MARK NAFTALIN//UNICEF/AP
MARK NAFTALIN//UNICEF/AP

Evitando a próxima epidemia

Surto de ebola no Congo pode ser contido. Mas, se não for, a doença pode se propagar exponencialmente

The Economist

27 Maio 2018 | 03h31

CONGO - Numa sala fria e escura de um gabinete do governo em Mbandaka, uma cidade tranquila de 1 milhão de habitantes às margens do Rio Congo, Marie-Claire Therèse Fwelo transmite seus conhecimentos mais valiosos para um grupo de 80 agentes de saúde. “O que procuramos?”, pergunta ela à classe. E eles respondem em uníssono: “Uma febre brutal”. E o que mais? “Alguém que esteve em contato com um paciente com ebola”, diz um deles.

Este é o nono surto da doença enfrentado pela congolesa Marie-Therèse, de 73 anos, funcionária da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 1976, ela atuava como enfermeira em um hospital quando a febre foi isolada pela primeira vez. Desde então, se tornou uma especialista no controle da epidemia. Mas este surto é o mais alarmante que ela vivenciou em seu próprio país. Muitos casos anteriores de ebola na República Democrática do Congo ocorreram em cidades remotas onde a doença se propagou rapidamente.

Desta vez, o vírus se disseminou pela principal artéria do país, o Rio Congo. A pouco mais de 600 quilômetros está Kinshasa, a capital e terceira maior cidade da África, com 13 milhões de habitantes. Do lado oposto está Brazzaville, capital da República do Congo. “Em um barco você pode ter 1.500 passageiros”, diz ela. “Já morreram 27 pessoas.” 

Este é o segundo surto em que a doença alcança cidades grandes. Da vez anterior em que isso ocorreu foi durante a pandemia na África Ocidental, em 2014-2015, que se espalhou rapidamente, matando mais de 11 mil pessoas. Muitos dos que morreram eram da Guiné, Serra Leoa e Libéria, mas casos foram registrados na América e na Europa, acarretando a proibição de voos. Na época, o turismo e as economias locais desmoronaram. 

O ebola não é, na verdade, uma doença particularmente contagiosa. O vírus só é transmitido pelo contato direto com fluidos corporais de alguém que tem os sintomas; não se propaga pelo ar, como uma gripe comum. Mas é mortal. A epidemia da doença na África Ocidental matou mais de 70% dos infectados.  

Organizações de ajuda estrangeiras, governos e a OMS esperam conseguir conter a propagação da doença antes de ela atingir Kinshasa. Se falharem, esta epidemia poderá ser tão letal como a que aconteceu na África Ocidental. 

Há muitas razões para otimismo. O Congo, que sofreu oito surtos anteriores, alertou rapidamente a OMS quando os primeiros casos foram confirmados em 8 de maio em Bikoro, uma região distante ao sul de Mbandaka. E a resposta também foi rápida. Os hotéis da região já estão tomados por trabalhadores da OMS, da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outras entidades. 

Quase 8 mil doses de uma vacina experimental, testada pela primeira vez em 2015, na Guiné, foram enviadas para a cidade de Kinshasa. Em 21 de maio, enfermeiros começaram a vacinar os trabalhadores da saúde, motoristas de ambulâncias, padres e pessoas que tiveram contato com infectados. Isso deve retardar o avanço da doença, mas ainda será necessário um trabalho minucioso de rastrear as pessoas que foram expostas ao vírus e precisam ser isoladas e tratadas antes de infectarem outras. Mas, se não houver um controle da doença, as vítimas dela continuarão contagiando outras e o número de afetados pode crescer exponencialmente. 

Reunir dados sobre o número d infectados, sem falar no seu isolamento, é excepcionalmente difícil no Congo, um país enorme e terrivelmente disfuncional, onde são poucos os que confiam no governo. “Muito do que sabemos no momento são histórias”, afirmou Christopher Haskew, epidemiologista da OMS. 

Funeral. Para a Organização Mundial da Saúde, a epidemia teve origem em Bikoro e depois se alastrou para Mbandaka por meio de duas pessoas que participaram do funeral de uma das primeiras vítimas. Foram listadas mais de 600 pessoas que podem ter tido contato com as vítimas conhecidas. Mas novos casos continuam a surgir e precisam ser investigados. 

Manter as pessoas isoladas também não é fácil. Segundo a MSF, entre 20 e 22 de maio, três pacientes deixaram o campo de isolamento em Mbandaka – aparentemente levados pelos parentes no meio da noite. Dois morreram.

Algumas crenças tradicionais também fazem a situação piorar. Nessa região do Congo, lavar o morto é um rito importante num funeral; deitar as mãos sobre o corpo também é comum quando as pessoas vão a curandeiros tradicionais. Ambas as práticas colaboram para disseminar o vírus. Em Itopo, outro vilarejo atingido, os agentes de saúde não conseguiram impedir o enterro de uma vítima confirmada do ebola, criando um novo grupo de pacientes potenciais para monitorar. 

“Estamos com medo, mas não em pânico”, disse Roger Ikunka, de 65 anos, que trabalha em um dos portos de Mbandaka. Ele ouviu falar a respeito do surto de ebola pelo rádio e sabe o que fazer se um parente tiver febre. Pierre Formenty, o principal especialista da OMS no caso do ebola, disse que “sabemos como conter” a doença. “Mas não devemos subestimar esse vírus. Quando ouço alguém falar que já aprendemos as lições do passado, fico ainda mais preocupado”, afirmou.

Bikoro. Em 9 de maio, um dia depois que os primeiros casos de Ebola foram confirmados em Bikoro, um pedido urgente chegou à sede da Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma organização beneficente internacional. Os mapas daquela parte da República Democrática do Congo eram necessários para distribuir vacinas e ajuda médica. No entanto, não havia nenhum muito exato. 

O MSF voltou-se ao público em busca de ajuda. Voluntários, treinados e usando um tutorial online, começaram a analisar imagens de satélite e a desenhar mapas. Cerca de 450 pessoas já conseguiram assinalar cerca de 67 mil edificações e estruturas e 1.000 km de estradas na área onde ocorreu o surto, completando em dias uma tarefa que poderia ter levado meses. Alguns desses novos mapas já estão em campo. 

Esta não é a primeira vez que as organizações humanitárias recorrem à colaboração coletiva para ajudar a coletar dados. Quando o ebola se espalhou por partes da África Ocidental, em 2014, mais de 3 mil pessoas em todo o mundo ajudaram a adicionar cerca de 16 milhões de detalhes aos mapas. 

O mapeamento em colaboração coletiva também se mostra útil na proteção aos direitos humanos. A Anistia Internacional usou voluntários para mapear 326 mil km de Darfur, parte problemática do Sudão, para identificar crimes de guerra cometidos pelo governo. 

Primeiro, usaram imagens de satélite para localizar e assinalar aldeias. Depois, cerca de 6.000 ativistas procuraram pelas mudanças ao longo do tempo - edifícios que perderam seus telhados ou cercas que tinham sido derrubadas - como indicadores de que tais aldeias foram atacadas. 

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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