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Eu sei que você sabe

Essa tragédia não é uma pessoa ou força consciente que tenha qualquer intenção, seja de nos castigar, aprimorar ou ensinar qualquer coisa.

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 05h00

A humanidade será melhor depois da pandemia. Não necessariamente por causa dela. Muitas vezes me perguntam o que a pandemia pode ensinar para a humanidade. Minha resposta é uma só: nada. Essa tragédia não é uma pessoa ou força consciente que tenha qualquer intenção, seja de nos castigar, aprimorar ou ensinar qualquer coisa.

E ainda assim sairemos melhores. Simplesmente porque a humanidade melhora um pouco a cada dia. Ainda restam muitos e graves problemas. Mas para quase qualquer parâmetro de qualidade de vida que voltemos nossos olhos, iremos perceber que avançamos com o tempo.

Mortalidade infantil, óbitos por parto, cobertura vacinal, segurança alimentar, renda média per capita, mortes violentas, acidentes de trabalho, a lista poderia continuar. Mesmo com retrocessos eventuais, motivados por políticas desastradas ou governantes ineptos, no balanço geral o mundo caminha em frente por causa de você e de mim, que trabalhamos diariamente para as coisas melhorarem.

Sim, o ano que vem será melhor; como seria independentemente do vírus. Até porque costumo dizer que a única coisa que a história nos ensinou é que não aprendemos nada com a história. Mas será possível aproveitar a pandemia de algum modo? Ainda que ela mesma não queira nos ensinar nada, não teríamos capacidade de aprender algo? Talvez. Porque agora sei que você sabe que eu sei que você sabe que há problemas a serem resolvidos.

Como digo desde o começo, a pandemia revela mais problemas do que causa. Pensemos na questão de diferença de gêneros. No Brasil e no mundo, a produtividade das cientistas mulheres despencou naquarentena, ao contrário do que ocorreu com cientistas homens. “Puxa vida, que coisa. Quer dizer que as mulheres são sobrecarregadas com afazeres domésticos?”. É evidente que essa questão não surgiu agora – só se tornou mais grave. Ou veja o emblemático caso do Enem: houve gritaria para cancelá-lo esse ano. Por quê? Porque as escolas públicas não conseguiram manter o ensino da mesma forma que as particulares, tornando a disputa injusta. “Que absurdo. Mas antes da pandemia a disputa era em pé de igualdade?”. Outro problema que já estava aí, claro. O que aconteceu agora é que ganhou as manchetes.

Todo mundo sabia que havia desigualdade de gênero e déficit no ensino público, para ficar nos dois exemplos. (Mas o raciocínio se aplica a todos os problemas que ganharam manchetes, da falta de suporte para idosos à baixíssima capacidade de poupança do brasileiro, passando pela violência doméstica, etc). A diferença é que agora todo mundo sabe que todo mundo sabe. E todo mundo sabe disso. E assim por diante. É a beleza do conhecimento comum: ao contrário do conhecimento compartilhado, em que todos têm a mesma informação, quando algo é público não só todos têm a informação, mas todos sabem que todos sabem disso. O que pode ser transformador em termos sociais.

Lembremos da fábula sobre a roupa nova do imperador. Ludibriado por alfaiates espertos, ele sai nu desfilando pela rua, e embora todas vissem, ninguém se manifestava, já que corria à boca pequena que só os burros não enxergavam suas vestes. Quando a criança grita que o imperador está pelado, não diz nada de novo. Só que agora o fato se tornou púbico, todos sabem que todos sabem, o que acaba com a farsa, obrigando o monarca a cobrir suas vergonhas.

A pandemia é como a criança. Transformou em tópicos de discussão alguns grandes problemas sobre os quais preferíamos não falar. E assim como aconteceu com a população em volta do imperador, não dá mais para fingir que não os vimos. Não sei quão transformadoras tais revelações podem ser. Mas não convém subestimar a força desse conhecimento compartilhado. É ele que está por trás de fenômenos tão distintos como a primavera árabe, os protestos de 2013 ou as denúncias das mulheres abusadas pelo médium João de Deus. Quando sei que todo mundo sabe, e todo mundo sabe que todo mundo sabe, mudanças entram em marcha.

E agora todos sabemos. E sabemos disso. Não convém subestimar a força do conhecimento compartilhado.

*É PSIQUIATRA 

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