Matias Delacroix/ AP
Matias Delacroix/ AP

Estudos indicam razão para severidade reduzida da variante Ômicron: ela poupa os pulmões

"Podemos dizer que está emergindo a ideia de uma doença que se manifesta principalmente no sistema respiratório superior", disse Roland Eils, biólogo computacional do Instituto de Saúde de Berlim, que estudou como os coronavírus infectam as vias aéreas

Carl Zimmer e Azeen Ghorayshi, The New York Times

02 de janeiro de 2022 | 18h05

Uma série de novos estudos com animais de laboratório e tecidos humanos está apontando o primeiro indício da razão pela qual a variante Ômicron causa quadros menos graves do que versões anteriores do coronavírus.

Em estudos com camundongos e hamsters, a variante Ômicron produziu infecções menos nocivas, frequentemente limitadas apenas às vias aéreas superiores: nariz, garganta e traquéia. A variante afetou muito menos os pulmões, onde variantes anteriores costumavam causar dano aos tecidos e sérias dificuldades de respiração.

“Podemos dizer que está emergindo a ideia de uma doença que se manifesta principalmente no sistema respiratório superior", disse Roland Eils, biólogo computacional do Instituto de Saúde de Berlim, que estudou como os coronavírus infectam as vias aéreas.

Em novembro, quando os primeiros relatos da existência da variante Ômicron chegaram da África do Sul, os cientistas tinham apenas palpites quanto às suas diferenças de comportamento em relação a formas anteriores do vírus. Tudo que se sabia era que a Ômicron apresentava uma combinação distinta e alarmante de mais de 50 mutações genéticas.

Pesquisas anteriores tinham mostrado que algumas dessas mutações permitiriam que os coronavírus aderissem mais firmemente às células. Outras possibilitaram que o vírus evitasse os anticorpos, que atuam como primeira linha de defesa contra a infecção. Mas o comportamento da nova variante dentro do corpo era um mistério.

“É impossível prever o comportamento dos vírus com base apenas nas suas mutações", disse Ravindra Gupta, especialista em vírus da Universidade de Cambridge.

Ao longo do mês passado, mais de uma dezena de grupos de pesquisa, incluindo o de Gupta, vêm observando o novo patógeno em laboratório, infectando células em placas de Petri com a Ômicron e borrifando o vírus no nariz de animais.

Enquanto esse trabalho era feito, a variante Ômicron se disseminou pelo planeta, prontamente infectando até quem já tinha se vacinado ou se recuperado de uma infecção anterior.

Mas, com a explosão no número de casos, as hospitalizações apresentaram apenas uma pequena alta. Estudos iniciais com pacientes indicaram que a variante Ômicron era menos propensa a causar quadros graves do que outras variantes, especialmente entre os já vacinados. Ainda assim, essas conclusões envolviam uma série de poréns.

Para começar, a maior parte das primeiras infecções pela variante Ômicron ocorreu entre jovens, que costumam adoecer menos quando contraem alguma versão do vírus. E muitos desses primeiros casos eram observados em pessoas que já apresentavam alguma imunidade, seja por já terem se infectado antes ou por terem se vacinado. Não se sabia se a variante Ômicron também se mostraria menos grave no caso de infectar uma pessoa mais velha e não vacinada, por exemplo.

Experimentos envolvendo animais podem ajudar a esclarecer essas ambiguidades,  pois os cientistas podem testar os efeitos da variante Ômicron em animais idênticos vivendo sob condições idênticas. Mais de uma dezena de experimentos divulgados nos dias mais recentes indicam a mesma conclusão: a variante Ômicron é mais branda do que a Delta e outras versões anteriores do vírus.

Na quarta feira, um grande consórcio de cientistas japoneses e americanos divulgou um relatório a respeito de camundongos e hamsters infectados com a variante Ômicron ou alguma das muitas variantes anteriores. Os infectados pela variante Ômicron apresentaram menos danos nos pulmões, menos perda de peso e menor risco de morte, de acordo com o estudo.

Embora os animais infectados com a variante Ômicron tenham em média apresentado sintomas muito mais brandos, os cientistas ficaram particularmente surpresos com os resultados observados entre os hamsters sírios, espécie conhecida por adoecer gravemente com todas as versões anteriores do vírus.

