AP Photo/Eugene Hoshiko
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EUA autorizam a venda de aparelho de tabaco aquecido

Regulação é igual à de cigarros, mas já se admite que produto pode ajudar quem não consegue parar de fumar; especialistas criticam

Redação, THE NEW YORK TIMES

03 de maio de 2019 | 03h00

A Food and Drug Administration (FDA) passou a permitir a venda do IQOS, um aparelho de tabaco aquecido – ou cigarro aquecido – pela Philip Morris International, nos Estados Unidos. Embora a agência, responsável por regular drogas e medicamentos, tenha suspendido as declarações de que o aparelho era mais seguro do que os cigarros tradicionais, admitiu que esse item pode ajudar as pessoas a parar de fumar – o que ainda é contestado por especialistas em saúde.

A Philip Morris esperou dois anos para que a agência liberasse o IQOS, um dispositivo semelhante a uma caneta, que vem em uma caixa elegante, parecida com um pacote de cigarros. O produto inclui uma lâmina eletrônica, que aquece uma vareta de tabaco e libera um vapor com o sabor do produto, mas com menos substâncias químicas nocivas do que a fumaça do cigarro. É diferente dos produtos eletrônicos já existentes no mercado porque contém tabaco em vez de nicotina líquida. Mas o IQOS ainda fornece uma quantidade de nicotina similar à dos cigarros tradicionais.

“A decisão da FDA de autorizar o IQOS nos Estados Unidos é um passo importante para os cerca de 40 milhões de homens e mulheres americanos que fumam”, disse André Calantzopoulos, diretor executivo da Philip Morris International. “Alguns vão desistir. A maioria não, e para eles o IQOS oferece uma alternativa sem fumo para continuar fumando.” Howard A. Willard III, diretor-executivo da Altria, que distribuirá o produto naquele país, disse que a empresa planeja iniciar as vendas de IQOS em Atlanta.

No Brasil, porém, não há nem previsão de análise pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “A gente entende que é importante que existam critérios de avaliação desses produtos. O que existe hoje é a recusa de sequer avaliar”, disse ao Estado, Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris, para quem há uma “barreira ideológica” sobre o assunto. 

“No Brasil, infelizmente, andamos de maneira bastante lenta. (Sem a liberação) os fumantes brasileiros vão continuar fumando, ficando aprisionados ao pior tipo que é o cigarro combustível”, afirmou Vieira.

Jovens

Nos EUA, A FDA disse que não parece que os dispositivos IQOS, que serão vendidos com as barras comuns e mentoladas da marca Marlboro, atrairão pessoas mais jovens. No Japão e na Itália, onde já existe um uso disseminado desse tipo de produto, os aparelhos não atraíram o uso entre adolescentes, e o item não é vendido em sabores, com exceção do mentol. Atualmente, o produto é legalizado em 47 países. 

Para impedir as vendas do IQOS para menores, a agência disse que a empresa teria de submeter seus planos de publicidade e marketing para revisão. A FDA disse também que ainda considera o IQOS um tipo de cigarro, mesmo liberando menos produtos químicos tóxicos. Essa designação significa que deve seguir a mesma publicidade e outras restrições federais. Além disso, a Philip Morris deverá incluir um rótulo advertindo que a nicotina é viciante.

A maioria dos grupos de saúde pública criticou a decisão da FDA. “Inalar produtos químicos, e levar toxinas aos pulmões, sempre representa riscos”, disse Erika Sward, vice-presidente assistente da American Lung Association. Embora as taxas de tabagismo tenham diminuído, cigarros ainda matam cerca de 480 mil pessoas todos os anos. A FDA alertou a Philip Morris que ela continua sujeita a severa análise, apesar de ter recebido permissão para vender os aparelhos.

Vetado no Brasil, produto custa R$ 1.899 em sites

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já tem um alerta sobre produtos de tabaco aquecido, ou cigarro aquecido, como o IQOS. “Não há provas científicas que demonstrem que são menos nocivos. Alguns estudos financiados pela indústria tabagista afirmam que há importantes reduções na formação e exposição a elementos nocivos", diz o texto oficial. "Mas são necessários outros estudos independentes para fundamentar afirmações de risco e dano reduzido."

Embora seja vetado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o produto já é anunciado em sites brasileiros por preços que chegam a R$ 1.899. Em 2017, a Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou um alerta sobre o uso desses produtos, na mesma linha da OMS. A popularização dos produtos também tem preocupado organizações no exterior. Em março, organizações de saúde e sociedades científicas de Portugal apontaram “não existir um nível de segurança para o uso do cigarro”. 

“Faltam estudos com essa população, que aderiu em massa no Japão e na China. Vamos ter condição de ter uma resposta daqui a alguns anos. Hoje, sou partidária do cigarro aquecido não ser liberado”, diz Jaqueline Scholz, cardiologista e coordenadora da área de cardiologia do Programa de Tratamento ao Tabagismo do Incor. “O cigarro aquecido inibe a vontade que o fumante tem de parar de fumar. Dá uma suposta ideia de segurança.”/ COM TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO; COLABOROU PRISCILA MENGUE

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