Claudio Furlan/LaPresse via AP
Claudio Furlan/LaPresse via AP

Europa, de olho na quarentena decretada na Itália, planeja novas medidas

França e Alemanha vem realizando reuniões de emergência a fim de encontrar respostas para a epidemia; há receio de que outros países do continente adotem medidas drásticas como a da Itália

Mark Landler, The New York Times

09 de março de 2020 | 11h31

LONDRES - Na Itália, o confinamento generalizado do norte do país repercutiu por toda a Europa no domingo, aumentando o temor de medidas similarmente draconianas por Londres a Berlim, com as autoridades lutando para de algum modo diminuir a rápida propagação do novo coronavírus em várias das sociedades mais abertas e democráticas do mundo.

Até o momento, nenhum outro país europeu foi tão atingido pelo vírus como a Itália. Mas com os casos confirmados chegando a mais de mil na França e 900 na Alemanha, os dois países suspenderam reuniões públicas com grande número de pessoas e seus líderes vêm realizando reuniões de emergência para estudar de que modo intensificar a resposta à epidemia.

A decisão da Itália de colocar em quarentena um quarto da sua população, paralisando seu centro econômico e afetando a vida de 15 milhões de pessoas, tem repercussões na economia de toda a Europa, uma vez que as montadoras alemãs ficarão privadas de peças cruciais, fábricas em outras partes do continente serão obrigadas a fechar e a situação deve levar o continente a uma recessão, segundo analistas.

E é também um teste da unidade da Europa, já abalada com a saída da Grã-Bretanha do bloco, há seis semanas. Em Bruxelas, as autoridades apelaram, sem resultado, à França, Alemanha e República Checa para suspenderem seus controles das exportações de equipamentos médicos de proteção estabelecidos para evitar uma escassez no plano doméstico. Na Grã-Bretanha, as lojas já começam a impor racionamentos.

Até agora, a Itália está sozinha como zona de perigo na Europa, o primeiro país ocidental a ser afetado por uma epidemia em larga escala do vírus originário da China. Mas à medida que o número de casos confirmados aumenta em praticamente todos os países vizinhos, a nação agora parece menos uma exceção assustadora e mais um presságio do que pode vir a ocorrer.

As disputas revelam as limitações da União Europeia para enfrentar uma crise de saúde pública que atinge um continente inteiro. A saúde é uma área que compete aos Estados membros. Com sistemas de saúde diferentes, como também diferentes níveis de infecção, os países é que determinam suas próprias respostas à epidemia.

A epidemia já vem perturbando a vida cotidiana na Europa de modo importante ou menor. O Banco Central Europeu, que deverá injetar recursos no sistema financeiro esta semana para amortecer o abalo provocado pelo vírus, manteve a maior parte dos seus 3,5 mil funcionários em casa para testar como lidará com a situação.

 A cadeia de supermercados britânica Tesco começou a racionar sabonetes antibacterianos, lenços e massas depois que os clientes esvaziaram as prateleiras, uma mostra inusitada do nervosismo em uma sociedade que se orgulha do seu sangue-frio.

“Estamos vendo na Itália que as autoridades reconheceram o fracasso do isolamento decretado e que o vírus vem se propagando”, disse Devi Sridhar, diretor do programa de governança de saúde global na universidade de Edimburgo. “Você vai observar esta resposta em qualquer país europeu onde as autoridades poderão programar esses bloqueios.”

Na Alemanha, onde o governo adotava uma estratégia mais prática para conter o coronavírus, o ministro da saúde mudou de tática, insistindo para que grandes eventos sejam anulados ou adiados, mas não estabeleceu uma proibição formal como a imposta no mês passado pela Suíça.

Até agora, nenhuma morte ocorreu na Alemanha, mas o número de casos saltou para 903 no domingo. O que, aparentemente, foi suficiente para as autoridades revisarem sua prática de deixar para as autoridades regionais e locais aprovarem ou não a realização de eventos e confiar que os cidadãos adotarão uma decisão sensata a respeito.

“Eu incentivo de maneira enfática que eventos com mais de mil pessoas sejam anulados até um novo aviso”, declarou o ministro da Saúde Jens Spahn, à agência de notícias DPA, citando “os acontecimentos dos últimos dias”.

Na França, onde já ocorreram 19 mortes e 1.126 pessoas foram infectadas, o governo proibiu reuniões com mais de mil pessoas. Escolas foram fechadas em duas regiões (Oise e Haut-Rhin) fortemente atingidas pelo vírus.

No domingo, o presidente Emmanuel Macron se reuniu com seu conselho de defesa, preparando o país para entrar no Estágio Três de preparação de combate da epidemia. O que incluirá a implementação de protocolos de proteção à saúde mais rigorosos para evitar uma sobrecarga dos hospitais, mantendo as pessoas com sintomas menos graves em casa.

A França também adotou medidas para garantir seus suprimentos médicos, mantendo máscaras faciais, gel para as mãos e outros produtos de proteção dentro do país, não obstante os apelos feitos pelas autoridades em Bruxelas para o país compartilhar seus estoques com outras nações europeias. 

Com notícias de que máscaras estavam sendo roubadas de hospitais e um aumento nos preços de equipamentos essenciais como álcool em gel, autoridades entraram em alerta. As proibições de exportações de máscaras e outros equipamentos de proteção “podem corroer nosso enfoque coletivo no enfrentamento da crise”, afirmou Janez Lenarcic, comissário de gestão de crises da União Europeia.

A Espanha, que reportou 13 mortes e mais de 500 casos, também resistiu a adotar uma resposta mais abrangente. As autoridades proibiram alguns grandes eventos, como a maratona de Barcelona. Mas outros foram realizados, incluindo manifestações em Madri e outras cidades em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. E o governo não ordenou o fechamento das escolas.

“Não temos uma situação aqui na Espanha onde, em nível de país, estamos numa situação de transmissão geral e descontrolada”, disse Fernando Simón, chefe do centro de coordenação da Espanha para alertas e emergências de saúde.

Alguns especialistas europeus afirmam que o fechamento de partes inteiras dos países implica um custo econômico que pode ser maior do que o risco da epidemia à saúde. Eles estão preocupados de que o recente sucesso da China no controle da epidemia, depois de estabelecer uma quarentena na cidade de Wuhan e na província de Hubei, isso venha a encorajar mais países a adotarem medida similar.

“Vivemos hoje num mundo onde vírus como este surgirão cada vez com mais freqüência”, afirmou François Bricaire, membro da Academia de Medicina da França e especialista em doenças infecciosas. “Se, a cada evento desse tipo, os países reagirem desta maneira, levaremos a economia inteira a um colapso”. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.