta neste estudo não significa que o céu está desabando", disse Dong-Yan, observando ainda que o número de pacientes estudados foi pequeno. / COM REUTERS

 

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