Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Bolsonaro ignora lockdown feito em Chapecó e credita redução de casos de covid a tratamento precoce

Cidade enfrentou colapso de saúde em fevereiro, precisou transferir pacientes, adotar restrições de circulação e ampliar o número de leitos

Mateus Vargas e Fábio Bispo,, Especial para o Estadão

05 de abril de 2021 | 19h50
Atualizado 06 de abril de 2021 | 15h24

BRASÍLIA - Apontada pelo presidente Jair Bolsonaro como exemplo no combate à covid-19, Chapecó (SC) tem 100% das UTIs lotadas no SUS e rede privada. O município acumula ainda mais mortes por 100 mil habitantes do que o País e Santa Catarina. A cidade enfrentou colapso de saúde em fevereiro, precisou transferir pacientes, adotar restrições de circulação e ampliar o número de leitos. Chapecó tem 537 mortos pela pandemia, sendo que mais de 410 foram registrados neste ano.

Bolsonaro disse nesta segunda-feira, 5, que visitará a cidade que fez um “trabalho excepcional” contra a pandemia e deu “liberdade” a médicos para prescreverem o “tratamento precoce”, ou seja, medicamentos sem eficácia para a covid-19, como a hidroxicloroquina. Mais cedo, o presidente compartilhou vídeo em que o prefeito da cidade, João Rodrigues (PSD), celebra a queda de internações e a desativação de uma unidade de terapia semi-intensiva. Mesmo assim, a ocupação de leitos ainda é alta em toda região Oeste catarinense, segundo dados do Estado, com 98% de ocupação.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, deve acompanhar Bolsonaro em Chapecó. O médico não é um defensor dos medicamentos do "kit covid-19", mas também não desestimula o uso do tratamento que virou bandeira de Bolsonaro na pandemia. 

Apesar do entusiasmo do presidente, Chapecó apresenta taxa de 243 mortos para cada 100 mil habitantes, superior à média nacional (157,7 vítimas) e de Santa Catarina (158). Os dados foram extraídos do site do Ministério da Saúde e não consideram a estratificação da população. Há ainda 193 pessoas internadas na cidade, número superior ao de 20 de fevereiro (183 internados), quando a cidade estava em colapso.

Mesmo sem espaço para internar pacientes graves, o prefeito João Rodrigues disse ao Estadão que a doença está controlada na cidade. Ele atribui a queda de casos à testagem e tratamento rápido. “Está 100% controlada. O que tem são as UTIs lotadas”, afirma Rodrigues, que alega que a ocupação de leitos na região segue altíssima por causa de pacientes de fora da cidade. 

A região de Chapecó foi a primeira a ter o sistema de saúde em colapso com o agravamento da doença após as festas de fim de ano. Mais de 75% das mortes na cidade ocorreram este ano, muitas sem atendimento de UTI. 

A fila por leitos no tratamento semi-intensivo reduziu após a abertura de novos leitos, contratação de pessoal e, principalmente, segundo especialistas, com a adoção do lockdown parcial de 14 dias, em março, que proibiu abertura de serviços não essenciais e suspendeu as aulas. Mesmo assim, a ocupação de leitos ainda é alta em toda região oeste, segundo dados do Estado, com 98% de ocupação.

Ao assumir a cidade, em janeiro, semanas antes do colapso, Rodrigues afrouxou as restrições de circulação contra a covid-19 e ampliou o horário de funcionamento de bares. Quando Chapecó se tornou o epicentro da doença no Estado e teve que transferir pacientes para outras regiões por falta de leito, em fevereiro, o prefeito teve de recuar e adotar quarentena mais dura que o resto do Estado. 

Em áudio encaminhado a apoiadores, ele negou que estivesse implantando lockdown, mas que o fechamento do comércio era necessário porque nenhuma outra medida funcionou. No áudio, pede opinião da classe empresarial.

Em live, quando prorrogou a medida por mais uma semana, disse: “Não é o que eu quero, não é minha vontade, mas eu sou obrigado a fazer isso, eu tenho responsabilidade como prefeito da cidade”, e emenda se desculpando pela medida. “Me desculpem, mas eu não tenho o que fazer. Por essa razão, fica o comércio fechado por mais uma semana”.

Rodrigues disse que as restrições mais duras não ajudaram a reduzir a contaminação pela covid-19, apesar de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontarem benefícios do distanciamento social. Para o prefeito, as restrições foram úteis para dar tempo para a cidade ampliar leitos, mas agora é "proibido" falar em "lockdown" em Chapecó.

O prefeito disse que a alta média de mortes na pandemia se deve ao poder de contaminação e de agravar a doença da mutação da covid-19. "Fomos a primeira cidade, depois de Manaus, a receber a nova cepa."

Rodrigues também afirmou que liberou "quem segue a ciência" e quem indica o "tratamento precoce" a trabalhar livremente em Chapecó. "Tem lugar para todo mundo." Apesar do número de mortes, o prefeito afirma que a cidade pode ser um exemplo ao País. "A economia está bombando", disse ele. 

Sobre a adoção do tratamento precoce, Neusa Luiz, presidente da Federação das Santas Casas, Hospitais e Entidades Filantrópicas de Santa Catarina, e diretora do Hospital Regional São Paulo, em Xanxerê, no oeste catarinense, disse que o tratamento precoce “prejudica mais que ajuda” e muitas pessoas que fazem uso acabam sendo internadas “tarde demais, além das complicações cardiológicas”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.