Acervo pessoal
Acervo pessoal

Exaustão e terapia se tornam rotina no combate à pandemia

Universidades e hospitais, acostumadas com as situações de cansaço dos times, criam serviços até pela internet

Leonardo Augusto e Ricardo Araujo, Especiais para O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

BELO HORIZONTE, NATAL — Ansiedade e medo são os principais distúrbios apresentados por profissionais de saúde atendidos durante a pandemia do novo coronavírus por um sistema de consulta a distância criado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Chamado Telepan Saúde, o sistema já atendeu cerca de 300 profissionais em todo o País. Há casos em que houve a decisão pelo afastamento de profissionais atendidos, que chegaram a apresentar quadros de depressão e risco de suicídio.

A plataforma foi criada no início da pandemia, em março, a partir de artigos sobre o tema publicados em outros países, conforme explica o psiquiatra e coordenador do sistema, Helian Nunes, da Associação Brasileira de Neuropsiquiatria e professor da UFMG. O atendimento é feito por enfermeiros, psicólogos e psiquiatras, todos voluntários. 

O atendimento e as orientações aos que recorrem ao Telepan acontecem por dois grupos – um para casos mais simples e outro para os mais graves, em que é recomendado atendimento presencial. Para ter acesso à consulta, os profissionais entram no site do sistema. De acordo com Nunes, os enfermeiros são os que mais procuram o serviço. “É o grupo mais vulnerável, não só pela carga horária, por estarem no front, mas também por vulnerabilidade salarial”, diz o coordenador. 

Assistente de um Centro de Atenção Psicossocial da Prefeitura de São Paulo, Adriana Domingos Ferreira, de 43 anos, recorreu ao Telepan com quadro de pânico e tristeza. Casada e mãe de uma menina, passou a trabalhar com medo ao longo da epidemia, mas a situação piorou depois de ter tido contato com quatro pacientes que contraíram a covid-19. “Temos caso de depressão entre parentes, e decidi que não passaria minha situação a eles.” Na avaliação da assistente social, a busca pelo programa evitou o pior. “Não fosse isso, não conseguiria me recuperar mais”.

Ansiedade

Com dez anos de profissão, a fisioterapeuta Ivanízia Soares viveu em Natal, no Rio Grande do Norte, realidades opostas. Enquanto salvava vidas na UTI de um hospital público, o forte estresse do dia a dia a levou a crises de ansiedade e choro.

Ivanízia se divide entre dois hospitais públicos de Natal que se tornaram referência do novo coronavírus, o Municipal e o Infantil Maria Alice Fernandes. Desde março, viu o aumento de serviço e a escassez de profissionais intensivistas. “Houve um crescimento exponencial nos atendimentos, mas sem ampliação dos quadros”, afirma.

A cada turno de seis horas, ela atende entre 6 e 10 pacientes. Durante a pandemia, a carga de trabalho aumentou em decorrência do estado grave da maioria dos internados nas UTIs. “A gente já não conseguia mais dar conta. Abriram leitos de UTI, mas não contrataram fisioterapeutas.”

A fisioterapeuta passou 15 dias afastada dos hospitais e só retornou ao ambiente de trabalho após iniciar sessões de terapia com um psicólogo. “Hoje, sinto melhora graça a esse tratamento”, afirma. 

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