“Foi surpreendente, já que todas as demais variantes produziram uma robusta infecção nesses hamsters", disse o Dr. Michael Diamond, especialista em vírus da Universidade Washington e coautor do estudo.

Vários outros estudos envolvendo camundongos e hamsters chegaram à mesma conclusão (como ocorre com as pesquisas mais urgentes a respeito da variante Ômicron, tais estudos foram publicados online, mas ainda não foram publicados em revistas científicas).

A razão pela qual a variante Ômicron produz quadros mais brandos pode ser uma questão de anatomia. Diamond e seus colegas descobriram que o nível da variante Ômicron presente no nariz dos hamsters era igual ao de animais infectados com formas anteriores do coronavírus. Mas os níveis da variante Ômicron nos pulmões eram um décimo do de outras variantes, ou ainda inferiores.

Uma descoberta semelhante veio de pesquisadores da Universidade de Hong Kong, que estudaram fragmentos de tecido removidos de vias aéreas humanas durante cirurgia. Em 12 amostras pulmonares, os cientistas descobriram que a variante Ômicron se desenvolvia mais lentamente do que a Delta e outras variantes.

Os pesquisadores também infectaram tecidos dos brônquios, os dutos no peito que transportam o ar da traqueia até os pulmões. E, dentro dessas células bronquiais, nos primeiros dois dias após a infecção, a variante Ômicron se desenvolveu mais rapidamente do que a Delta ou a cepa original do coronavírus.

Tais descobertas devem ser acompanhadas em novos estudos, como experimentos em macacos ou o exame das vias aéreas de pessoas infectadas com a variante Ômicron. Se os resultados forem consistentes, isso pode explicar por que pessoas infectadas com a variante Ômicron parecem menos propensas a desenvolver um quadro exigindo hospitalização do que os infectados com a Delta.

A infecção pelo coronavírus começa no nariz ou possivelmente na boca, espalhando-se garganta abaixo. As infecções mais fracas não costumam ir além disso. Mas, quando o coronavírus chega aos pulmões, o estrago pode ser grande.

As células imunológicas nos pulmões podem reagir de maneira exagerada, matando não apenas as células infectadas, mas também as saudáveis. Podem produzir uma inflamação descontrolada, afetando a delicada superfície das paredes pulmonares. Pior, o vírus pode escapar do pulmão afetado e chegar à corrente sanguínea, desencadeando a formação de coágulos e atacando outros órgãos.

Gupta suspeita que os novos dados de sua equipe apresentam uma explicação molecular para o fato de a variante Ômicron não se desenvolver tanto nos pulmões.

Muitas células nos pulmões apresentam na sua superfície uma proteína chamada TMPRSS2, que pode inadvertidamente facilitar o acesso do vírus à célula. Mas a equipe de Gupta descobriu que esta proteína não adere muito bem à variante Ômicron. Como resultado, a variante Ômicron tem menos sucesso do que a Delta ao infectar as células dessa maneira. Em estudo independente, uma equipe da Universidade de Glasgow chegou à mesma conclusão.

Por meio de uma rota alternativa, o coronavírus também pode invadir células que não produzem a TMPRSS2. Na parte mais superior das vias aéreas, as células não costumam apresentar essa proteína, o que pode explicar as evidências segundo as quais a variante Ômicron é mais frequentemente encontrada nessas vias do que nos pulmões.

Gupta especulou que a variante Ômicron teria se especializado para infectar as vias aéreas superiores, prosperando na garganta e no nariz. Se isso for verdadeiro, o vírus pode ter mais chance de ser disseminado em pequenas gotículas pelo ar ao redor e encontrar novos hospedeiros.

“A transmissão ocorre principalmente por causa do que acontece nas vias aéreas superiores, certo?” disse ele. “Não é decorrência do que ocorre mais a fundo, nos pulmões, onde os quadros mais graves se originam. Então, podemos entender por que o vírus evoluiu dessa maneira.”

Ainda que esses estudos claramente ajudem a explicar por que a variante Ômicron provoca infecções mais brandas, eles ainda não respondem por que a variante se espalha tão facilmente de uma pessoa para outra. Os Estados Unidos registraram mais de 580 mil casos somente na quinta feira, e acredita-se que em sua maioria sejam casos da variante Ômicron. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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