Evidência contra violência

Médico decidiu enfrentar o problema em Cali com as armas da epidemiologia

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2018 | 03h00

Quem ainda gosta de ler no papel certamente se lembra de um tipo de loja comum no passado, chamada carinhosamente de armarinho. Eram pequenos estabelecimentos dedicados a produtos de costura, linhas, agulhas, dedais, carretéis. Embora esse comércio não tenha tido o mesmo impacto das especiarias na história do mundo, houve um dono de armarinho no Reino Unido que marcou os rumos da ciência, cujo conhecimento poderia bem nos ajudar diante de alguns grandes desafios nacionais.

No século 17, o rei Carlos II, da Inglaterra, preocupado com a peste bubônica, precisava criar uma maneira de identificar e alertar a população para a propagação da doença. Foi quando John Graunt, dono de um armarinho, escreveu um livro no qual descrevia as causas de morte na cidade. Publicado em 1662, o Natural and Political Observations Made Upon the Bills of Mortality (Observações Naturais e Políticas Feitas sobre as Notificações de Mortalidade) mostrava várias tendências de comportamento das doenças, criava uma das primeiras tábuas de mortalidade (aquelas tabelas que mostram a probabilidade de morte conforme a idade) e, com base em evidências, confirmou – e negou – teorias sobre diversas doenças. Surgia a epidemiologia.

Embora a palavra epidemia nos remeta a doenças contagiosas, a epidemiologia estuda a distribuição das doenças, contagiosas ou não, e também da saúde, levantando fatores de risco e de proteção nas populações. Trata-se de uma ciência complexa e com muitas implicações – ela foi fundamental, por exemplo, para estabelecer a ligação entre fumo e câncer de pulmão. E ajudou a derrubar a violência urbana em algumas das cidades mais violentas da Colômbia.

Na década de 1990, o médico PhD em Epidemiologia por Harvard Rodrigo Guerrero Velasco assumiu a prefeitura de Cali quando a taxa de homicídio na cidade era de 124 pessoas a cada 100 mil. Velasco decidiu enfrentar o problema com as armas da epidemiologia. Começou investindo no levantamento de dados estatísticos, mapeando os homicídios e extraindo informações até então inéditas com base neles.

A primeira coisa que descobriu foi que políticos, médicos, policiais, juízes e promotores tinham conceitos diferentes sobre violência. Estabeleceu, então, reuniões semanais para unificar discursos e esforços. Com o tempo, um padrão ficou claro: tanto os homicidas como suas vítimas eram homens jovens, desempregados, com baixo nível de educação, envolvidos em brigas de gangue nas periferias.

Dois terços dos assassinatos aconteciam nos fins de semana, 80% com armas de fogo, e mais da metade das vítimas havia se embriagado. Surgiram, assim, propostas com base em evidências, não apenas em palpites ou ideologias. Proibiu-se o porte de armas de fogo em determinados dias e locais. A venda de álcool foi restrita até as 2 horas. Diante da resistência dos donos de bares, propuseram um teste por três meses – se não houvesse resultado, voltariam atrás. Em duas semanas, o impacto foi tão grande que a política se tornou irreversível. 

Ficou claro também que o narcotráfico não era o responsável direto pela maioria das mortes. Sua atuação violenta, contudo, enfraquecia as instituições e desagregava a sociedade, criando um ambiente marcado pela violência e pela perda de coesão social, elevando as taxas de mortalidade. Aumentaram, então, a presença do Estado nas periferias, reconstruíram parques, estabeleceram escolas e hospitais. Promoveram treinamentos de habilidades parentais e resolução de conflitos de forma não violenta. Resultado: em três anos, os homicídios caíram de 124 para 86 por 100 mil habitantes.

É claro que não se pode apenas importar as soluções da Cali dos anos 1990 para o Rio de Janeiro de 2018. O próprio Velasco, premiado mundialmente por seus resultados, afirma que não há soluções universais – elas têm de ser definidas com base no diagnóstico de cada realidade. Então é isso que deveríamos imitar: deixar de lado os argumentos políticos e ideológicos para nos basear em evidências científicas, pelo menos dessa vez. Não faltam epidemiologistas de primeira linha no Brasil. Só falta serem consultados pelos políticos.

É PSIQUIATRA

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