Evidências da quarentena
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Evidências da quarentena

Prática foi iniciada no século 14 pelos italianos quando os navios chegavam no porto de Veneza vindo de locais infectados e, assim, ficavam 40 dias ancorados até restarem os sobreviventes

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 05h00

Quarentena é uma das ferramentas mais antigas e eficazes para combater doenças transmissíveis, como apontam os doutores Smith e Freedman, em análise feita em março de 2020 em uma publicação médica, o Journal Travel Medicine. Esta prática foi iniciada no século 14 pelos italianos quando os navios chegavam no porto de Veneza vindo de locais infectados e, assim, ficavam 40 dias ancorados até restarem os sobreviventes.

Esta metodologia tem por definição a restrição de movimento de pessoas que se presume terem sido expostas a uma doença contagiosa, mas não estão doentes, porque não foram infectadas ou ainda estão no período de incubação. Os países em que a quarentena foi implementada reduziram o número exacerbado de casos e viveram situações mais confortáveis.

Para mostrar a melhor maneira de sairmos do aumento da curva de casos é preciso se basear em evidências cientificas sérias. A Cochrane, órgão internacional que tem como missão elaborar, manter e divulgar revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados, o melhor nível de evidência para as decisões em saúde, nos revela em abril um artigo que inclui 29 estudos que apontam o que a maioria de médicos, órgãos de classe, sociedades científicas e governantes sérios têm dissertado: a quarentena é mais efetiva e tem menor custo quando iniciada cedo. 

A questão econômica que envolve a quarentena é um obstáculo na implementação mais efetiva e todos somos sabedores desta situação. Uma nação para prosperar e seguir de modo linear precisa apresentar recursos financeiros e giro de capital. A falta de dinheiro para colocar alimento na boca da família, em famílias carentes, faz com que esta quarentena seja falseada, o que traz impacto negativo sobre o pico da curva de novos casos e uma maior possibilidade de óbitos em países em desenvolvimento, em especial no Brasil.

O diretor-geral da Organização Mundial de saúde (OMS), Tedros Adhanom, em uma de suas falas à imprensa, comenta que a curva cresce rápido, mas diminui muito mais devagar. Quer dizer que um deslize durante uma semana pode ser nocivo e perpetuar o impacto que causará. Afrouxar o processo pode refletir no colapso da rede hospitalar, sobretudo na área pública, onde já se nota lotação nas unidades de terapia intensiva beirando os 100% nas principais localidades. 

Outro ponto de destaque na quarentena nestes mais de 60 dias de confinamento é o aumento de casos de obesidade tanto na população adulta quanto pediátrica. As pessoas não têm seguido regras alimentares, fazendo uso de alimentos mais calóricos. Devemos nos policiar para que o pós-pandemia não apresente danos maiores. Nesta mesma linha de pensamento, a ingestão de bebida alcoólica apresentou incremento considerável como muitos médicos têm visto, e vêm sendo feitos alertas à população para que não se intensifique este consumo. 

A saúde mental também tem sido um fator importantíssimo na quarentena. Um maior consumo de ansiolíticos e até casos de suicídio têm ocorrido. A depressão que já era a patologia do século, com a pandemia, vem forte em muitas famílias. Aqui se observa especialmente nos idosos que têm certa dificuldade em aceitar este tipo de situação. Esta população de risco é a que mais tem de estar em quarentena por apresentar doenças preexistentes. 

Para combater e amenizar a quarentena é permitida a realização de exercícios físicos, até porque muitas pessoas por apresentarem riscos cardiovasculares devem realizar esta atividade pelo menos 30 minutos diariamente em modo de caminhada. Isto é saudável e, portanto, não é contraindicado. O que não se permite em tempos de quarentena são aglomerações por razões óbvias de contágio e transmissibilidade. Assim se a caminhada for feita em ambiente aberto e seguindo o distanciamento de pelo menos dois metros está aprovada. O problema é que as pessoas querem sair acompanhadas para esta atividade, ir a parques públicos, ficando, assim, inviável do ponto de vista de pandemia. Outros esportes que sejam praticados em ambientes abertos também são encorajados tais como a corrida, ciclismo, golfe, dentre tantos outros. A prática de outras modalidades esportivas neste momento não deve ser permitida pelo contato físico. Infelizmente a paixão nacional, o futebol, deverá ainda demorar a retornar – a reintegração poderá ser feita quando os casos ficarem mais isolados. 

A população terá de se doar um pouco mais para que possamos sair desta pandemia com número menor de óbitos e casos positivos. Uma ação coordenada e bem estruturada fará com que não sigamos o lockdown (fechamento geral) aqui na cidade de São Paulo. Nenhum governante gostaria de determinar tal ato, mas, se for necessário, os especialistas recomendarão, obviamente. Esta medida de contenção reflete situações ruins, que podem levar a multas e prisões, gerando conflitos que não queremos. 

Vamos todos fazer nossa parte, nos policiando, saindo em necessidades essenciais, com máscaras caseiras para proteção, manter as medidas de lavagem adequada de mãos e uso do álcool em gel a 70% e assim vencer a covid-19, visto que não temos ainda de perto uma vacina eficaz e segura. O melhor ainda é ficar em casa e confiar nos médicos. Contamos com todos.

*EX-PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA

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