Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Existe uma ‘fórmula’ para vivenciar o luto?

Seja por um ídolo, como a cantora Marília Mendonça, ou por uma pessoa próxima, é preciso respeitar a dor de quem perdeu alguém

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

13 de novembro de 2021 | 05h00

Luto. O rompimento do vínculo com uma pessoa muito importante provoca uma dor insuportável. Esse sentimento pode abater tanto aquele que perde alguém próximo, como nas mais de 610 mil mortes por covid no Brasil, quanto um fã ardoroso que vê a partida de um ídolo, caso recente de Marília Mendonça. Marcado por uma carga sombria pelo sofrimento que envolve, o luto causa incômodo não apenas em quem o atravessa, mas nas pessoas que lidam com os enlutados.

Sem saber como ajudar, muita gente pensa que o melhor é empurrar a pessoa para seguir adiante. Mas como voltar ao cotidiano se ele não é normal? “O luto não é um videogame que você vai passando as fases e zera o jogo, que vai percorrer aqueles estágios e pronto. O ser humano é muito mais complexo que isso. Pode durar seis meses, um ano, dez anos, a vida toda”, afirma Mariele Correa, professora de Psicologia no câmpus de Assis da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

E é legítimo sofrer por alguém que não se conhecia pessoalmente. “No caso da Marília Mendonça, tem fãs com um vínculo muito forte com ela”, explica Elaine Alves, pesquisadora convidada do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). “Como a história de vida vem à tona com a notícia, alguém que não sabia dela pode sim ficar enlutada porque isso aflora outras dores. Imagina então as mulheres que se sentiam representadas por ela.” Ouvir as músicas, falar do ídolo, tudo pode ser parte do processo, segundo Elaine, uma das organizadoras de A Psicologia em Acidentes e Desastres Aéreos, livro lançado em 2021.

Luto coletivo ou individual, concreto ou simbólico

A especialista lembra da comoção no caso Isabella Nardoni, menina de 5 anos morta pelo pai e pela madrasta em São Paulo, em 2008. “Ayrton Senna e Lady Dy são os maiores fenômenos de luto coletivo”, diz Elaine. “A Marília Mendonça disparou o luto coletivo, e a covid, também.”

Segundo ela, no coletivo as pessoas podem se acolher, ficar juntas, e ele também é mais rápido do que o individual. “Mas na pandemia muitos enlutados estão em casa (pela necessidade de distanciamento). Isso dificulta fechar o ciclo”, afirma a fundadora da Prestar Cuidados em Psicologia, com atendimento ao público e cursos para profissionais da área. “Mesmo vendo a pessoa morta, você não entende, até depois do enterro. Os rituais são fundamentais para a despedida.” Na pandemia, doentes ficaram um longo tempo internados isolados e vítimas da covid não tiveram um velório convencional pelo risco de contágio.

Elaine explica que o luto pode ser concreto, quando é decorrente de uma morte, ou simbólico, se motivado por aposentadoria, demissão, perdas de parte do corpo, descoberta de doença crônica e nascimento de um filho com deficiência, por exemplo. “ O sentimento é o mesmo”, diz.

Teóricos mapearam as fases mais comuns do luto, porém elas não devem ser encaradas como um caminho linear no qual todos passariam por cada etapa e da mesma maneira. A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross apontou cinco fases: a negação (descrença no ocorrido), a raiva (revolta pela situação), a barganha (negociação para adiar a dor), a depressão (sensação de impotência e impacto na vida de quem sofre) e a aceitação (expressão mais serena de sentimentos).

“As teorias são importantes para nós, profissionais, porque nos ajudam a entender reações, atitudes e sentimentos”, diz a professora da Unesp. “Cabe a nós compreender como cada pessoa vivencia o luto, não procurando enquadrá-la num modelo fechado”, ressalta Mariele. Ela explica que uma das vertentes dos autores é que o luto é um processo dual. “A pessoa vai oscilando entre um polo para a perda e outro para a restauração. Tem dia em que não quer sair da cama. No dia seguinte, vai ao banco e cozinha. Nessa oscilação, vai encontrando uma forma de atravessar o luto.”

De acordo com ela, não há como superar totalmente a perda de alguém que se ama. O processo envolve sentimentos às vezes contraditórios, por exemplo, culpa, raiva, medo e tristeza. Ao longo dele, quem fica vai reintegrando a pessoa perdida, ressignificando a dor em lembranças. “A gente só consegue elaborar o luto vivenciando na sua integridade, com todos os sentimentos que envolve. A pessoa precisa se autorizar a se enlutar, reconhecer e viver os sentimentos. E quem está em volta tem de dar espaço para ela expressar o que sente”, afirma a psicóloga.

Há um ano, Mariele desenvolve na Unesp um projeto para pessoas enlutadas pela pandemia, com reuniões online e em grupo – inscrições até 27/11 pelo email grupoacolhimento covid@gmail.com. O trabalho deu origem à cartilha E os Que Ficam?, disponível para download e destinada a quem perdeu alguém próximo em decorrência da covid. A publicação também indica filmes (Cerejeiras em Flor e Para Sempre, entre eles) e livros (como Morreste-me, de José Luiz Peixoto, e O Peso do Pássaro Morto, de Aline Bei). “Luto não é doença. Ele nos diz de uma história de amor, seja com figuras familiares, amigos, ídolos e bichinhos de estimação, e do processo de ressignificar essa história”, ensina a professora da Unesp. Afinal, como escreve Noemi Jaffe em Lili - Novela de Um Luto, “o que resta de alguém, pelo olhar de quem fica, é mesmo isso, o amor”.

Como amparar quem atravessa o luto

Apoio: Permita que a pessoa se sinta triste. Não use frases como “bola para frente”, “seja forte”, “não fica assim” ou “você vai esquecer”.

Prazo: Respeite o processo de cada um. “O luto não tem tempo porque é individual, pode demorar anos”, afirma Elaine, especialista no tema.

Empatia: Deixe a pessoa falar sobre quem se foi e expressar o que sente. “Escute, seja um abraço, um ombro, um ouvido”, diz a psicóloga Mariele.

Auxílio: Sugira ajuda profissional, se a dor seguir por muito tempo e atrapalhar o sono, a alimentação ou o cotidiano. “São vários sinais juntos”, diz Elaine. “Após dois anos, é normal ainda chorar, mas estar chorando direto, não.”

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